Almeida Revista e Corrigida (1969) (RC69)
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Jó contesta que os ímpios, muitas vezes, fiquem sem castigo nesta vida

241VISTO que do Todo-poderoso se não encobriram os tempos, por que não veem os seus dias os que o conhecem? 2Até os limites removem; roubam os rebanhos, e os apascentam. 3Levam o jumento do órfão; tomam em penhor o boi da viúva. 4Desviam do caminho os necessitados; e os miseráveis da terra juntos se escondem. 5Eis que, como jumentos monteses no deserto, saem à sua obra, madrugando para a presa; o campo raso mantimento a eles e aos seus filhos. 6No campo segam o seu pasto, e vindimam a vinha do ímpio. 7Ao nu fazem passar a noite sem roupa, não tendo ele coberta contra o frio. 8Pelas correntes das montanhas são molhados, e, não tendo refúgio, abraçam-se com as rochas. 9Ao orfãozinho arrancam do peito, e aceitam o penhor do pobre. 10Fazem com que os nus vão sem vestido e aos famintos tiram as espigas. 11Dentro dos seus muros fazem o azeite; pisam os lagares, e ainda têm sede. 12Desde as cidades gemem os homens, e a alma dos feridos clama, e contudo Deus lho não imputa como loucura. 13Eles estão entre os que se opõem à luz; não conhecem os seus caminhos, e não permanecem nas suas veredas. 14De madrugada se levanta o homicida, mata o pobre e necessitado, e de noite é como o ladrão. 15Assim como os olhos do adúltero aguardam o crepúsculo, dizendo: Não me verá olho nenhum; e oculta o rosto; 16Nas trevas minam as casas que de dia assinalaram; não conhecem a luz. 17Porque a manhã para todos eles é como sombra de morte; porque, sendo conhecidos, sentem os pavores da sombra da morte. 18É ligeiro sobre a face das águas; maldita é a sua porção sobre a terra; não volta pelo caminho das vinhas. 19A secura e o calor desfazem as águas da neve; assim desfará a sepultura aos que pecaram. 20A madre se esquecerá dele, os vermes o comerão gostosamente; nunca mais haverá lembrança dele, e a iniquidade se quebrará como a árvore. 21Aflige a estéril que não dá à luz, e à viúva não faz bem; 22Até aos poderosos arrasta com a sua força; se ele se levanta, não há vida segura. 23Se Deus lhes dá descanso, estribam-se nisso; seus olhos porém estão nos caminhos deles. 24Por um pouco se alçam, e logo desaparecem; são abatidos, encerrados como todos os outros, e cortados como as pontas das espigas. 25Se agora não é assim, quem me desmentirá e desfará as minhas razões?

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Bildade sustenta que o homem não pode, sem presunção, justificar-se diante de Deus

251ENTÃO respondeu Bildade o suíta, e disse: 2Com ele estão domínio e temor; ele faz paz nas suas alturas. 3Porventura têm número os seus exércitos? E para quem não se levanta a sua luz? 4Como pois seria justo o homem perante Deus, e como seria puro aquele que nasce da mulher? 5Olha, até a lua não resplandece, e as estrelas não são puras aos seus olhos. 6E quanto menos o homem, que é um verme, e o filho do homem, que é um bicho!

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Jó repreende Bildade e exalta o poder de Deus

261JÓ, porém, respondeu e disse: 2Como ajudaste aquele que não tinha força e sustentaste o braço que não tinha vigor! 3Como aconselhaste aquele que não tinha sabedoria, e plenamente lhe fizeste saber a causa, assim como era! 4Para quem proferiste palavras? E de quem é o espírito que saiu de ti? 5Os mortos tremem debaixo das águas com os seus moradores. 6O inferno está nu perante ele, e não há coberta para a perdição. 7O norte estende sobre o vazio; suspende a terra sobre o nada. 8Prende as águas em densas nuvens, e a nuvem não se rasga debaixo delas. 9Encobre a face do seu trono, e sobre ela estende a sua nuvem. 10Marcou um limite à superfície das águas em redor, até aos confins da luz e das trevas. 11As colunas do céu tremem, e se espantam da sua ameaça. 12Com a sua força fende o mar, e com o seu entendimento abate a sua soberba. 13Pelo seu Espírito ornou os céus; a sua mão formou a serpente enroscadiça. 14Eis que isto são apenas as orlas dos seus caminhos; e quão pouco é o que temos ouvido dele! Quem pois entenderia o trovão do seu poder?