Nova Tradução na Linguagem de Hoje (2000) (NTLH)
30

Essa gente zomba de mim e me ataca

301“Mas agora homens mais moços do que eu zombam de mim.

Os pais deles não valem nada;

eu não poria essa gente nem com os cachorros que cuidam do meu rebanho.

2De que me serviria a força dos seus braços?

São homens magros,

3enfraquecidos de tanto passar fome e miséria.

À noite, na solidão de lugares desertos,

eles têm de roer raízes secas.

4Pegam ervas e cascas de árvores

e se alimentam de raízes que não servem para comer.

5São expulsos do meio das pessoas,

que os espantam, aos gritos, como se eles fossem ladrões.

6Têm de morar em barrancos medonhos,

em cavernas ou nas rochas.

7Uivam no meio das moitas

e se ajuntam debaixo dos espinheiros.

8Raça inútil, gente sem nome,

são enxotados do país.

9“Mas agora essa gente vem e zomba de mim;

para eles eu não passo de uma piada.

10Sentem nojo de mim e se afastam

e chegam até a me cuspir na cara.

11Deus me enfraqueceu e me humilhou,

e por isso, furiosos, eles se viram contra mim.

12Essa raça de gente ruim me ataca,

me faz correr e procura acabar comigo.

13Eles não deixam que eu fuja, procuram me destruir,

e ninguém os faz parar.

14Entram por uma brecha da muralha

e no meio das ruínas se jogam contra mim.

15Eu fico apavorado.

A minha honra foi como que varrida para longe pelo vento;

a minha prosperidade passou como se fosse uma nuvem.

Tu me tratas com crueldade

16“Agora já não tenho vontade de viver;

o desespero tomou conta de mim.

17De noite os ossos me doem muito;

a dor que me atormenta não para.

18Deus me agarrou pela garganta

com tanta violência, que desarrumou a minha roupa.

19Ele me atirou na lama;

eu não valho mais do que o pó ou a cinza.

20“Ó Deus, eu clamo pedindo a tua ajuda, e não me respondes;

eu oro a ti, e não te importas comigo.

21Tu me tratas com crueldade

e me persegues com todo o teu poder.

22Fazes com que o vento me carregue

e numa tempestade violenta me jogas de um lado para outro.

23Bem sei que me levarás à Terra da Morte,

o lugar de encontro marcado para todos os vivos.

24Por que atacas um homem arruinado,

que não pode fazer nada, a não ser pedir piedade?

25Por acaso, não chorei com as pessoas aflitas?

Será que não tive pena dos pobres?

26Eu esperava a felicidade, e veio a desgraça;

eu aguardava a luz, e chegou a escuridão.

Eu peço ajuda

27“O meu coração está agitado e não descansa;

só tenho vivido dias de aflição.

28Levo uma vida triste, como um dia sem sol;

eu me levanto diante de todos e peço ajuda.

29A minha voz é um gemido triste,

como os uivos do lobo ou os gritos do avestruz.

30A minha pele está ficando preta,

e o meu corpo queima de febre.

31Eu costumava ouvir a música alegre de liras e flautas,

mas agora só escuto gente chorando e soluçando.

31

Que Deus me pese numa balança justa

311“Eu jurei que os meus olhos

nunca haveriam de cobiçar uma virgem.

2Se eu tivesse quebrado o juramento,

que recompensa Deus me daria,

e como é que lá dos céus o Todo-Poderoso me abençoaria?

3Pois Deus manda a infelicidade e a desgraça

para aqueles que só fazem o mal.

4Deus sabe tudo o que eu faço;

ele vê cada passo que dou.

5“Juro que não tenho sido falso

e que nunca procurei enganar os outros.

6Que Deus me pese numa balança justa

e ele ficará convencido de que sou inocente!

Nunca cobicei, nem adulterei

7“Se por acaso me desviei do caminho certo,

se o meu coração foi levado pela cobiça dos olhos,

se pequei, ficando com qualquer coisa que pertence a outra pessoa,

8então que outros comam o que eu semeei,

ou que as minhas plantações sejam destruídas.

9Se o meu coração alguma vez foi seduzido pela mulher do meu vizinho,

e se fiquei escondido, espiando a porta da casa dela,

10então que a minha mulher se torne escrava de outro,

e que outros durmam com ela.

11Se eu tivesse cometido esse crime horrível,

o tribunal deveria me condenar.

12Esse pecado seria como um incêndio terrível, infernal,

que destruiria tudo o que tenho.

Sempre fui justo e caridoso

13“Quando um empregado ou empregada reclamava contra mim,

eu resolvia o assunto com justiça.

14Se eu não tivesse agido assim, que faria quando Deus me julgasse?

Que responderia, quando ele pedisse conta dos meus atos?

15Pois o mesmo Deus que me criou, criou também os meus empregados;

ele deu a vida tanto a mim como a eles.

16“Nunca deixei de ajudar os pobres,

nem permiti que as viúvas chorassem de desespero.

17Nunca tomei sozinho as minhas refeições,

mas sempre reparti a minha comida com os órfãos.

18Eu os tratava como se fosse pai deles

e sempre protegi as viúvas.

19Quando via alguém morrendo de frio por falta de roupa

ou notava algum pobre que não tinha com que se cobrir,

20eu lhe dava roupas quentes,

feitas com a lã das minhas próprias ovelhas,

e ele me agradecia do fundo do coração.

21Se alguma vez fui violento com um órfão,

sabendo que eu tinha o apoio dos juízes,

22então que os meus braços sejam quebrados,

que sejam arrancados dos meus ombros.

23Eu nunca faria nenhuma dessas coisas,

pois tenho pavor do castigo de Deus

e não poderia enfrentar a sua presença gloriosa.

Nunca fui infiel a Deus

24“Jamais confiei no ouro;

ele nunca foi a base da minha segurança.

31.24
Sl 49.6
52.6-7

25Nunca me orgulhei de ter muitas riquezas,

nem de ganhar muito dinheiro.

26Tenho visto o sol brilhar

e a lua caminhar em toda a sua beleza,

27porém nunca os adorei, nem em segredo,

e não lhes atirei beijos com a mão.

28Se tivesse cometido esse terrível pecado,

eu teria sido infiel a Deus, que está lá em cima,

e o tribunal deveria me condenar.

Nunca fui vingativo, nem sovina, nem hipócrita

29“Jamais me alegrei com o sofrimento dos meus inimigos,

nem fiquei contente se lhes acontecia alguma desgraça.

30E nunca fiz uma oração

pedindo a Deus que matasse algum deles.

31“Os empregados que trabalham para mim

sabem que os meus convidados comem à vontade, do bom e do melhor.

32Nunca deixei um estrangeiro dormir na rua;

os viajantes sempre se hospedaram na minha casa.

33Jamais procurei encobrir as minhas faltas,

como fazem algumas pessoas, nem escondi no coração os meus pecados.

34Nunca tive medo daquilo que os outros poderiam dizer;

não fiquei dentro de casa, calado,

com receio de que zombassem de mim.

Aqui termino a minha defesa

35“Como gostaria que alguém me ouvisse!

Aqui eu termino e assino a minha defesa;

que o Todo-Poderoso me responda!

Que o meu Adversário escreva a acusação,

36e, com orgulho, eu a carregarei no ombro

e a porei na cabeça como se fosse uma coroa!

37Darei conta a Deus de todos os meus atos

e na presença dele ficarei de cabeça erguida.

38“As minhas terras nunca choraram, nem gritaram ao céu contra mim.

39Pois, se comi os seus frutos,

sempre paguei os trabalhadores como devia

e jamais deixei que morressem de fome.

40Se não estou dizendo a verdade,

então que nas minhas terras cresçam espinhos em vez de trigo

e mato em vez de cevada.”

Aqui terminam as palavras de Jó.

32

As falas de Eliú

Caps. 32—37

321Jó estava convencido da sua inocência, e por isso os três amigos desistiram de continuar a discutir com ele. 2Acontece que ali estava um homem chamado Eliú, filho de Baraquel e descendente de Buz, do grupo de famílias de Rão. Eliú ficou muito zangado com Jó porque este dizia que era inocente e que Deus era culpado. 3E também ficou zangado com os três amigos porque eles não puderam responder a Jó, dando assim a ideia de que Deus estava errado. 4Eliú esperou para falar no fim, pois os outros eram mais velhos do que ele. 5Quando viu que eles não souberam como responder a Jó, Eliú ficou zangado.

Primeira fala de Eliú

Caps. 32—33

Um sopro do Todo-Poderoso dá sabedoria

6Então Eliú, filho de Baraquel e descendente de Buz, disse:

“Eu sou moço, e vocês são idosos.

Foi por isso que não me atrevi a dar a minha opinião.

7Pensei assim: ‘Que fale a voz da experiência,

que os muitos anos mostrem a sua sabedoria!’

8Mas acontece que dentro das pessoas há um espírito,

há um sopro do Todo-Poderoso que dá sabedoria.

9Nós não ficamos mais sábios com a idade,

nem sempre os velhos sabem o que é certo.

10Portanto, escutem o que digo,

pois eu também vou dar a minha opinião.

É Deus que tem de dar resposta a Jó

11“Esperei que vocês falassem

e escutei as suas razões.

Enquanto vocês escolhiam as melhores palavras,

12eu prestava toda a atenção.

Mas nenhum de vocês convenceu Jó,

nem deu resposta às suas palavras.

13Como é que vocês podem dizer que descobriram a sabedoria?

É Deus, e não um ser humano, quem terá de dar resposta a Jó.

14Eu nunca teria respondido como vocês;

mas Jó estava falando com vocês e não comigo.

Quero dar a minha opinião

15“Jó, estes três estão derrotados

e não têm mais palavras para continuar a discutir.

16Eles já pararam; não falam mais.

Será que devo continuar esperando enquanto estão calados?

17Não! Eu darei a minha resposta agora

e direi o que penso sobre o assunto.

18Tenho muito o que falar

e já não consigo mais ficar calado.

19Se eu não falar, sou capaz de estourar

como um odre cheio de vinho novo.

20Não aguento mais; preciso desabafar,

quero dar a minha opinião.

21Não vou tomar partido nesta discussão

e não vou adular ninguém.

22Eu não costumo bajular;

e, se bajulasse, o Criador logo me castigaria.

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