Almeida Revista e Atualizada (1993) (ARA)
3

Convidado o povo a reconhecer o seu pecado

31Eu sou o homem que viu a aflição

pela vara do furor de Deus.

2Ele me levou e me fez andar

em trevas e não na luz.

3Deveras ele volveu contra mim a mão,

de contínuo, todo o dia.

4Fez envelhecer a minha carne e a minha pele,

despedaçou os meus ossos.

5Edificou contra mim

e me cercou de veneno e de dor.

6Fez-me habitar em lugares tenebrosos,

como os que estão mortos para sempre.

7Cercou-me de um muro, e já não posso sair;

agravou-me com grilhões de bronze.

8Ainda quando clamo e grito,

ele não admite a minha oração.

9Fechou os meus caminhos com pedras lavradas,

fez tortuosas as minhas veredas.

10Fez-se-me como urso à espreita,

um leão de emboscada.

11Desviou os meus caminhos e me fez em pedaços;

deixou-me assolado.

12Entesou o seu arco

e me pôs como alvo à flecha.

13Fez que me entrassem no coração

as flechas da sua aljava.

14Fui feito objeto de escárnio para todo o meu povo

e a sua canção, todo o dia.

15Fartou-me de amarguras,

saciou-me de absinto.

16Fez-me quebrar com pedrinhas de areia os meus dentes,

cobriu-me de cinza.

17Afastou a paz de minha alma;

esqueci-me do bem.

18Então, disse eu: já pereceu a minha glória,

como também a minha esperança no Senhor.

19Lembra-te da minha aflição e do meu pranto,

do absinto e do veneno.

20Minha alma, continuamente, os recorda

e se abate dentro de mim.

21Quero trazer à memória

o que me pode dar esperança.

Esperança de auxílio pela misericórdia de Deus

22As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos,

porque as suas misericórdias não têm fim;

23renovam-se cada manhã.

Grande é a tua fidelidade.

24A minha porção é o Senhor, diz a minha alma;

portanto, esperarei nele.

25Bom é o Senhor para os que esperam por ele,

para a alma que o busca.

26Bom é aguardar a salvação do Senhor,

e isso, em silêncio.

27Bom é para o homem

suportar o jugo na sua mocidade.

28Assente-se solitário e fique em silêncio;

porquanto esse jugo Deus pôs sobre ele;

29ponha a boca no pó;

talvez ainda haja esperança.

30Dê a face ao que o fere;

farte-se de afronta.

31O Senhor não rejeitará

para sempre;

32pois, ainda que entristeça a alguém,

usará de compaixão segundo a grandeza das suas misericórdias;

33porque não aflige, nem entristece de bom grado

os filhos dos homens.

34Pisar debaixo dos pés

a todos os presos da terra,

35perverter o direito do homem

perante o Altíssimo,

36subverter ao homem no seu pleito,

não o veria o Senhor?

37Quem é aquele que diz, e assim acontece,

quando o Senhor o não mande?

38Acaso, não procede do Altíssimo

tanto o mal como o bem?

39Por que, pois, se queixa o homem vivente?

Queixe-se cada um dos seus próprios pecados.

40Esquadrinhemos os nossos caminhos,

provemo-los e voltemos para o Senhor.

41Levantemos o coração,

juntamente com as mãos, para Deus nos céus, dizendo:

42Nós prevaricamos e fomos rebeldes,

e tu não nos perdoaste.

43Cobriste-nos de ira e nos perseguiste;

e sem piedade nos mataste.

44De nuvens te encobriste

para que não passe a nossa oração.

45Como cisco e refugo nos puseste

no meio dos povos.

46Todos os nossos inimigos

abriram contra nós a boca.

47Sobre nós vieram o temor e a cova,

a assolação e a ruína.

48Dos meus olhos se derramam torrentes de águas,

por causa da destruição da filha do meu povo.

49Os meus olhos choram,

não cessam, e não há descanso,

50até que o Senhor atenda

e veja lá do céu.

51Os meus olhos entristecem a minha alma,

por causa de todas as filhas da minha cidade.

52Caçaram-me, como se eu fosse ave,

os que sem motivo são meus inimigos.

53Para me destruírem, lançaram-me na cova

e atiraram pedras sobre mim.

54Águas correram sobre a minha cabeça;

então, disse: estou perdido!

55Da mais profunda cova, Senhor,

invoquei o teu nome.

56Ouviste a minha voz;

não escondas o ouvido aos meus lamentos, ao meu clamor.

57De mim te aproximaste no dia em que te invoquei;

disseste: Não temas.

58Pleiteaste, Senhor, a causa da minha alma,

remiste a minha vida.

59Viste, Senhor, a injustiça que me fizeram;

julga a minha causa.

60Viste a sua vingança toda,

todos os seus pensamentos contra mim.

61Ouviste as suas afrontas, Senhor,

todos os seus pensamentos contra mim;

62as acusações dos meus adversários

e o seu murmurar contra mim, o dia todo.

63Observa-os quando se assentam e quando se levantam;

eu sou objeto da sua canção.

64Tu lhes darás a paga, Senhor,

segundo a obra das suas mãos.

65Tu lhes darás cegueira de coração,

a tua maldição imporás sobre eles.

66Na tua ira, os perseguirás,

e eles serão eliminados de debaixo dos céus do Senhor.