Almeida Revista e Atualizada (1993) (ARA)
2

As tristezas de Sião provêm do Senhor

21Como o Senhor cobriu de nuvens,

na sua ira, a filha de Sião!

Precipitou do céu à terra

a glória de Israel

e não se lembrou do estrado de seus pés,

no dia da sua ira.

2Devorou o Senhor todas as moradas de Jacó

e não se apiedou;

derribou no seu furor

as fortalezas da filha de Judá;

lançou por terra e profanou

o reino e os seus príncipes.

3No furor da sua ira,

cortou toda a força de Israel;

retirou a sua destra

de diante do inimigo;

e ardeu contra Jacó, como labareda de fogo

que tudo consome em redor.

4Entesou o seu arco, qual inimigo;

firmou a sua destra, como adversário,

e destruiu tudo

o que era formoso à vista;

derramou o seu furor, como fogo,

na tenda da filha de Sião.

5Tornou-se o Senhor como inimigo,

devorando Israel;

devorou todos os seus palácios,

destruiu as suas fortalezas

e multiplicou na filha de Judá

o pranto e a lamentação.

6Demoliu com violência o seu tabernáculo, como se fosse uma horta;

destruiu o lugar da sua congregação;

o Senhor, em Sião, pôs em esquecimento

as festas e o sábado

e, na indignação da sua ira, rejeitou com desprezo

o rei e o sacerdote.

7Rejeitou o Senhor o seu altar

e detestou o seu santuário;

entregou nas mãos do inimigo

os muros dos seus castelos;

deram gritos na Casa do Senhor,

como em dia de festa.

8Intentou o Senhor destruir

o muro da filha de Sião;

estendeu o cordel

e não retirou a sua mão destruidora;

fez gemer o antemuro e o muro;

eles estão juntamente enfraquecidos.

9As suas portas caíram por terra;

ele quebrou e despedaçou os seus ferrolhos;

o seu rei e os seus príncipes

estão entre as nações

onde já não vigora a lei,

nem recebem visão alguma do Senhor os seus profetas.

10Sentados em terra se acham, silenciosos,

os anciãos da filha de Sião;

lançam pó sobre a cabeça,

cingidos de cilício;

as virgens de Jerusalém abaixam a cabeça

até ao chão.

11Com lágrimas se consumiram os meus olhos,

turbada está a minha alma,

e o meu coração se derramou de angústia

por causa da calamidade da filha do meu povo;

pois desfalecem os meninos e as crianças de peito

pelas ruas da cidade.

12Dizem às mães:

Onde há pão e vinho?,

quando desfalecem como o ferido

pelas ruas da cidade

ou quando exalam a alma

nos braços de sua mãe.

13Que poderei dizer-te?

A quem te compararei, ó filha de Jerusalém?

A quem te assemelharei,

para te consolar a ti, ó virgem filha de Sião?

Porque grande como o mar é a tua calamidade;

quem te acudirá?

14Os teus profetas te anunciaram

visões falsas e absurdas

e não manifestaram a tua maldade,

para restaurarem a tua sorte;

mas te anunciaram visões de sentenças falsas,

que te levaram para o cativeiro.

15Todos os que passam pelo caminho

batem palmas,

assobiam e meneiam a cabeça

sobre a filha de Jerusalém:

É esta a cidade que denominavam

a perfeição da formosura,

a alegria de toda a terra?

16Todos os teus inimigos

abrem contra ti a boca,

assobiam e rangem os dentes;

dizem: Devoramo-la;

certamente, este é o dia que esperávamos;

achamo-lo e vimo-lo.

17Fez o Senhor o que intentou;

cumpriu a ameaça que pronunciou

desde os dias da antiguidade;

derrubou e não se apiedou;

fez que o inimigo se alegrasse por tua causa

e exaltou o poder dos teus adversários.

18O coração de Jerusalém clama ao Senhor.

Ó muralha da filha de Sião,

corram as tuas lágrimas como um ribeiro,

de dia e de noite,

não te dês descanso,

nem pare de chorar a menina de teus olhos!

19Levanta-te, clama de noite

no princípio das vigílias;

derrama, como água, o coração

perante o Senhor;

levanta a ele as mãos,

pela vida de teus filhinhos,

que desfalecem de fome

à entrada de todas as ruas.

20Vê, ó Senhor, e considera

a quem fizeste assim!

Hão de as mulheres comer o fruto de si mesmas,

as crianças do seu carinho?

Ou se matará no santuário do Senhor

o sacerdote e o profeta?

21Jazem por terra pelas ruas

o moço e o velho;

as minhas virgens e os meus jovens

vieram a cair à espada;

tu os mataste no dia da tua ira,

fizeste matança e não te apiedaste.

22Convocaste de toda parte terrores contra mim,

como num dia de solenidade;

não houve, no dia da ira do Senhor,

quem escapasse ou ficasse;

aqueles do meu carinho os quais eu criei,

o meu inimigo os consumiu.

3

Convidado o povo a reconhecer o seu pecado

31Eu sou o homem que viu a aflição

pela vara do furor de Deus.

2Ele me levou e me fez andar

em trevas e não na luz.

3Deveras ele volveu contra mim a mão,

de contínuo, todo o dia.

4Fez envelhecer a minha carne e a minha pele,

despedaçou os meus ossos.

5Edificou contra mim

e me cercou de veneno e de dor.

6Fez-me habitar em lugares tenebrosos,

como os que estão mortos para sempre.

7Cercou-me de um muro, e já não posso sair;

agravou-me com grilhões de bronze.

8Ainda quando clamo e grito,

ele não admite a minha oração.

9Fechou os meus caminhos com pedras lavradas,

fez tortuosas as minhas veredas.

10Fez-se-me como urso à espreita,

um leão de emboscada.

11Desviou os meus caminhos e me fez em pedaços;

deixou-me assolado.

12Entesou o seu arco

e me pôs como alvo à flecha.

13Fez que me entrassem no coração

as flechas da sua aljava.

14Fui feito objeto de escárnio para todo o meu povo

e a sua canção, todo o dia.

15Fartou-me de amarguras,

saciou-me de absinto.

16Fez-me quebrar com pedrinhas de areia os meus dentes,

cobriu-me de cinza.

17Afastou a paz de minha alma;

esqueci-me do bem.

18Então, disse eu: já pereceu a minha glória,

como também a minha esperança no Senhor.

19Lembra-te da minha aflição e do meu pranto,

do absinto e do veneno.

20Minha alma, continuamente, os recorda

e se abate dentro de mim.

21Quero trazer à memória

o que me pode dar esperança.

Esperança de auxílio pela misericórdia de Deus

22As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos,

porque as suas misericórdias não têm fim;

23renovam-se cada manhã.

Grande é a tua fidelidade.

24A minha porção é o Senhor, diz a minha alma;

portanto, esperarei nele.

25Bom é o Senhor para os que esperam por ele,

para a alma que o busca.

26Bom é aguardar a salvação do Senhor,

e isso, em silêncio.

27Bom é para o homem

suportar o jugo na sua mocidade.

28Assente-se solitário e fique em silêncio;

porquanto esse jugo Deus pôs sobre ele;

29ponha a boca no pó;

talvez ainda haja esperança.

30Dê a face ao que o fere;

farte-se de afronta.

31O Senhor não rejeitará

para sempre;

32pois, ainda que entristeça a alguém,

usará de compaixão segundo a grandeza das suas misericórdias;

33porque não aflige, nem entristece de bom grado

os filhos dos homens.

34Pisar debaixo dos pés

a todos os presos da terra,

35perverter o direito do homem

perante o Altíssimo,

36subverter ao homem no seu pleito,

não o veria o Senhor?

37Quem é aquele que diz, e assim acontece,

quando o Senhor o não mande?

38Acaso, não procede do Altíssimo

tanto o mal como o bem?

39Por que, pois, se queixa o homem vivente?

Queixe-se cada um dos seus próprios pecados.

40Esquadrinhemos os nossos caminhos,

provemo-los e voltemos para o Senhor.

41Levantemos o coração,

juntamente com as mãos, para Deus nos céus, dizendo:

42Nós prevaricamos e fomos rebeldes,

e tu não nos perdoaste.

43Cobriste-nos de ira e nos perseguiste;

e sem piedade nos mataste.

44De nuvens te encobriste

para que não passe a nossa oração.

45Como cisco e refugo nos puseste

no meio dos povos.

46Todos os nossos inimigos

abriram contra nós a boca.

47Sobre nós vieram o temor e a cova,

a assolação e a ruína.

48Dos meus olhos se derramam torrentes de águas,

por causa da destruição da filha do meu povo.

49Os meus olhos choram,

não cessam, e não há descanso,

50até que o Senhor atenda

e veja lá do céu.

51Os meus olhos entristecem a minha alma,

por causa de todas as filhas da minha cidade.

52Caçaram-me, como se eu fosse ave,

os que sem motivo são meus inimigos.

53Para me destruírem, lançaram-me na cova

e atiraram pedras sobre mim.

54Águas correram sobre a minha cabeça;

então, disse: estou perdido!

55Da mais profunda cova, Senhor,

invoquei o teu nome.

56Ouviste a minha voz;

não escondas o ouvido aos meus lamentos, ao meu clamor.

57De mim te aproximaste no dia em que te invoquei;

disseste: Não temas.

58Pleiteaste, Senhor, a causa da minha alma,

remiste a minha vida.

59Viste, Senhor, a injustiça que me fizeram;

julga a minha causa.

60Viste a sua vingança toda,

todos os seus pensamentos contra mim.

61Ouviste as suas afrontas, Senhor,

todos os seus pensamentos contra mim;

62as acusações dos meus adversários

e o seu murmurar contra mim, o dia todo.

63Observa-os quando se assentam e quando se levantam;

eu sou objeto da sua canção.

64Tu lhes darás a paga, Senhor,

segundo a obra das suas mãos.

65Tu lhes darás cegueira de coração,

a tua maldição imporás sobre eles.

66Na tua ira, os perseguirás,

e eles serão eliminados de debaixo dos céus do Senhor.

4

Os sofrimentos do cerco

41Como se escureceu o ouro!

Como se mudou o ouro refinado!

Como estão espalhadas as pedras do santuário

pelas esquinas de todas as ruas!

2Os nobres filhos de Sião,

comparáveis a puro ouro,

como são agora reputados por objetos de barro,

obra das mãos de oleiro!

3Até os chacais dão o peito,

dão de mamar a seus filhos;

mas a filha do meu povo

tornou-se cruel como os avestruzes no deserto.

4A língua da criança que mama

fica pegada, pela sede, ao céu da boca;

os meninos pedem pão,

e ninguém há que lho dê.

5Os que se alimentavam de comidas finas

desfalecem nas ruas;

os que se criaram entre escarlata

se apegam aos monturos.

6Porque maior é a maldade da filha do meu povo

do que o pecado de Sodoma,

que foi subvertida como num momento,

sem o emprego de mãos nenhumas.

4.6
Gn 19.24

7Os seus príncipes eram mais alvos do que a neve,

mais brancos do que o leite;

eram mais ruivos de corpo do que os corais

e tinham a formosura da safira.

8Mas, agora, escureceu-se-lhes o aspecto mais do que a fuligem;

não são conhecidos nas ruas;

a sua pele se lhes pegou aos ossos,

secou-se como uma madeira.

9Mais felizes foram as vítimas da espada

do que as vítimas da fome;

porque estas se definham

atingidas mortalmente pela falta do produto dos campos.

10As mãos das mulheres outrora compassivas

cozeram seus próprios filhos;

estes lhes serviram de alimento

na destruição da filha do meu povo.

11Deu o Senhor cumprimento à sua indignação,

derramou o ardor da sua ira;

acendeu fogo em Sião,

que consumiu os seus fundamentos.

12Não creram os reis da terra,

nem todos os moradores do mundo,

que entrasse o adversário e o inimigo

pelas portas de Jerusalém.

13Foi por causa dos pecados dos seus profetas,

das maldades dos seus sacerdotes

que se derramou no meio dela

o sangue dos justos.

14Erram como cegos nas ruas,

andam contaminados de sangue,

de tal sorte que ninguém

lhes pode tocar nas roupas.

15Apartai-vos, imundos! — gritavam-lhes;

apartai-vos, apartai-vos, não toqueis!

Quando fugiram errantes, dizia-se entre as nações:

Jamais habitarão aqui.

16A ira do Senhor os espalhou;

ele jamais atentará para eles;

o inimigo não honra os sacerdotes,

nem se compadece dos anciãos.

17Os nossos olhos ainda desfalecem,

esperando vão socorro;

temos olhado das vigias para um povo

que não pode livrar.

18Espreitavam os nossos passos,

de maneira que não podíamos andar pelas nossas praças;

aproximava-se o nosso fim, os nossos dias se cumpriam,

era chegado o nosso fim.

19Os nossos perseguidores foram mais ligeiros

do que as aves dos céus;

sobre os montes nos perseguiram,

no deserto nos armaram ciladas.

20O fôlego da nossa vida, o ungido do Senhor,

foi preso nos forjes deles;

dele dizíamos:

debaixo da sua sombra,

viveremos entre as nações.

21Regozija-te e alegra-te, ó filha de Edom,

que habitas na terra de Uz;

o cálice se passará também a ti;

embebedar-te-ás e te desnudarás.

22O castigo da tua maldade está consumado, ó filha de Sião;

o Senhor nunca mais te levará para o exílio;

a tua maldade, ó filha de Edom,

descobrirá os teus pecados.

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