Nova Almeida Atualizada (2017) (NAA)
30

Todos zombam de mim

301“Mas agora zombam de mim

os que têm menos idade

do que eu,

cujos pais eu não teria aceito

nem para colocar ao lado

dos cães do meu rebanho.

2De que também me serviria

a força de suas mãos,

se eles são homens

cujo vigor já desapareceu?

3Enfraqueceram de tanto

passar fome e necessidade;

roem a terra seca,

desde muito em ruínas

e desolada.

4Apanham malvas

e folhas de arbustos

e se alimentam

de raízes de zimbro.

5São expulsos

do meio das pessoas;

grita-se contra eles,

como se grita

atrás de um ladrão.

6Têm de morar

nos desfiladeiros sombrios,

nas cavernas da terra

e das rochas.

7Uivam entre os arbustos

e se ajuntam

debaixo dos espinheiros.

8São filhos de doidos,

gente sem nome,

e são escorraçados da terra.”

9“Mas agora sou

a canção de deboche

dessa gente;

sirvo de provérbio

no meio deles.

10Eles me detestam,

fogem para longe de mim

e não têm receio de me cuspir

no rosto.

11Deus afrouxou a corda

do meu arco e me oprimiu;

por isso, sacudiram de si

o freio diante de mim.

12À minha direita se levanta

um bando e me empurra,

e contra mim prepara

o seu caminho de destruição.

13Arruínam o meu caminho;

promovem a minha destruição

sem a ajuda de ninguém.

14Vêm contra mim

como por uma grande brecha

e se revolvem avante

no meio das ruínas.

15Sobrevieram-me pavores;

a minha honra é como que varrida

pelo vento;

como nuvem passou

a minha felicidade.”

Tu foste cruel comigo

16“Agora a minha alma

se derrama dentro de mim;

os dias da aflição

se apoderam de mim.

17A noite perfura os meus ossos,

e o mal que me corrói

não descansa.

18Pela grande violência

do meu mal está desfigurada

a minha roupa;

este mal me envolve

como a gola da minha túnica.

19Deus me lançou na lama,

e me tornei semelhante

ao pó e à cinza.”

20“Clamo a ti, ó Deus,

e não me respondes;

estou em pé,

mas apenas olhas para mim.

21Tu foste cruel comigo;

e, com a força da tua mão,

me atacas.

30.21
Jó 19.6

22Tu me levantas sobre o vento

e me fazes cavalgá-lo;

no estrondo da tempestade

me jogas de um lado

para outro.

23Pois eu sei que me levarás

à morte

e à casa destinada

a todos os vivos.”

24“Não é fato que

de um montão de ruínas

um homem estenderá

a sua mão?

E, na sua desventura,

não levantará

um grito por socorro?

25Por acaso, não chorei

por aquele que atravessava

dias difíceis?

Não se angustiou a minha alma

pelo necessitado?

26Quando eu esperava o bem,

eis que me veio o mal;

esperava a luz,

e veio a escuridão.”

Eu clamo por socorro

27“O meu íntimo se agita

sem cessar;

e dias de aflição me sobrevêm.

28Tenho a pele queimada,

mas não pelo sol;

levanto-me na congregação

e clamo por socorro.

29Sou irmão dos chacais

e companheiro de avestruzes.

30.29
Mq 1.8

30A minha pele escurece e cai;

30.30
Jó 2.7

os meus ossos queimam de febre.

31Por isso, a minha harpa é usada

para fazer lamentações,

e a minha flauta, para acompanhar

os que choram.”

31

Que Deus me pese numa balança justa

311“Fiz uma aliança

com os meus olhos:

de não olhar para uma virgem.

2Do contrário, qual seria

a minha porção

do Deus lá de cima,

e que herança receberia

do Todo-Poderoso

desde as alturas?

3Por acaso, não é a perdição

para o ímpio,

e a desgraça para os que praticam

a maldade?

4Será que Deus não vê

os meus caminhos

e não conta todos os meus passos?

5Se andei com falsidade

ou se o meu pé se apressou

para o engano

6— que Deus me pese

numa balança justa

e conhecerá a minha integridade!”

Nunca cobicei, nem adulterei

7“Se os meus passos se desviaram

do caminho,

se o meu coração

segue os meus olhos,

e se alguma mancha

se apegou às minhas mãos,

8então que outros comam

o que eu semeei,

e que seja arrancado

o que se produz no meu campo.

9Se o meu coração se deixou

seduzir por uma mulher,

se fiquei rondando

a porta do meu próximo,

10então que a minha mulher

moa os cereais

para outro homem,

e que outros se deitem com ela.

11Pois eu teria cometido

um crime hediondo,

um delito a ser punido pelos juízes.

12Isso seria fogo que consome

até a destruição

e arrancaria toda a minha colheita

pela raiz.”

Sempre fui justo e caridoso

13“Se não reconheci

o direito do meu servo

ou da minha serva

quando eles reclamavam

contra mim,

14então que faria eu

quando Deus se levantasse

no tribunal?

E, se ele me interrogasse,

que lhe responderia eu?

15Aquele que me formou

no ventre de minha mãe

não os fez também a eles?

Ou não é o mesmo Deus

que nos formou

no ventre materno?”

16“Se retive o que os pobres

desejavam

ou deixei que os olhos das viúvas

esperassem em vão;

17ou, se sozinho

comi o meu bocado,

sem reparti-lo com os órfãos

18— porque

desde a minha mocidade

eu os criei como se fosse

pai deles,

durante toda a minha vida

fui o guia das viúvas —;

19se vi alguém perecer

por falta de roupa

ou notava que o necessitado

não tinha com que se cobrir;

31.19
Jó 22.6

20se ele não me agradeceu

do fundo do coração,

quando se aquecia

com a lã dos meus cordeiros;

21se eu levantei a mão

contra o órfão,

31.21
Jó 22.9
29.12

sabendo que eu tinha

o apoio dos juízes,

22então que a omoplata caia

do meu ombro,

e que o meu braço

seja arrancado da articulação.

23Porque o castigo de Deus

seria para mim um assombro,

e eu não poderia enfrentar

a sua majestade.”

Nunca neguei a Deus

24“Se no ouro pus

a minha esperança

ou se eu disse ao ouro fino:

‘Você é a minha garantia’;

25se me alegrei por ser grande

a minha riqueza

e por ter a minha mão

alcançado muito;

26se olhei para o sol,

quando resplandecia,

ou para a lua, que caminhava

em seu esplendor,

27e o meu coração se deixou

seduzir em segredo,

e eu lhes atirei beijos com a mão,

31.27
Dt 4.19

28também isto seria um delito

a ser punido pelos juízes,

pois eu teria negado a Deus,

que está lá em cima.”

Nunca me alegrei com o mal

29“Se me alegrei com a desgraça

do que me odeia

e se exultei quando o mal o atingiu

30— eu que não deixei

a minha boca pecar,

rogando praga

para que morresse —;

31se as pessoas que moram

na minha tenda não disseram:

‘Quem nos dera encontrar

alguém que não se saciou

da carne provida por ele’

32— pois o estrangeiro

não pernoitava na rua;

as minhas portas estavam

sempre abertas

para os viajantes! —;

33se, como Adão,

31.33
Gn 3.8
encobri

as minhas transgressões,

ocultando a minha iniquidade

em meu íntimo,

34porque eu tinha medo

da grande multidão,

e o desprezo das famílias

me apavorava,

fazendo com que eu me calasse

e não saísse da porta…”

Eis aqui a minha defesa

35“Quem dera que eu tivesse

quem me ouvisse!

Eis aqui a minha defesa assinada!

Que o Todo-Poderoso

me responda!

Que o meu adversário escreva

a sua acusação!

36Por certo que a levaria

sobre o meu ombro,

e a poria sobre mim

como se fosse uma coroa.

37Eu lhe mostraria

o número dos meus passos;

como príncipe

eu me aproximaria dele.”

38“Se a minha terra clamar

contra mim,

e se os seus sulcos

juntamente chorarem;

39se comi os seus frutos

sem pagar

ou se causei a morte

aos seus donos,

40que ela produza espinhos

em vez de trigo,

e joio em lugar de cevada.”

Fim das palavras de Jó.

32

As falas de Eliú

Caps.32—37

321Aqueles três homens pararam de responder a Jó, porque ele se considerava justo. 2Então se acendeu a ira de Eliú, filho de Baraquel, o buzita, da família de Rão. Ele ficou indignado contra Jó, porque este pretendia ser mais justo do que Deus. 3Eliú também ficou irado com os três amigos de Jó, porque, mesmo não tendo o que responder, eles o condenavam. 4Eliú, porém, havia esperado para falar a Jó, pois os outros eram mais velhos do que ele. 5Quando Eliú viu que aqueles três homens já não tinham o que responder, ficou irado.

Primeira fala de Eliú

Caps.32—33

O sopro de Deus dá entendimento

6Então Eliú, filho de Baraquel, o buzita, tomou a palavra e disse:

“Eu sou de menos idade,

e vocês são idosos.

Por isso, tive receio

e fiquei com medo

de dar a minha opinião.

7Pensei assim: ‘Que falem

os que têm mais idade,

e que a multidão dos anos

ensine a sabedoria.’

8Na verdade,

há um espírito no homem,

e o sopro do Todo-Poderoso

lhe dá entendimento.

9Os de mais idade

não são os sábios,

nem são os velhos

os que entendem o que é reto.

32.9
Jó 12.12

10Por isso digo:

Escutem o que vou dizer,

e também eu

darei a minha opinião.”

Deus pode vencê-lo, e não o homem

11“Eis que esperei

que vocês falassem

e dei ouvidos

às suas considerações,

enquanto, quem sabe,

buscavam o que dizer.

12Dei atenção ao que diziam,

mas nenhum de vocês

conseguiu refutar Jó,

nem responder

aos seus argumentos.

13Portanto, não me venham

com a seguinte desculpa:

‘Descobrimos a sabedoria!

Deus pode vencê-lo,

e não o homem.’

14Ora, ele não me dirigiu

palavra alguma,

e eu não lhe responderei

com as palavras

que vocês usaram.”

Darei a minha opinião

15“Jó, os três estão pasmados,

já não respondem,

faltam-lhes as palavras.

16Será que devo esperar,

pois não falam,

estão parados

e nada mais respondem?

17Também eu de minha parte

vou responder

e darei a minha opinião.

18Porque tenho muito que falar,

e o meu espírito me constrange.

19Eis que dentro de mim

sou como o vinho,

sem respiradouro,

como odres novos,

prestes a arrebentar.

20Permitam, pois, que eu fale

para poder desabafar;

abrirei os lábios e responderei.

21Não tratarei nenhum de vocês

com parcialidade

e não vou lisonjear ninguém.

22Porque não sei lisonjear;

se assim fizesse, em breve

me levaria o meu Criador.”