Almeida Revista e Corrigida (1969) (RC69)
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A vitória de Jônatas sobre os filisteus

141SUCEDEU pois que um dia disse Jônatas, filho de Saul, ao moço que lhe levava as armas: Vem, passemos a guarnição dos filisteus que está lá daquela banda. Porém não o fez saber a seu pai. 2E estava Saul na extremidade de Gibeá, debaixo da romeira que estava em Migrom; e o povo que havia com ele eram uns seiscentos homens. 3E Aía, filho de Aitube, irmão de Icabô, o filho de Fineias, filho de Eli, sacerdote do Senhor em Silo, trazia o éfode: porém o povo não sabia que Jônatas tinha ido. 4E nas passagens pelas quais Jônatas procurava passar à guarnição dos filisteus, desta banda havia uma penha aguda, e da outra banda uma penha aguda: e era o nome de uma Bozez, e o nome da outra Sené. 5Uma penha para o norte estava defronte de Micmas, e a outra para o sul defronte de Gibeá. 6Disse pois Jônatas ao moço que lhe levava as armas: Vem, passemos à guarnição destes incircuncisos; porventura obrará o Senhor por nós, porque para com o Senhor nenhum impedimento de livrar com muitos ou com poucos. 7Então o seu pajem de armas lhe disse: Faze tudo o que tens no coração; volta, eis-me aqui contigo, conforme ao teu coração. 8Disse pois Jônatas: Eis que passaremos àqueles homens, e nos descobriremos a eles. 9Se nos disserem assim: Parai até que cheguemos a vós; então ficaremos no nosso lugar, e não subiremos a eles. 10Porém, dizendo assim: Subi a nós; então subiremos, pois o Senhor os tem entregado na nossa mão, e isto nos será por sinal. 11Descobrindo-se ambos eles pois à guarnição dos filisteus, disseram os filisteus: Eis que os hebreus saíram das cavernas em que se tinham escondido. 12E os homens da guarnição responderam a Jônatas e ao seu pajem de armas, e disseram: Subi a nós, e nós vo-lo ensinaremos. E disse Jônatas ao seu pajem de armas: Sobe atrás de mim, porque o Senhor os tem entregado na mão de Israel. 13Então trepou Jônatas com os pés e com as mãos, e o seu pajem de armas atrás dele: e caíram diante de Jônatas, e o seu pajem de armas os matava atrás dele. 14E sucedeu esta primeira derrota, em que Jônatas e o seu pajem de armas feriram até uns vinte homens, quase no meio de uma geira de terra que uma junta de bois podia lavrar. 15E houve tremor no arraial, no campo e em todo o povo; também a mesma guarnição e os destruidores tremeram, e até a terra se alvoroçou, porquanto era tremor de Deus. 16Olharam pois as sentinelas de Saul em Gibeá de Benjamim, e eis que a multidão se derramava, e fugia batendo-se. 17Disse então Saul ao povo que estava com ele: Ora contai, e vede quem é que saiu dentre nós. E contaram, e eis que nem Jônatas nem o seu pajem de armas estavam ali. 18Então Saul disse a Aía: Traze aqui a arca de Deus (porque naquele dia estava a arca de Deus com os filhos de Israel). 19E sucedeu que, estando Saul ainda falando com o sacerdote, o alvoroço que havia no arraial dos filisteus ia crescendo muito, e se multiplicava, pelo que disse Saul ao sacerdote: Retira a tua mão. 20Então Saul e todo o povo que havia com ele se ajuntaram, e vieram à peleja; e eis que a espada dum era contra o outro, e houve mui grande tumulto. 21Também com os filisteus havia hebreus, como dantes, que subiram com eles ao arraial em redor: e também estes se ajuntaram com os israelitas que estavam com Saul e Jônatas. 22Ouvindo pois todos os homens de Israel que se esconderam pela montanha de Efraim que os filisteus fugiam, eles também os perseguiram de perto na peleja. 23Assim livrou o Senhor a Israel naquele dia: e o arraial passou a Bete-Áven.

O atrevido voto de Saul

24E estavam os homens de Israel já exaustos naquele dia, porquanto Saul conjurara o povo, dizendo: Maldito o homem que comer pão até à tarde, para que me vingue de meus inimigos. Pelo que todo o povo se absteve de provar pão. 25E todo o povo chegou a um bosque: e havia mel na superfície do campo. 26E, chegando o povo ao bosque, eis que havia um manancial de mel: porém ninguém chegou a mão à boca, porque o povo temia a conjuração. 27Porém Jônatas não tinha ouvido quando seu pai conjurara o povo, e estendeu a ponta da vara que tinha na mão, e a molhou no favo de mel; e, tornando a mão à boca, aclararam-se os seus olhos. 28Então respondeu um do povo, e disse: Solenemente conjurou teu pai o povo, dizendo: Maldito o homem que comer hoje pão. Pelo que o povo desfalecia. 29Então disse Jônatas: Meu pai tem turbado a terra; ora vede como se me aclararam os olhos por ter provado um pouco deste mel. 30Quanto mais se o povo hoje livremente tivesse comido do despojo que achou de seus inimigos. Porém agora não foi tão grande o estrago dos filisteus. 31Feriram porém aquele dia aos filisteus, desde Micmas até Ajalom, e o povo desfaleceu em extremo. 32Então o povo se lançou ao despojo, e tomaram ovelhas, e vacas, e bezerros, e os degolaram no chão; e o povo os comeu com sangue. 33E o anunciaram a Saul, dizendo: Eis que o povo peca contra o Senhor, comendo com sangue. E disse ele: Aleivosamente obrastes: revolvei-me hoje uma grande pedra. 34Disse mais Saul: Derramai-vos entre o povo, e dizei-lhes: Trazei-me cada um o seu boi, e cada um a sua ovelha, e degolai-os aqui, e comei, e não pequeis contra o Senhor, comendo com sangue. Então todo o povo trouxe de noite, cada um com a sua mão, o seu boi e os degolaram ali. 35Então edificou Saul um altar ao Senhor: este foi o primeiro altar que edificou ao Senhor.

Jônatas é condenado à morte

36Depois disse Saul: Desçamos de noite atrás dos filisteus, e despojemo-los, até que amanheça a luz, e não deixemos de resto um homem deles. E disseram: Tudo o que parecer bem aos teus olhos faze. Disse porém o sacerdote: Cheguemo-nos aqui a Deus. 37Então consultou Saul a Deus, dizendo: Descerei atrás dos filisteus? entregá-los-ás na mão de Israel? Porém aquele dia lhe não respondeu. 38Então disse Saul: Chegai-vos para cá, todos os chefes do povo, e informai-vos, e vede em que se cometeu hoje este pecado: 39Porque vive o Senhor que salva a Israel, que, ainda que seja em meu filho Jônatas, certamente morrerá. E nenhum de todo o povo lhe respondeu. 40Disse mais a todo o Israel: Vós estareis duma banda, e eu e meu filho Jônatas estaremos da outra banda. Então disse o povo a Saul: Faze o que parecer bem aos teus olhos. 41Falou pois Saul ao Senhor Deus de Israel: Mostra o inocente. Então Jônatas e Saul foram tomados por sorte, e o povo saiu livre. 42Então disse Saul: Lançai a sorte entre mim e Jônatas, meu filho. E foi tomado Jônatas. 43Disse então Saul a Jônatas: Declara-me o que tens feito. E Jônatas lho declarou, e disse: Tão somente provei um pouco de mel com a ponta da vara que tinha na mão; eis que devo morrer? 44Então disse Saul: Assim me faça Deus, e outro tanto, que com certeza morrerás, Jônatas. 45Porém o povo disse a Saul: Morrerá Jônatas, que obrou tão grande salvação em Israel? nunca tal suceda; vive o Senhor, que não lhe há de cair no chão um só cabelo da sua cabeça! pois com Deus fez isso hoje. Assim o povo livrou a Jônatas, para que não morresse. 46E Saul deixou de seguir os filisteus e os filisteus se foram ao seu lugar. 47Então tomou Saul o reino sobre Israel: e pelejou contra todos os seus inimigos em redor: contra Moabe, e contra os filhos de Amom, e contra Edom, e contra os reis de Zoba, e contra os filisteus, e para onde quer que se voltava executava castigos. 48E houve-se valorosamente, e feriu aos amalequitas: e libertou a Israel da mão dos que o saqueavam. 49E os filhos de Saul eram Jônatas, e Isvi, e Malquisua: e os nomes de suas duas filhas eram estes: o nome da mais velha Merabe, e o nome da mais nova, Mical. 50E o nome da mulher de Saul, Ainoã, filha de Aimaás: e o nome do general do exército, Abner, filho de Ner, tio de Saul. 51E Quis, pai de Saul e Ner, pai de Abner, eram filhos de Abiel. 52E houve uma forte guerra contra os filisteus, todos os dias de Saul: pelo que Saul a todos os homens valentes e valorosos que via os agregava a si.

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Samuel manda a Saul destruir os amalequitas

151ENTÃO disse Samuel a Saul: Enviou-me o Senhor a ungir-te rei sobre o seu povo, sobre Israel: ouve pois agora a voz das palavras do Senhor. 2Assim diz o Senhor dos exércitos: Eu me recordei do que fez Amaleque a Israel; como se lhe opôs no caminho, quando subia do Egito. 3Vai pois agora e fere a Amaleque; e destrói totalmente a tudo o que tiver, e não lhe perdoes; porém matarás desde o homem até à mulher, desde os meninos até aos de mama, desde os bois até às ovelhas, e desde os camelos até aos jumentos. 4E Saul convocou ao povo, e os contou em Teilaim, duzentos mil homens de pé, e dez mil homens de Judá. 5Chegando pois Saul à cidade de Amaleque, pôs emboscada no vale. 6E disse Saul aos queneus: Ide-vos, retirai-vos e saí do meio dos amalequitas, para que vos não destrua juntamente com eles, porque vós usastes de misericórdia com todos os filhos de Israel, quando subiram do Egito. Assim os queneus se retiraram do meio dos amalequitas. 7Então feriu Saul aos amalequitas desde Havilá até chegar a Sur que está defronte do Egito. 8E tomou vivo a Agague, rei dos amalequitas; porém a todo o povo destruiu ao fio da espada. 9E Saul e o povo perdoaram a Agague, e ao melhor das ovelhas e das vacas, e às da segunda sorte, e aos cordeiros e ao melhor que havia, e não os quiseram destruir totalmente: porém a toda a cousa vil e desprezível destruíram totalmente.

Deus manda Samuel repreender a Saul

10Então veio a palavra do Senhor a Samuel, dizendo: 11Arrependo-me de haver posto a Saul como rei; porquanto deixou de me seguir, e não executou as minhas palavras. Então Samuel se contristou, e toda a noite clamou ao Senhor. 12E madrugou Samuel para encontrar a Saul pela manhã: e anunciou-se a Samuel, dizendo: Já chegou Saul ao Carmelo, e eis que levantou para si uma coluna. Então fez volta, e passou e desceu a Gilgal. 13Veio pois Samuel a Saul; e Saul lhe disse: Bendito tu do Senhor; executei a palavra do Senhor. 14Então disse Samuel: Que balido pois de ovelhas é este nos meus ouvidos, e o mugido de vacas que ouço? 15E disse Saul: De Amaleque as trouxeram; porque o povo perdoou ao melhor das ovelhas e das vacas, para as oferecer ao Senhor teu Deus: o resto porém temos destruído totalmente. 16Então disse Samuel a Saul: Espera, e te declararei o que o Senhor me disse esta noite. E ele disse-lhe: Fala. 17E disse Samuel: Porventura, sendo tu pequeno aos teus olhos, não foste por cabeça das tribos de Israel? e o Senhor te ungiu rei sobre Israel. 18E enviou-te o Senhor a este caminho, e disse: Vai, e destrói totalmente a estes pecadores, os amalequitas, e peleja contra eles, até que os aniquiles. 19Por que pois não deste ouvidos à voz do Senhor, antes voaste ao despojo, e fizeste o que parecia mal aos olhos do Senhor? 20Então disse Saul a Samuel: Antes dei ouvidos à voz do Senhor, e caminhei no caminho pelo qual o Senhor me enviou; e trouxe a Agague, rei de Amaleque, e os amalequitas destruí totalmente; 21Mas o povo tomou do despojo ovelhas e vacas, o melhor do interdito, para oferecer ao Senhor teu Deus em Gilgal. 22Porém Samuel disse: Tem porventura o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do Senhor? eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros. 23Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniquidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra do Senhor, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei. 24Então disse Saul a Samuel: Pequei porquanto tenho traspassado o dito do Senhor e as tuas palavras: porque temi ao povo e dei ouvidos à sua voz. 25Agora pois, te rogo, perdoa-me o meu pecado: e volta comigo, para que adore ao Senhor. 26Porém Samuel disse a Saul: Não tornarei contigo: porquanto rejeitaste a palavra do Senhor, já te rejeitou o Senhor, para que não sejas rei sobre Israel. 27E virando-se Samuel para se ir, ele lhe pegou pela borda da capa, e a rasgou. 28Então Samuel lhe disse: O Senhor tem rasgado de ti hoje o reino de Israel, e o tem dado ao teu próximo, melhor do que tu. 29E também aquele que é a Força de Israel não mente nem se arrepende: porquanto não é um homem para que se arrependa. 30Disse ele então: Pequei; honra-me porém agora diante dos anciãos do meu povo, e diante de Israel: e volta comigo, para que adore ao Senhor teu Deus. 31Então Samuel se tornou atrás de Saul: e Saul adorou ao Senhor.

Samuel mata a Agague

32Então disse Samuel: Trazei-me aqui a Agague, rei dos amalequitas. E Agague veio a ele animosamente; e disse Agague: Na verdade já passou a amargura da morte. 33Disse porém Samuel: Assim como a tua espada desfilhou as mulheres, assim ficará desfilhada a tua mãe entre as mulheres. Então Samuel despedaçou Agague perante o Senhor em Gilgal. 34Então Samuel se foi a Ramá: e Saul subiu a sua casa, a Gibeá de Saul. 35E nunca mais viu Samuel a Saul até ao dia da sua morte; porque Samuel teve dó de Saul. E o Senhor se arrependeu de que pusera a Saul rei sobre Israel.

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Deus manda Samuel ungir a Davi como rei

161ENTÃO disse o Senhor a Samuel: Até quando terás dó de Saul, havendo-o eu rejeitado, para que não reine sobre Israel? enche o teu vaso de azeite, e vem, enviar-te-ei a Jessé o belemita; porque dentre os seus filhos me tenho provido de um rei. 2Porém disse Samuel: Como irei eu? pois, ouvindo-o Saul, me matará. Então disse o Senhor: Toma uma bezerra das vacas em tuas mãos, e dize: Vim para sacrificar ao Senhor. 3E convidarás a Jessé ao sacrifício: e eu te farei saber o que hás de fazer, e ungir-me-ás a quem eu te disser. 4Fez pois Samuel o que dissera o Senhor, e veio a Belém: então os anciãos da cidade saíram ao encontro, tremendo, e disseram: De paz é a tua vinda? 5E disse ele: É de paz; vim sacrificar ao Senhor; santificai-vos e vinde comigo ao sacrifício. E santificou ele a Jessé e a seus filhos, e os convidou ao sacrifício. 6E sucedeu que, entrando eles, viu a Eliabe, e disse: Certamente está perante o Senhor o seu ungido. 7Porém o Senhor disse a Samuel: Não atentes para a sua aparência, nem para a altura da sua estatura, porque o tenho rejeitado, porque o Senhor não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração. 8Então chamou Jessé a Abinadabe: e o fez passar diante de Samuel, o qual disse: Nem a este tem escolhido o Senhor. 9Então Jessé fez passar a Sama: porém disse: Tão pouco a este tem escolhido o Senhor. 10Assim fez passar Jessé a seus sete filhos diante de Samuel: porém Samuel disse a Jessé: O Senhor não tem escolhido a estes. 11Disse mais Samuel a Jessé: Acabaram-se os mancebos? E disse: Ainda falta o menor, e eis que apascenta as ovelhas. Disse pois Samuel a Jessé: Envia, e manda-o chamar, porquanto não nos assentaremos em roda da mesa até que ele venha aqui. 12Então mandou em busca dele e o trouxe (e era ruivo e formoso de semblante e de boa presença): e disse o Senhor: Levanta-te, e unge-o, porque este mesmo é. 13Então Samuel tomou o vaso do azeite, e ungiu-o no meio dos seus irmãos: e desde aquele dia em diante o espírito do Senhor se apoderou de Davi: então Samuel se levantou, e se tornou a Ramá.

Saul é atormentado pelo espírito maligno

14E o espírito do Senhor se retirou de Saul, e o assombrava um espírito mau da parte do Senhor. 15Então os criados de Saul lhe disseram: Eis que agora um espírito mau da parte do Senhor te assombra: 16Diga pois nosso senhor a seus servos, que estão em tua presença, que busquem um homem que saiba tocar harpa, e será que, quando o espírito mau da parte do Senhor vier sobre ti, então ele tocará com a sua mão, e te acharás melhor. 17Então disse Saul aos seus servos: Buscai-me pois um homem que toque bem, e trazei-mo. 18Então respondeu um dos mancebos, e disse: Eis que tenho visto a um filho de Jessé, o belemita, que sabe tocar, e é valente e animoso, e homem de guerra, e sisudo em palavras, e de gentil presença: o Senhor é com ele. 19E Saul enviou mensageiros a Jessé, dizendo: Envia-me Davi, teu filho, o que está com as ovelhas. 20Então tomou Jessé um jumento carregado de pão, e um odre de vinho, e um cabrito, e enviou-os a Saul pela mão de Davi, seu filho. 21Assim Davi veio a Saul, e esteve perante ele, e o amou muito, e foi seu pajem de armas. 22Então Saul mandou dizer a Jessé: Deixa estar a Davi perante mim, pois achou graça em meus olhos. 23E sucedia que, quando o espírito mau da parte de Deus vinha sobre Saul, Davi tomava a harpa, e a tocava com a sua mão; então Saul sentia alívio, e se achava melhor, e o espírito mau se retirava dele.