Nova Almeida Atualizada (2017) (NAA)
29

Defesa final de Jó

Caps.29—31

Deus cuidava de mim

291Jó continuou em sua fala, dizendo:

2“Ah! Quem me dera ser

como fui nos meses passados,

como nos dias em que Deus

cuidava de mim!

3Quando Deus fazia resplandecer

a sua lâmpada

sobre a minha cabeça,

quando eu, guiado por sua luz,

caminhava na escuridão.

4Quem me dera ser como fui

nos dias do meu vigor,

quando a amizade de Deus

estava sobre a minha tenda,

5quando o Todo-Poderoso

ainda estava comigo,

e os meus filhos

estavam ao meu redor,

6quando eu lavava

os meus pés em leite,

e da rocha me corriam

rios de azeite.

7Quando eu me dirigia

até o portão da cidade

e mandava preparar

o meu assento na praça,

8os moços me viam

e se retiravam,

e os idosos se levantavam

e ficavam em pé.

9Os príncipes reprimiam

as suas palavras

e punham a mão sobre a boca.

10A voz dos nobres emudecia,

e a língua deles se apegava

ao céu da boca.”

Eu era pai dos necessitados

11“O ouvido que me ouvia

dizia que eu era feliz;

o olho que me via

dava testemunho de mim,

12porque eu livrava os pobres

que pediam ajuda

e também o órfão que não tinha

quem o socorresse.

13A bênção do que estava

prestes a perecer

vinha sobre mim,

e eu fazia o coração da viúva

cantar de alegria.

14Eu me cobria de retidão,

e ela me servia de roupa;

a minha justiça era como

um manto e um turbante.

15Eu era os olhos do cego

e os pés do aleijado.

16Era pai dos necessitados

e até as causas dos desconhecidos

eu examinava.

17Eu quebrava os queixos

dos iníquos

e arrancava as vítimas

dos dentes deles.”

Todos esperavam o meu conselho

18“Eu dizia: ‘Vou morrer

no meu ninho,

e multiplicarei os meus dias

como a areia.

19As minhas raízes se estenderão

até as águas,

e o orvalho ficará durante a noite

sobre os meus ramos.

20A minha honra

se renovará em mim,

e o meu arco se reforçará

na minha mão.’”

21“Os que me ouviam

esperavam o meu conselho

e guardavam silêncio para ouvi-lo.

22Depois que eu falava,

não diziam nada;

as minhas palavras caíam

sobre eles como orvalho.

23Esperavam-me

como se espera a chuva,

abriam a boca como para absorver

a chuva fora de época.

24Quando eu sorria para eles,

nem acreditavam;

e a luz do meu rosto

eles não desprezavam.

25Eu escolhia o caminho para eles,

assentava-me como chefe

e vivia como rei

entre as suas tropas;

eu era como quem consola

os que pranteiam.”

30

Todos zombam de mim

301“Mas agora zombam de mim

os que têm menos idade

do que eu,

cujos pais eu não teria aceito

nem para colocar ao lado

dos cães do meu rebanho.

2De que também me serviria

a força de suas mãos,

se eles são homens

cujo vigor já desapareceu?

3Enfraqueceram de tanto

passar fome e necessidade;

roem a terra seca,

desde muito em ruínas

e desolada.

4Apanham malvas

e folhas de arbustos

e se alimentam

de raízes de zimbro.

5São expulsos

do meio das pessoas;

grita-se contra eles,

como se grita

atrás de um ladrão.

6Têm de morar

nos desfiladeiros sombrios,

nas cavernas da terra

e das rochas.

7Uivam entre os arbustos

e se ajuntam

debaixo dos espinheiros.

8São filhos de doidos,

gente sem nome,

e são escorraçados da terra.”

9“Mas agora sou

a canção de deboche

dessa gente;

sirvo de provérbio

no meio deles.

10Eles me detestam,

fogem para longe de mim

e não têm receio de me cuspir

no rosto.

11Deus afrouxou a corda

do meu arco e me oprimiu;

por isso, sacudiram de si

o freio diante de mim.

12À minha direita se levanta

um bando e me empurra,

e contra mim prepara

o seu caminho de destruição.

13Arruínam o meu caminho;

promovem a minha destruição

sem a ajuda de ninguém.

14Vêm contra mim

como por uma grande brecha

e se revolvem avante

no meio das ruínas.

15Sobrevieram-me pavores;

a minha honra é como que varrida

pelo vento;

como nuvem passou

a minha felicidade.”

Tu foste cruel comigo

16“Agora a minha alma

se derrama dentro de mim;

os dias da aflição

se apoderam de mim.

17A noite perfura os meus ossos,

e o mal que me corrói

não descansa.

18Pela grande violência

do meu mal está desfigurada

a minha roupa;

este mal me envolve

como a gola da minha túnica.

19Deus me lançou na lama,

e me tornei semelhante

ao pó e à cinza.”

20“Clamo a ti, ó Deus,

e não me respondes;

estou em pé,

mas apenas olhas para mim.

21Tu foste cruel comigo;

e, com a força da tua mão,

me atacas.

30.21
Jó 19.6

22Tu me levantas sobre o vento

e me fazes cavalgá-lo;

no estrondo da tempestade

me jogas de um lado

para outro.

23Pois eu sei que me levarás

à morte

e à casa destinada

a todos os vivos.”

24“Não é fato que

de um montão de ruínas

um homem estenderá

a sua mão?

E, na sua desventura,

não levantará

um grito por socorro?

25Por acaso, não chorei

por aquele que atravessava

dias difíceis?

Não se angustiou a minha alma

pelo necessitado?

26Quando eu esperava o bem,

eis que me veio o mal;

esperava a luz,

e veio a escuridão.”

Eu clamo por socorro

27“O meu íntimo se agita

sem cessar;

e dias de aflição me sobrevêm.

28Tenho a pele queimada,

mas não pelo sol;

levanto-me na congregação

e clamo por socorro.

29Sou irmão dos chacais

e companheiro de avestruzes.

30.29
Mq 1.8

30A minha pele escurece e cai;

30.30
Jó 2.7

os meus ossos queimam de febre.

31Por isso, a minha harpa é usada

para fazer lamentações,

e a minha flauta, para acompanhar

os que choram.”

31

Que Deus me pese numa balança justa

311“Fiz uma aliança

com os meus olhos:

de não olhar para uma virgem.

2Do contrário, qual seria

a minha porção

do Deus lá de cima,

e que herança receberia

do Todo-Poderoso

desde as alturas?

3Por acaso, não é a perdição

para o ímpio,

e a desgraça para os que praticam

a maldade?

4Será que Deus não vê

os meus caminhos

e não conta todos os meus passos?

5Se andei com falsidade

ou se o meu pé se apressou

para o engano

6— que Deus me pese

numa balança justa

e conhecerá a minha integridade!”

Nunca cobicei, nem adulterei

7“Se os meus passos se desviaram

do caminho,

se o meu coração

segue os meus olhos,

e se alguma mancha

se apegou às minhas mãos,

8então que outros comam

o que eu semeei,

e que seja arrancado

o que se produz no meu campo.

9Se o meu coração se deixou

seduzir por uma mulher,

se fiquei rondando

a porta do meu próximo,

10então que a minha mulher

moa os cereais

para outro homem,

e que outros se deitem com ela.

11Pois eu teria cometido

um crime hediondo,

um delito a ser punido pelos juízes.

12Isso seria fogo que consome

até a destruição

e arrancaria toda a minha colheita

pela raiz.”

Sempre fui justo e caridoso

13“Se não reconheci

o direito do meu servo

ou da minha serva

quando eles reclamavam

contra mim,

14então que faria eu

quando Deus se levantasse

no tribunal?

E, se ele me interrogasse,

que lhe responderia eu?

15Aquele que me formou

no ventre de minha mãe

não os fez também a eles?

Ou não é o mesmo Deus

que nos formou

no ventre materno?”

16“Se retive o que os pobres

desejavam

ou deixei que os olhos das viúvas

esperassem em vão;

17ou, se sozinho

comi o meu bocado,

sem reparti-lo com os órfãos

18— porque

desde a minha mocidade

eu os criei como se fosse

pai deles,

durante toda a minha vida

fui o guia das viúvas —;

19se vi alguém perecer

por falta de roupa

ou notava que o necessitado

não tinha com que se cobrir;

31.19
Jó 22.6

20se ele não me agradeceu

do fundo do coração,

quando se aquecia

com a lã dos meus cordeiros;

21se eu levantei a mão

contra o órfão,

31.21
Jó 22.9
29.12

sabendo que eu tinha

o apoio dos juízes,

22então que a omoplata caia

do meu ombro,

e que o meu braço

seja arrancado da articulação.

23Porque o castigo de Deus

seria para mim um assombro,

e eu não poderia enfrentar

a sua majestade.”

Nunca neguei a Deus

24“Se no ouro pus

a minha esperança

ou se eu disse ao ouro fino:

‘Você é a minha garantia’;

25se me alegrei por ser grande

a minha riqueza

e por ter a minha mão

alcançado muito;

26se olhei para o sol,

quando resplandecia,

ou para a lua, que caminhava

em seu esplendor,

27e o meu coração se deixou

seduzir em segredo,

e eu lhes atirei beijos com a mão,

31.27
Dt 4.19

28também isto seria um delito

a ser punido pelos juízes,

pois eu teria negado a Deus,

que está lá em cima.”

Nunca me alegrei com o mal

29“Se me alegrei com a desgraça

do que me odeia

e se exultei quando o mal o atingiu

30— eu que não deixei

a minha boca pecar,

rogando praga

para que morresse —;

31se as pessoas que moram

na minha tenda não disseram:

‘Quem nos dera encontrar

alguém que não se saciou

da carne provida por ele’

32— pois o estrangeiro

não pernoitava na rua;

as minhas portas estavam

sempre abertas

para os viajantes! —;

33se, como Adão,

31.33
Gn 3.8
encobri

as minhas transgressões,

ocultando a minha iniquidade

em meu íntimo,

34porque eu tinha medo

da grande multidão,

e o desprezo das famílias

me apavorava,

fazendo com que eu me calasse

e não saísse da porta…”

Eis aqui a minha defesa

35“Quem dera que eu tivesse

quem me ouvisse!

Eis aqui a minha defesa assinada!

Que o Todo-Poderoso

me responda!

Que o meu adversário escreva

a sua acusação!

36Por certo que a levaria

sobre o meu ombro,

e a poria sobre mim

como se fosse uma coroa.

37Eu lhe mostraria

o número dos meus passos;

como príncipe

eu me aproximaria dele.”

38“Se a minha terra clamar

contra mim,

e se os seus sulcos

juntamente chorarem;

39se comi os seus frutos

sem pagar

ou se causei a morte

aos seus donos,

40que ela produza espinhos

em vez de trigo,

e joio em lugar de cevada.”

Fim das palavras de Jó.