Nova Tradução na Linguagem de Hoje (2000) (NTLH)
1

Cena inicial

Caps. 1—2

Jó e sua família

11Na terra de Uz morava um homem chamado Jó. Ele era bom e honesto, temia a Deus e procurava não fazer nada que fosse errado. 2Jó tinha sete filhos e três filhas 3e era dono de sete mil ovelhas, três mil camelos, mil bois e quinhentas jumentas. Tinha também um grande número de escravos. Enfim, Jó era o homem mais rico de todo o Oriente.

4Os filhos de Jó iam às casas uns dos outros e davam banquetes, cada um por sua vez. E as três irmãs eram sempre convidadas para esses comes e bebes. 5Quando terminava uma rodada de banquetes, Jó se levantava de madrugada e oferecia sacrifícios em favor de cada um dos seus filhos, para purificá-los. Jó sempre fazia isso porque pensava que um dos filhos poderia ter pecado, ofendendo a Deus em pensamento.

Satanás põe em dúvida a sinceridade de Jó

6Chegou o dia em que os servidores celestiais1.6 Seres sobrenaturais a serviço de Deus. vieram apresentar-se diante de Deus, o Senhor, e no meio deles veio também Satanás1.6 Ser sobrenatural, adversário das pessoas, como o próprio nome hebraico indica.. 7O Senhor perguntou:

— De onde você vem vindo?

Satanás respondeu:

— Estive dando uma volta pela terra, passeando por aqui e por ali.

8Aí o Senhor disse:

— Você notou o meu servo Jó? No mundo inteiro não há ninguém tão bom e honesto como ele. Ele me teme e procura não fazer nada que seja errado.

9Satanás respondeu:

— Será que não é por interesse próprio que Jó te teme? 10Tu não deixas que nenhum mal aconteça a ele, à sua família e a tudo o que ele tem. Abençoas tudo o que Jó faz, e no país inteiro ele é o homem que tem mais cabeças de gado. 11Mas, se tirares tudo o que é dele, verás que ele te amaldiçoará sem nenhum respeito.

1.9-11
Ap 12.10

12O Senhor disse a Satanás:

— Pois bem. Faça o que quiser com tudo o que Jó tem, mas não faça nenhum mal a ele mesmo.

Então Satanás saiu da presença do Senhor.

Jó perde os filhos e as riquezas

13Um dia, enquanto os filhos e as filhas de Jó estavam num banquete na casa do irmão mais velho, 14chegou à casa de Jó um dos seus empregados, que disse:

— Nós estávamos arando a terra com os bois, e as jumentas estavam pastando ali perto. 15De repente, os sabeus1.15 Uma tribo do Sul, que atacava de surpresa. nos atacaram e levaram tudo. Eles mataram à espada os empregados, e só eu consegui escapar para trazer a notícia.

16Enquanto este ainda estava falando, veio outro empregado e disse:

— Raios caíram do céu e mataram todas as ovelhas e os pastores. Só eu consegui escapar para trazer a notícia.

17Enquanto este ainda estava falando, chegou um terceiro, que disse:

— Três bandos de caldeus1.17 Uma tribo do Norte, que atacava de surpresa. nos atacaram e levaram os camelos. Eles mataram à espada os empregados, e só eu consegui escapar para trazer a notícia.

18Enquanto este ainda estava falando, chegou mais um, que disse a Jó:

— Os seus filhos e as suas filhas estavam no meio de um banquete na casa do seu filho mais velho. 19De repente, veio do deserto um vento muito forte que soprou contra a casa, e ela caiu em cima dos seus filhos. Todos eles morreram; só eu consegui escapar para trazer a notícia.

20Então Jó se levantou e, em sinal de tristeza, rasgou as suas roupas e rapou a cabeça. Depois ajoelhou-se, encostou o rosto no chão e adorou a Deus. 21Aí disse assim:

— Nasci nu, sem nada, e sem nada vou morrer. O Senhor deu, o Senhor tirou; louvado seja o seu nome!

22Assim, apesar de tudo o que havia acontecido, Jó não pecou, nem pôs a culpa em Deus.

2

A segunda prova de Jó

21Chegou de novo o dia em que os servidores celestiais2.1 Ver Jó 1.6, nota a. vieram apresentar-se diante de Deus, o Senhor, e Satanás também veio no meio deles. 2O Senhor perguntou:

— De onde você vem vindo?

Satanás respondeu:

— Estive dando uma volta pela terra, passeando por aqui e por ali.

3Aí o Senhor disse:

— Você viu o meu servo Jó? No mundo inteiro não há ninguém tão bom e tão honesto como ele. Ele me teme e procura não fazer nada que seja errado. No entanto, você me convenceu, e eu o deixei desgraçar Jó, embora não houvesse motivo para isso. Mesmo assim, ele continua firme e sincero como sempre.

4Satanás respondeu:

— É só tocar na pele dele para ver o que acontece. As pessoas não se importam de perder tudo desde que conservem a própria vida. 5Agora, se estenderes a mão e ferires o corpo dele, verás como ele, sem nenhum respeito, te amaldiçoará.

6O Senhor disse a Satanás:

— Pois bem. Faça o que quiser com Jó, mas não o mate.

7Aí Satanás saiu da presença do Senhor e fez com que o corpo de Jó ficasse coberto de feridas horríveis, desde as solas dos pés até o alto da cabeça. 8Jó sentou-se num monte de cinza e pegou um caco para se coçar. 9E a mulher dele disse:

— Você ainda continua sendo bom? Amaldiçoe a Deus e morra!

10Jó respondeu:

— Você está dizendo uma bobagem! Se recebemos de Deus as coisas boas, por que não vamos aceitar também as desgraças?

Assim, apesar de tudo, Jó não pecou, nem disse uma só palavra contra Deus.

A visita dos amigos

11Jó tinha três amigos: Elifaz, da região de Temã; Bildade, da região de Sua; e Zofar, da região de Naamá. Eles ficaram sabendo das desgraças que haviam acontecido a Jó e combinaram fazer-lhe uma visita para falar de como estavam tristes pelo que lhe havia acontecido e para consolá-lo. 12De longe eles não reconheceram Jó, mas depois, quando viram que era ele, começaram a chorar e a gritar. Em sinal de tristeza, rasgaram as suas roupas e jogaram pó para o ar e sobre a cabeça. 13Em seguida sentaram-se no chão ao lado dele e ficaram ali sete dias e sete noites; e não disseram nada, pois viam que Jó estava sofrendo muito.

3

Primeiro diálogo

Caps. 3—14

A queixa de Jó

Cap. 3

31-2Finalmente Jó quebrou o silêncio e amaldiçoou o dia do seu nascimento. Jó disse:

3“Maldito o dia em que nasci!

Maldita a noite em que disseram:

‘Já nasceu! É homem!’

4Que aquele dia vire escuridão!

Que Deus, lá do alto, não se importe com ele,

e que nunca mais a luz o ilumine!

5Que a escuridão e as trevas o dominem;

que as nuvens o cubram e apaguem a luz do sol!

6Que aquela noite fique sempre escura

e que desapareça do calendário!

7Que seja solitária e triste aquela noite,

e que nela não se escutem gritos de alegria!

8Que seja amaldiçoada pelos feiticeiros,

aqueles que têm poder sobre o monstro Leviatã3.8 Para os povos antigos, o monstro Leviatã representava as forças do mal e era dominado pelos feiticeiros. Jó faz uso dessa imagem, desejando que os feiticeiros façam o monstro devorar a noite em que ele nasceu (ver Jó 26.13; Is 27.1).!

9Que escureçam as estrelas da sua manhã;

que ela espere a luz, e a luz não venha;

e que a sua madrugada não chegue,

10pois ela deixou que minha mãe me desse à luz

e não me poupou de todo este sofrimento!

Por que não nasci morto?

11“Por que não nasci morto?

Por que não morri ao nascer?

12Por que a minha mãe me segurou no colo?

Por que me deu o seio e me amamentou?

13Se eu tivesse morrido naquele momento,

agora estaria dormindo,

descansando em paz.

14Estaria com reis e altas autoridades

que reconstruíram palácios antigos

15ou estaria com governadores

que encheram as suas casas de ouro e de prata.

16Se a minha mãe tivesse tido um aborto, às escondidas,

eu não teria existido

e seria como as crianças que nunca viram a luz do dia.

17Na sepultura acaba a agitação dos maus,

e ali repousam os que estão cansados.

18Ali os prisioneiros descansam juntos

e já não ouvem mais os gritos do capataz.

19Ali estão os importantes e os humildes,

e os escravos ficam livres dos seus donos.

3.1-19
Jr 20.14-18

Por que os infelizes continuam vivendo?

20“Por que os infelizes continuam vendo a luz?

Por que deixar que vivam os que têm o coração amargurado?

21Eles esperam a morte, e ela não vem,

embora a desejem mais do que riquezas.

3.21
Ap 9.6

22Eles ficam muito alegres e felizes

quando por fim descem para a sepultura.

23Deus os faz caminhar às cegas

e os cerca de todos os lados.

24“Em vez de comer, eu choro,

e os meus gemidos se derramam como água.

25Aquilo que eu temia foi o que aconteceu,

e o que mais me dava medo me atingiu.

26Não tenho paz, nem descanso, nem sossego;

só tenho agitação.”