Almeida Revista e Atualizada (1993) (ARA)
7

Jesus e a tradição dos anciãos. O que contamina o homem

Mt 15.1-20

71Ora, reuniram-se a Jesus os fariseus e alguns escribas, vindos de Jerusalém. 2E, vendo que alguns dos discípulos dele comiam pão com as mãos impuras, isto é, por lavar 3(pois os fariseus e todos os judeus, observando a tradição dos anciãos, não comem sem lavar cuidadosamente as mãos; 4quando voltam da praça, não comem sem se aspergirem; e há muitas outras coisas que receberam para observar, como a lavagem de copos, jarros e vasos de metal [e camas]), 5interpelaram-no os fariseus e os escribas: Por que não andam os teus discípulos de conformidade com a tradição dos anciãos, mas comem com as mãos por lavar? 6Respondeu-lhes: Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está escrito:

Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.

7E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens.

7.6-7
Is 29.13

8Negligenciando o mandamento de Deus, guardais a tradição dos homens. 9E disse-lhes ainda: Jeitosamente rejeitais o preceito de Deus para guardardes a vossa própria tradição. 10Pois Moisés disse:

Honra a teu pai e a tua mãe;

7.10
Êx 20.12
Dt 5.16

e:

Quem maldisser a seu pai ou a sua mãe seja punido de morte.

7.10
Êx 21.17
Lv 20.9

11Vós, porém, dizeis: Se um homem disser a seu pai ou a sua mãe: Aquilo que poderias aproveitar de mim é Corbã, isto é, oferta para o Senhor, 12então, o dispensais de fazer qualquer coisa em favor de seu pai ou de sua mãe, 13invalidando a palavra de Deus pela vossa própria tradição, que vós mesmos transmitistes; e fazeis muitas outras coisas semelhantes.

14Convocando ele, de novo, a multidão, disse-lhes: Ouvi-me, todos, e entendei. 15Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa contaminar; mas o que sai do homem é o que o contamina. 16[Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça.] 17Quando entrou em casa, deixando a multidão, os seus discípulos o interrogaram acerca da parábola. 18Então, lhes disse: Assim vós também não entendeis? Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o pode contaminar, 19porque não lhe entra no coração, mas no ventre, e sai para lugar escuso? E, assim, considerou ele puros todos os alimentos. 20E dizia: O que sai do homem, isso é o que o contamina. 21Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios, 22a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. 23Ora, todos estes males vêm de dentro e contaminam o homem.

A mulher siro-fenícia

Mt 15.21-28

24Levantando-se, partiu dali para as terras de Tiro [e Sidom]. Tendo entrado numa casa, queria que ninguém o soubesse; no entanto, não pôde ocultar-se, 25porque uma mulher, cuja filhinha estava possessa de espírito imundo, tendo ouvido a respeito dele, veio e prostrou-se-lhe aos pés. 26Esta mulher era grega, de origem siro-fenícia, e rogava-lhe que expelisse de sua filha o demônio. 27Mas Jesus lhe disse: Deixa primeiro que se fartem os filhos, porque não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos. 28Ela, porém, lhe respondeu: Sim, Senhor; mas os cachorrinhos, debaixo da mesa, comem das migalhas das crianças. 29Então, lhe disse: Por causa desta palavra, podes ir; o demônio já saiu de tua filha. 30Voltando ela para casa, achou a menina sobre a cama, pois o demônio a deixara.

A cura de um surdo e gago

31De novo, se retirou das terras de Tiro e foi por Sidom até ao mar da Galileia, através do território de Decápolis. 32Então, lhe trouxeram um surdo e gago e lhe suplicaram que impusesse as mãos sobre ele. 33Jesus, tirando-o da multidão, à parte, pôs-lhe os dedos nos ouvidos e lhe tocou a língua com saliva; 34depois, erguendo os olhos ao céu, suspirou e disse: Efatá!, que quer dizer: Abre-te! 35Abriram-se-lhe os ouvidos, e logo se lhe soltou o empecilho da língua, e falava desembaraçadamente. 36Mas lhes ordenou que a ninguém o dissessem; contudo, quanto mais recomendava, tanto mais eles o divulgavam. 37Maravilhavam-se sobremaneira, dizendo: Tudo ele tem feito esplendidamente bem; não somente faz ouvir os surdos, como falar os mudos.

8

A segunda multiplicação de pães e peixes

Mt 15.32-39

81Naqueles dias, quando outra vez se reuniu grande multidão, e não tendo eles o que comer, chamou Jesus os discípulos e lhes disse: 2Tenho compaixão desta gente, porque há três dias que permanecem comigo e não têm o que comer. 3Se eu os despedir para suas casas, em jejum, desfalecerão pelo caminho; e alguns deles vieram de longe. 4Mas os seus discípulos lhe responderam: Donde poderá alguém fartá-los de pão neste deserto? 5E Jesus lhes perguntou: Quantos pães tendes? Responderam eles: Sete. 6Ordenou ao povo que se assentasse no chão. E, tomando os sete pães, partiu-os, após ter dado graças, e os deu a seus discípulos, para que estes os distribuíssem, repartindo entre o povo. 7Tinham também alguns peixinhos; e, abençoando-os, mandou que estes igualmente fossem distribuídos. 8Comeram e se fartaram; e dos pedaços restantes recolheram sete cestos. 9Eram cerca de quatro mil homens. Então, Jesus os despediu. 10Logo a seguir, tendo embarcado juntamente com seus discípulos, partiu para as regiões de Dalmanuta.

Os fariseus pedem um sinal do céu

Mt 16.1-4

11E, saindo os fariseus, puseram-se a discutir com ele; e, tentando-o, pediram-lhe um sinal do céu. 12Jesus, porém, arrancou do íntimo do seu espírito um gemido e disse: Por que pede esta geração um sinal? Em verdade vos digo que a esta geração não se lhe dará sinal algum. 13E, deixando-os, tornou a embarcar e foi para o outro lado.

8.11-13
Mt 12.38-42
Lc 11.29-32

O fermento dos fariseus e o de Herodes

Mt 16.5-12

14Ora, aconteceu que eles se esqueceram de levar pães e, no barco, não tinham consigo senão um só. 15Preveniu-os Jesus, dizendo: Vede, guardai-vos do fermento dos fariseus

8.15
Lc 12.1
e do fermento de Herodes. 16E eles discorriam entre si: É que não temos pão. 17Jesus, percebendo-o, lhes perguntou: Por que discorreis sobre o não terdes pão? Ainda não considerastes, nem compreendestes? Tendes o coração endurecido? 18Tendo olhos,
8.18
Is 6.9-10
não vedes? E, tendo ouvidos, não ouvis? Não vos lembrais 19de quando parti os cinco pães para os cinco mil, quantos cestos cheios de pedaços recolhestes? Responderam eles: Doze! 20E de quando parti os sete pães para os quatro mil, quantos cestos cheios de pedaços recolhestes? Responderam: Sete! 21Ao que lhes disse Jesus: Não compreendeis ainda?

A cura de um cego em Betsaida

22Então, chegaram a Betsaida; e lhe trouxeram um cego, rogando-lhe que o tocasse. 23Jesus, tomando o cego pela mão, levou-o para fora da aldeia e, aplicando-lhe saliva aos olhos e impondo-lhe as mãos, perguntou-lhe: Vês alguma coisa? 24Este, recobrando a vista, respondeu: Vejo os homens, porque como árvores os vejo, andando. 25Então, novamente lhe pôs as mãos nos olhos, e ele, passando a ver claramente, ficou restabelecido; e tudo distinguia de modo perfeito. 26E mandou-o Jesus embora para casa, recomendando-lhe: Não entres na aldeia.

A confissão de Pedro

Mt 16.13-20; Lc 9.18-21

27Então, Jesus e os seus discípulos partiram para as aldeias de Cesareia de Filipe; e, no caminho, perguntou-lhes: Quem dizem os homens que sou eu? 28E responderam:

8.28
Mc 6.14-15
Lc 9.7-8
João Batista; outros: Elias; mas outros: Algum dos profetas. 29Então, lhes perguntou: Mas vós, quem dizeis que eu sou? Respondendo, Pedro
8.29
Jo 6.68-69
lhe disse: Tu és o Cristo. 30Advertiu-os Jesus de que a ninguém dissessem tal coisa a seu respeito.

Jesus prediz a sua morte e ressurreição

Mt 16.21-23; Lc 9.22

31Então, começou ele a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do Homem sofresse muitas coisas, fosse rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas, fosse morto e que, depois de três dias, ressuscitasse. 32E isto ele expunha claramente. Mas Pedro, chamando-o à parte, começou a reprová-lo. 33Jesus, porém, voltou-se e, fitando os seus discípulos, repreendeu a Pedro e disse: Arreda, Satanás! Porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens.

O discípulo de Jesus deve levar a sua cruz

Mt 16.24-28; Lc 9.23-27

34Então, convocando a multidão e juntamente os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me.

8.34
Mt 10.38
Lc 14.27
35Quem quiser, pois, salvar a sua vida
8.35
Mt 10.39
Lc 17.33
Jo 12.25
perdê-la-á; e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho salvá-la-á. 36Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? 37Que daria um homem em troca de sua alma? 38Porque qualquer que, nesta geração adúltera e pecadora, se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos.

9

91Dizia-lhes ainda: Em verdade vos afirmo que, dos que aqui se encontram, alguns há que, de maneira nenhuma, passarão pela morte até que vejam ter chegado com poder o reino de Deus.

A transfiguração

Mt 17.1-8; Lc 9.28-36

2Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro, Tiago e João e levou-os sós, à parte, a um alto monte. Foi transfigurado diante deles; 3as suas vestes tornaram-se resplandecentes e sobremodo brancas, como nenhum lavandeiro na terra as poderia alvejar. 4Apareceu-lhes Elias com Moisés, e estavam falando com Jesus. 5Então, Pedro, tomando a palavra, disse: Mestre, bom é estarmos aqui e que façamos três tendas: uma será tua, outra, para Moisés, e outra, para Elias. 6Pois não sabia o que dizer, por estarem eles aterrados. 7A seguir, veio uma nuvem que os envolveu; e dela uma voz dizia: Este é o meu Filho amado;

9.7
Mt 3.17
Mc 1.11
Lc 3.22
a ele ouvi. 8E, de relance, olhando ao redor, a ninguém mais viram com eles, senão Jesus.
9.2-8
2Pe 1.17-18

A vinda de Elias

Mt 17.9-13

9Ao descerem do monte, ordenou-lhes Jesus que não divulgassem as coisas que tinham visto, até o dia em que o Filho do Homem ressuscitasse dentre os mortos. 10Eles guardaram a recomendação, perguntando uns aos outros que seria o ressuscitar dentre os mortos. 11E interrogaram-no, dizendo: Por que dizem os escribas ser necessário que Elias venha primeiro? 12Então, ele lhes disse: Elias, vindo primeiro, restaurará todas as coisas; como, pois, está escrito sobre o Filho do Homem que sofrerá muito e será aviltado? 13Eu, porém, vos digo que Elias já veio, e fizeram com ele tudo o que quiseram, como a seu respeito está escrito.

9.11-13
Ml 4.5
Mt 11.14

A cura de um jovem possesso

Mt 17.14-21; Lc 9.37-43

14Quando eles se aproximaram dos discípulos, viram numerosa multidão ao redor e que os escribas discutiam com eles. 15E logo toda a multidão, ao ver Jesus, tomada de surpresa, correu para ele e o saudava. 16Então, ele interpelou os escribas: Que é que discutíeis com eles? 17E um, dentre a multidão, respondeu: Mestre, trouxe-te o meu filho, possesso de um espírito mudo; 18e este, onde quer que o apanha, lança-o por terra, e ele espuma, rilha os dentes e vai definhando. Roguei a teus discípulos que o expelissem, e eles não puderam. 19Então, Jesus lhes disse: Ó geração incrédula, até quando estarei convosco? Até quando vos sofrerei? Trazei-mo. 20E trouxeram-lho; quando ele viu a Jesus, o espírito imediatamente o agitou com violência, e, caindo ele por terra, revolvia-se espumando. 21Perguntou Jesus ao pai do menino: Há quanto tempo isto lhe sucede? Desde a infância, respondeu; 22e muitas vezes o tem lançado no fogo e na água, para o matar; mas, se tu podes alguma coisa, tem compaixão de nós e ajuda-nos. 23Ao que lhe respondeu Jesus: Se podes! Tudo é possível ao que crê. 24E imediatamente o pai do menino exclamou [com lágrimas]: Eu creio! Ajuda-me na minha falta de fé! 25Vendo Jesus que a multidão concorria, repreendeu o espírito imundo, dizendo-lhe: Espírito mudo e surdo, eu te ordeno: Sai deste jovem e nunca mais tornes a ele. 26E ele, clamando e agitando-o muito, saiu, deixando-o como se estivesse morto, a ponto de muitos dizerem: Morreu. 27Mas Jesus, tomando-o pela mão, o ergueu, e ele se levantou.

28Quando entrou em casa, os seus discípulos lhe perguntaram em particular: Por que não pudemos nós expulsá-lo? 29Respondeu-lhes: Esta casta não pode sair senão por meio de oração [e jejum].

De novo Jesus prediz a sua morte e ressurreição

Mt 17.22-23; Lc 9.43b-45

30E, tendo partido dali, passavam pela Galileia, e não queria que ninguém o soubesse; 31porque ensinava os seus discípulos e lhes dizia: O Filho do Homem será entregue nas mãos dos homens, e o matarão; mas, três dias depois da sua morte, ressuscitará. 32Eles, contudo, não compreendiam isto e temiam interrogá-lo.

O maior no reino dos céus

Mt 18.1-5; Lc 9.46-48

33Tendo eles partido para Cafarnaum, estando ele em casa, interrogou os discípulos: De que é que discorríeis pelo caminho? 34Mas eles guardaram silêncio; porque, pelo caminho, haviam discutido

9.34
Lc 22.24
entre si sobre quem era o maior. 35E ele, assentando-se, chamou os doze e lhes disse: Se alguém quer ser o primeiro, será o último e servo de todos.
9.35
Mt 20.26-27
23.11
Mc 10.43-44
Lc 22.26
36Trazendo uma criança, colocou-a no meio deles e, tomando-a nos braços, disse-lhes: 37Qualquer que receber uma criança, tal como esta, em meu nome, a mim me recebe; e qualquer que a mim me receber,
9.37
Mt 10.40
Lc 10.16
Jo 13.20
não recebe a mim, mas ao que me enviou.

Jesus ensina a tolerância e a caridade

Lc 9.49-50

38Disse-lhe João: Mestre, vimos um homem que, em teu nome, expelia demônios, o qual não nos segue; e nós lho proibimos, porque não seguia conosco. 39Mas Jesus respondeu: Não lho proibais; porque ninguém há que faça milagre em meu nome e, logo a seguir, possa falar mal de mim. 40Pois quem não é contra nós

9.40
Mt 12.30
Lc 11.23
é por nós. 41Porquanto, aquele que vos der
9.41
Mt 10.42
de beber um copo de água, em meu nome, porque sois de Cristo, em verdade vos digo que de modo algum perderá o seu galardão.

Os tropeços

Mt 18.6-9; Lc 17.1-2

42E quem fizer tropeçar a um destes pequeninos crentes, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma grande pedra de moinho, e fosse lançado no mar. 43E, se tua mão

9.43
Mt 5.30
te faz tropeçar, corta-a; pois é melhor entrares maneta na vida do que, tendo as duas mãos, ires para o inferno, para o fogo inextinguível 44[onde não lhes morre o verme,
9.44
Is 66.24
nem o fogo se apaga]. 45E, se teu pé te faz tropeçar, corta-o; é melhor entrares na vida aleijado do que, tendo os dois pés, seres lançado no inferno 46[onde não lhes morre o verme, nem o fogo se apaga]. 47E, se um dos teus olhos
9.47
Mt 5.29
te faz tropeçar, arranca-o; é melhor entrares no reino de Deus com um só dos teus olhos do que, tendo os dois seres lançado no inferno, 48onde não lhes morre o verme, nem o fogo se apaga.

Os discípulos, o sal da terra

Mt 5.13; Lc 14.34-35

49Porque cada um será salgado com fogo. 50Bom é o sal; mas, se o sal vier a tornar-se insípido,

9.50
Mt 5.13
Lc 14.34-35
como lhe restaurar o sabor? Tende sal em vós mesmos e paz uns com os outros.