Almeida Revista e Atualizada (1993) (ARA)
4

Os sofrimentos do cerco

41Como se escureceu o ouro!

Como se mudou o ouro refinado!

Como estão espalhadas as pedras do santuário

pelas esquinas de todas as ruas!

2Os nobres filhos de Sião,

comparáveis a puro ouro,

como são agora reputados por objetos de barro,

obra das mãos de oleiro!

3Até os chacais dão o peito,

dão de mamar a seus filhos;

mas a filha do meu povo

tornou-se cruel como os avestruzes no deserto.

4A língua da criança que mama

fica pegada, pela sede, ao céu da boca;

os meninos pedem pão,

e ninguém há que lho dê.

5Os que se alimentavam de comidas finas

desfalecem nas ruas;

os que se criaram entre escarlata

se apegam aos monturos.

6Porque maior é a maldade da filha do meu povo

do que o pecado de Sodoma,

que foi subvertida como num momento,

sem o emprego de mãos nenhumas.

4.6
Gn 19.24

7Os seus príncipes eram mais alvos do que a neve,

mais brancos do que o leite;

eram mais ruivos de corpo do que os corais

e tinham a formosura da safira.

8Mas, agora, escureceu-se-lhes o aspecto mais do que a fuligem;

não são conhecidos nas ruas;

a sua pele se lhes pegou aos ossos,

secou-se como uma madeira.

9Mais felizes foram as vítimas da espada

do que as vítimas da fome;

porque estas se definham

atingidas mortalmente pela falta do produto dos campos.

10As mãos das mulheres outrora compassivas

cozeram seus próprios filhos;

estes lhes serviram de alimento

na destruição da filha do meu povo.

11Deu o Senhor cumprimento à sua indignação,

derramou o ardor da sua ira;

acendeu fogo em Sião,

que consumiu os seus fundamentos.

12Não creram os reis da terra,

nem todos os moradores do mundo,

que entrasse o adversário e o inimigo

pelas portas de Jerusalém.

13Foi por causa dos pecados dos seus profetas,

das maldades dos seus sacerdotes

que se derramou no meio dela

o sangue dos justos.

14Erram como cegos nas ruas,

andam contaminados de sangue,

de tal sorte que ninguém

lhes pode tocar nas roupas.

15Apartai-vos, imundos! — gritavam-lhes;

apartai-vos, apartai-vos, não toqueis!

Quando fugiram errantes, dizia-se entre as nações:

Jamais habitarão aqui.

16A ira do Senhor os espalhou;

ele jamais atentará para eles;

o inimigo não honra os sacerdotes,

nem se compadece dos anciãos.

17Os nossos olhos ainda desfalecem,

esperando vão socorro;

temos olhado das vigias para um povo

que não pode livrar.

18Espreitavam os nossos passos,

de maneira que não podíamos andar pelas nossas praças;

aproximava-se o nosso fim, os nossos dias se cumpriam,

era chegado o nosso fim.

19Os nossos perseguidores foram mais ligeiros

do que as aves dos céus;

sobre os montes nos perseguiram,

no deserto nos armaram ciladas.

20O fôlego da nossa vida, o ungido do Senhor,

foi preso nos forjes deles;

dele dizíamos:

debaixo da sua sombra,

viveremos entre as nações.

21Regozija-te e alegra-te, ó filha de Edom,

que habitas na terra de Uz;

o cálice se passará também a ti;

embebedar-te-ás e te desnudarás.

22O castigo da tua maldade está consumado, ó filha de Sião;

o Senhor nunca mais te levará para o exílio;

a tua maldade, ó filha de Edom,

descobrirá os teus pecados.

5

Os fiéis pedem misericórdia

51Lembra-te, Senhor, do que nos tem sucedido;

considera e olha para o nosso opróbrio.

2A nossa herança passou a estranhos,

e as nossas casas, a estrangeiros;

3somos órfãos, já não temos pai,

nossas mães são como viúvas.

4A nossa água, por dinheiro a bebemos,

por preço vem a nossa lenha.

5Os nossos perseguidores estão sobre o nosso pescoço;

estamos exaustos e não temos descanso.

6Submetemo-nos aos egípcios e aos assírios,

para nos fartarem de pão.

7Nossos pais pecaram

e já não existem;

nós é que levamos o castigo das suas iniquidades.

8Escravos dominam sobre nós;

ninguém há que nos livre das suas mãos.

9Com perigo de nossa vida, providenciamos o nosso pão,

por causa da espada do deserto.

10Nossa pele se esbraseia como um forno,

por causa do ardor da fome.

11Forçaram as mulheres em Sião;

as virgens, nas cidades de Judá.

12Os príncipes foram por eles enforcados,

as faces dos velhos não foram reverenciadas.

13Os jovens levaram a mó,

os meninos tropeçaram debaixo das cargas de lenha;

14os anciãos já não se assentam na porta,

os jovens já não cantam.

15Cessou o júbilo de nosso coração,

converteu-se em lamentações a nossa dança.

16Caiu a coroa da nossa cabeça;

ai de nós, porque pecamos!

17Por isso, caiu doente o nosso coração;

por isso, se escureceram os nossos olhos.

18Pelo monte Sião, que está assolado,

andam as raposas.

19Tu, Senhor, reinas eternamente,

o teu trono subsiste de geração em geração.

20Por que te esquecerias de nós para sempre?

Por que nos desampararias por tanto tempo?

21Converte-nos a ti, Senhor, e seremos convertidos;

renova os nossos dias como dantes.

22Por que nos rejeitarias totalmente?

Por que te enfurecerias sobremaneira contra nós outros?