Almeida Revista e Corrigida (1969) (RC69)
19

Jó queixa-se da obstinação e dureza dos seus amigos

191RESPONDEU porém Jó, e disse: 2Até quando entristecereis a minha alma, e me quebrantareis com palavras? 3Já dez vezes

19.3:
Gn 31.7
Lv 26.26
me envergonhastes; vergonha não tendes de contra mim vos endurecerdes. 4Embora haja eu, na verdade, errado, comigo ficará o meu erro. 5Se deveras vos levantais contra mim, e me arguis pelo meu opróbrio, 6Sabei agora que Deus é que me transtornou, e com a sua rede me cercou. 7Eis que clamo: Violência! mas não sou ouvido; grito: Socorro! mas não justiça. 8O meu
19.8:
Jó 3.23
caminho ele entrincheirou, e não posso passar; e nas minhas veredas pôs trevas. 9Da minha honra me despojou; e tirou-me a coroa da minha cabeça. 10Quebrou-me de todos os lados, e eu me vou; e arrancou a minha esperança, como a uma árvore. 11E fez inflamar contra mim a sua ira,
19.11:
Jó 13.24
Lm 2.5
e me reputou para consigo como um de seus inimigos. 12Juntas vieram as suas tropas,
19.12:
Jó 30.12
e prepararam contra mim o seu caminho, e se acamparam ao redor da minha tenda. 13Pôs longe de mim a meus irmãos, e os que me conhecem deveras me estranharam. 14Os meus parentes me deixaram, e os meus conhecidos se esqueceram de mim. 15Os meus domésticos e as minhas servas me reputaram como um estranho; vim a ser um estrangeiro aos seus olhos. 16Chamei a meu criado, e ele me não respondeu; cheguei a suplicar com a minha boca. 17O meu bafo se fez estranho a minha mulher, e a minha súplica aos filhos do meu corpo. 18Até os rapazes
19.18:
2Rs 2.23
me desprezam, e, levantando-me eu, falam contra mim. 19Todos os homens do meu secreto conselho me abominam e até os que eu amava se tornaram contra mim. 20Os meus ossos se
19.20:
Jó 30.30
Lm 4.8
apegaram à minha pele e à minha carne, e escapei com a pele dos meus dentes. 21Compadecei-vos de mim, amigos meus, compadecei-vos de mim,
19.21:
Jó 1.11
porque a mão de Deus me tocou. 22Por que me perseguis assim como Deus, e da minha carne vos não fartais? 23Quem me dera agora, que as minhas palavras se escrevessem! Quem me dera, que se gravassem num livro! 24E que, com pena de ferro, e com chumbo, para sempre fossem esculpidas na rocha! 25Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra. 26E depois de consumida a minha pele, ainda em minha carne
19.26:
1Co 13.12
1Jo 3.2
verei a Deus. 27Vê-lo-ei por mim mesmo, e os meus olhos, e não outros, o verão; e por isso os meus rins se consomem dentro de mim. 28Na verdade, que devíeis dizer:
19.28:
Jó 19.22
Por que o perseguimos? Pois a raiz da 19.28: Hebr. palavra ou matériaacusação se acha em mim. 29Temei vós mesmos a espada; porque o furor traz os castigos da espada, para saberdes que um juízo.

20

Sofar descreve as calamidades que os ímpios sofrem

201ENTÃO respondeu Sofar, o naamatita, e disse: 2Visto que os meus pensamentos me fazem responder, eu me apresso. 3Eu ouvi a repreensão, que me envergonha, mas o espírito do meu entendimento responderá por mim. 4Porventura não sabes tu que desde a antiguidade, desde que o homem foi posto sobre a terra, 5O júbilo dos ímpios é breve, e a alegria dos hipócritas apenas dum momento? 6Ainda que a sua altura

20.6:
Is 14.13-14
Ob 3-4
suba até ao céu, e a sua cabeça chegue até às nuvens, 7Como o seu próprio esterco perecerá para sempre; e os que o viam dirão: Onde está? 8Como um sonho voa, e não será achado, e será afugentado como uma visão da noite. 9O olho
20.9:
Jó 7.8,10
8.18
que o viu jamais o verá, nem olhará mais para ele o seu lugar. 10Os seus filhos procurarão agradar aos pobres, e as suas mãos restaurarão
20.10:
Jó 13.26
20.18
a sua fazenda. 11Os seus ossos
20.11:
Jó 21.26
estão cheios do vigor da sua juventude, mas deitar-se-ão com ele no pó. 12Ainda que o mal lhe seja doce na boca, e ele o esconda debaixo da sua língua, 13E o guarde, e o não deixe, antes o retenha no seu paladar, 14Contudo a sua comida se mudará nas suas entranhas; fel de áspides será interiormente. 15Engoliu fazendas, mas vomitá-las-á; do seu ventre Deus as lançará. 16Veneno de áspides sorverá; língua de víbora o matará. 17Não verá as correntes,
20.17:
Jr 17.6
os rios e os ribeiros de mel e manteiga. 18Restituirá o seu trabalho,
20.18:
Jó 20.10,15
e não o engolirá; conforme ao poder de sua mudança, não saltará de gozo. 19Porquanto oprimiu, desamparou os pobres, e roubou a casa que não edificou; 20Porquanto não sentiu sossego
20.20:
Ec 5.13-14
no seu ventre, da sua tão desejada fazenda cousa nenhuma reterá. 21Nada lhe sobejará para comer; pelo que a sua fazenda não será durável. 22Sendo plena a sua abastança, estará angustiado; toda a mão dos miseráveis virá sobre ele. 23Haja porém ainda de que possa encher o seu ventre, e Deus mandará sobre ele o ardor da sua ira, e a fará chover sobre
20.23:
Nm 11.33
ele quando for a comer. 24Ainda que fuja
20.24:
Is 24.18
Jr 48.43
Am 5.19
das armas de ferro, o arco de aço o atravessará. 25Arrancará o dardo do seu corpo, e resplandecente
20.25:
Jó 16.13
18.11
virá do seu fel; e haverá sobre ele assombros. 26Toda a escuridão se ocultará nos seus esconderijos; um fogo não assoprado o consumirá, e devorará o que ficar na sua tenda. 27Os céus manifestarão a sua iniquidade; e a terra se levantará contra ele. 28As rendas de sua casa serão transportadas; no dia da sua ira todas se derramarão. 29Esta,
20.29:
Jó 17.13
31.2-3
da parte de Deus, é a porção do homem ímpio; esta é a herança que Deus lhe reserva.

21

Jó mostra que os ímpios muitas vezes gozam prosperidade nesta vida

211RESPONDEU porém Jó, e disse: 2Ouvi atentamente as minhas razões; e isto vos sirva de consolação. 3Sofrei-me, e eu falarei; e, havendo eu falado,

21.3:
Jó 16.10
17.2
zombai. 4Porventura eu me queixo a algum homem? Mas, ainda que assim fosse, por que se não angustiaria o meu espírito? 5Olhai para mim, e pasmai; e ponde a mão
21.5:
Jz 18.19
Jó 29.9
40.4
sobre a boca, 6Porque, quando me lembro disto, me perturbo, e a minha carne é sobressaltada de horror. 7Por que razão
21.7:
Jó 12.6
Jr 12.1
Hc 1.16
vivem os ímpios, envelhecem, e ainda se esforçam em poder? 8A sua semente se estabelece com eles perante a sua face, e os seus renovos perante os seus olhos. 9As suas casas têm paz, sem temor; e a vara de Deus não está sobre eles. 10O seu touro gera, e não falha, pare a sua vaca,
21.10:
Êx 23.26
e não aborta. 11Fazem sair as suas crianças, como a um rebanho, e seus filhos andam saltando. 12Levantam a voz, ao som do tamboril e da harpa, e alegram-se ao som dos órgãos. 13Na prosperidade gastam
21.13:
Jó 36.11
os seus dias, e num momento descem à sepultura. 14E, todavia,
21.14:
Jó 22.17
dizem a Deus: Retira-te de nós; porque não desejamos ter conhecimento dos teus caminhos. 15Quem
21.15:
Êx 5.2
Jó 34.9
35.3
Ml 3.14
é o Todo-poderoso, para que nós o sirvamos? E que nos aproveitará que lhe façamos orações? 16Vede porém que o seu bem não está na mão deles;
21.16:
Jó 22.18
Pv 1.10
esteja longe de mim o conselho dos ímpios! 17Quantas
21.17:
Jó 18.6
vezes sucede que se apaga a candeia dos ímpios, e lhes sobrevém a sua destruição? E
21.17:
Jó 20.28-29
Deus na sua ira lhes reparte dores! 18Porque
21.18:
Is 17.13
29.5
Os 13.3
são como a palha diante do vento, e como a pragana, que arrebata o redemoinho. 19Deus guarda
21.19:
Êx 20.5
a sua violência para seus filhos, e lhe dá o pago, para que o conheça. 20Seus olhos veem a sua ruína,
21.20:
Is 51.17
Jr 25.15
Ap 14.10
19.15
e ele bebe do furor do Todo-poderoso. 21Porque, que prazer teria na sua casa depois de si, cortando-se-lhe o número dos seus meses? 22Porventura
21.22:
Is 40.13
45.9
Rm 11.34
1Co 2.16
a Deus se ensinaria ciência, a ele que julga os excelsos? 23Um morre na força da sua plenitude, estando todo quieto e sossegado. 24Os seus baldes estão cheios de leite, e os seus ossos estão regados de tutanos. 25E outro morre, ao contrário, na amargura do seu coração, não havendo provado do bem. 26Juntamente
21.26:
Jó 20.11
Ec 9.2
jazem no pó, e os bichos os cobrem. 27Eis que conheço bem os vossos pensamentos; e os maus intentos com que injustamente me fazeis violência. 28Porque direis:
21.28:
Jó 20.7
Onde está a casa do príncipe e onde a tenda em que morava o ímpio? 29Porventura o não perguntastes aos que passam pelo caminho, e não conheceis os seus sinais? 30Que
21.30:
Pv 16.4
2Pe 2.9
o mau é preservado para o dia da destruição, e arrebatado no dia do furor? 31Quem acusará diante dele
21.31:
Gl 2.11
o seu caminho, e quem lhe dará o pago do que faz? 32Finalmente é levado à sepultura, e vigia no túmulo. 33Os torrões do vale lhe são doces, e ele arrasta após si a todos os homens; e antes dele havia inumeráveis. 34Como pois me consolais em vão? Pois nas vossas respostas só há falsidade.

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