Almeida Revista e Atualizada (1993) (ARA)
1

Jerusalém destruída e desolada

11Como jaz solitária a cidade outrora populosa!

Tornou-se como viúva

a que foi grande entre as nações;

princesa entre as províncias,

ficou sujeita a trabalhos forçados!

2Chora e chora de noite,

e as suas lágrimas lhe correm pelas faces;

não tem quem a console

entre todos os que a amavam;

todos os seus amigos procederam perfidamente contra ela,

tornaram-se seus inimigos.

3Judá foi levado ao exílio,

afligido e sob grande servidão;

habita entre as nações,

não acha descanso;

todos os seus perseguidores o apanharam

nas suas angústias.

4Os caminhos de Sião estão de luto,

porque não há quem venha à reunião solene;

todas as suas portas estão desoladas;

os seus sacerdotes gemem;

as suas virgens estão tristes,

e ela mesma se acha em amargura.

5Os seus adversários triunfam,

os seus inimigos prosperam;

porque o Senhor a afligiu,

por causa da multidão das suas prevaricações;

os seus filhinhos tiveram de ir para o exílio,

na frente do adversário.

6Da filha de Sião já se passou

todo o esplendor;

os seus príncipes ficaram sendo

como corços que não acham pasto

e caminham exaustos

na frente do perseguidor.

7Agora, nos dias da sua aflição e do seu desterro,

lembra-se Jerusalém

de todas as suas mais estimadas coisas,

que tivera dos tempos antigos;

de como o seu povo caíra nas mãos do adversário,

não tendo ela quem a socorresse;

e de como os adversários a viram

e fizeram escárnio da sua queda.

8Jerusalém pecou gravemente;

por isso, se tornou repugnante;

todos os que a honravam a desprezam,

porque lhe viram a nudez;

ela também geme

e se retira envergonhada.

9A sua imundícia está nas suas saias;

ela não pensava no seu fim;

por isso, caiu de modo espantoso

e não tem quem a console.

Vê, Senhor, a minha aflição,

porque o inimigo se torna insolente.

10Estendeu o adversário a mão

a todas as coisas mais estimadas dela;

pois ela viu entrar as nações

no seu santuário,

acerca das quais proibiste

que entrassem na tua congregação.

11Todo o seu povo anda gemendo

e à procura de pão;

deram eles as suas coisas mais estimadas

a troco de mantimento para restaurar as forças;

vê, Senhor, e contempla,

pois me tornei desprezível.

12Não vos comove isto, a todos vós que passais pelo caminho?

Considerai e vede

se há dor igual à minha,

que veio sobre mim,

com que o Senhor me afligiu

no dia do furor da sua ira.

13Lá do alto enviou fogo a meus ossos,

o qual se assenhoreou deles;

estendeu uma rede aos meus pés,

arrojou-me para trás,

fez-me assolada

e enferma todo o dia.

14O jugo das minhas transgressões

está atado pela sua mão;

elas estão entretecidas, subiram sobre o meu pescoço,

e ele abateu a minha força;

entregou-me o Senhor nas mãos daqueles

contra os quais não posso resistir.

15O Senhor dispersou todos os valentes

que estavam comigo;

apregoou contra mim um ajuntamento,

para esmagar os meus jovens;

o Senhor pisou, como num lagar,

a virgem filha de Judá.

16Por estas coisas, choro eu;

os meus olhos, os meus olhos se desfazem em águas;

porque se afastou de mim o consolador

que devia restaurar as minhas forças;

os meus filhos estão desolados,

porque prevaleceu o inimigo.

17Estende Sião as mãos,

e não há quem a console;

ordenou o Senhor acerca de Jacó

que os seus vizinhos se tornem seus inimigos;

Jerusalém é para eles

como coisa imunda.

18Justo é o Senhor,

pois me rebelei contra a sua palavra;

ouvi todos os povos

e vede a minha dor;

as minhas virgens e os meus jovens

foram levados para o cativeiro.

19Chamei os meus amigos,

mas eles me enganaram;

os meus sacerdotes e os meus anciãos

expiraram na cidade,

quando estavam à procura de mantimento

para restaurarem as suas forças.

20Olha, Senhor, porque estou angustiada;

turbada está a minha alma,

o meu coração, transtornado dentro de mim,

porque gravemente me rebelei;

fora, a espada mata os filhos;

em casa, anda a morte.

21Ouvem que eu suspiro,

mas não tenho quem me console;

todos os meus inimigos que souberam do meu mal

folgam, porque tu o fizeste;

mas, em trazendo tu o dia que apregoaste,

serão semelhantes a mim.

22Venha toda a sua iniquidade

à tua presença,

e faze-lhes como me fizeste a mim

por causa de todas as minhas prevaricações;

porque os meus gemidos são muitos,

e o meu coração está desfalecido.

2

As tristezas de Sião provêm do Senhor

21Como o Senhor cobriu de nuvens,

na sua ira, a filha de Sião!

Precipitou do céu à terra

a glória de Israel

e não se lembrou do estrado de seus pés,

no dia da sua ira.

2Devorou o Senhor todas as moradas de Jacó

e não se apiedou;

derribou no seu furor

as fortalezas da filha de Judá;

lançou por terra e profanou

o reino e os seus príncipes.

3No furor da sua ira,

cortou toda a força de Israel;

retirou a sua destra

de diante do inimigo;

e ardeu contra Jacó, como labareda de fogo

que tudo consome em redor.

4Entesou o seu arco, qual inimigo;

firmou a sua destra, como adversário,

e destruiu tudo

o que era formoso à vista;

derramou o seu furor, como fogo,

na tenda da filha de Sião.

5Tornou-se o Senhor como inimigo,

devorando Israel;

devorou todos os seus palácios,

destruiu as suas fortalezas

e multiplicou na filha de Judá

o pranto e a lamentação.

6Demoliu com violência o seu tabernáculo, como se fosse uma horta;

destruiu o lugar da sua congregação;

o Senhor, em Sião, pôs em esquecimento

as festas e o sábado

e, na indignação da sua ira, rejeitou com desprezo

o rei e o sacerdote.

7Rejeitou o Senhor o seu altar

e detestou o seu santuário;

entregou nas mãos do inimigo

os muros dos seus castelos;

deram gritos na Casa do Senhor,

como em dia de festa.

8Intentou o Senhor destruir

o muro da filha de Sião;

estendeu o cordel

e não retirou a sua mão destruidora;

fez gemer o antemuro e o muro;

eles estão juntamente enfraquecidos.

9As suas portas caíram por terra;

ele quebrou e despedaçou os seus ferrolhos;

o seu rei e os seus príncipes

estão entre as nações

onde já não vigora a lei,

nem recebem visão alguma do Senhor os seus profetas.

10Sentados em terra se acham, silenciosos,

os anciãos da filha de Sião;

lançam pó sobre a cabeça,

cingidos de cilício;

as virgens de Jerusalém abaixam a cabeça

até ao chão.

11Com lágrimas se consumiram os meus olhos,

turbada está a minha alma,

e o meu coração se derramou de angústia

por causa da calamidade da filha do meu povo;

pois desfalecem os meninos e as crianças de peito

pelas ruas da cidade.

12Dizem às mães:

Onde há pão e vinho?,

quando desfalecem como o ferido

pelas ruas da cidade

ou quando exalam a alma

nos braços de sua mãe.

13Que poderei dizer-te?

A quem te compararei, ó filha de Jerusalém?

A quem te assemelharei,

para te consolar a ti, ó virgem filha de Sião?

Porque grande como o mar é a tua calamidade;

quem te acudirá?

14Os teus profetas te anunciaram

visões falsas e absurdas

e não manifestaram a tua maldade,

para restaurarem a tua sorte;

mas te anunciaram visões de sentenças falsas,

que te levaram para o cativeiro.

15Todos os que passam pelo caminho

batem palmas,

assobiam e meneiam a cabeça

sobre a filha de Jerusalém:

É esta a cidade que denominavam

a perfeição da formosura,

a alegria de toda a terra?

16Todos os teus inimigos

abrem contra ti a boca,

assobiam e rangem os dentes;

dizem: Devoramo-la;

certamente, este é o dia que esperávamos;

achamo-lo e vimo-lo.

17Fez o Senhor o que intentou;

cumpriu a ameaça que pronunciou

desde os dias da antiguidade;

derrubou e não se apiedou;

fez que o inimigo se alegrasse por tua causa

e exaltou o poder dos teus adversários.

18O coração de Jerusalém clama ao Senhor.

Ó muralha da filha de Sião,

corram as tuas lágrimas como um ribeiro,

de dia e de noite,

não te dês descanso,

nem pare de chorar a menina de teus olhos!

19Levanta-te, clama de noite

no princípio das vigílias;

derrama, como água, o coração

perante o Senhor;

levanta a ele as mãos,

pela vida de teus filhinhos,

que desfalecem de fome

à entrada de todas as ruas.

20Vê, ó Senhor, e considera

a quem fizeste assim!

Hão de as mulheres comer o fruto de si mesmas,

as crianças do seu carinho?

Ou se matará no santuário do Senhor

o sacerdote e o profeta?

21Jazem por terra pelas ruas

o moço e o velho;

as minhas virgens e os meus jovens

vieram a cair à espada;

tu os mataste no dia da tua ira,

fizeste matança e não te apiedaste.

22Convocaste de toda parte terrores contra mim,

como num dia de solenidade;

não houve, no dia da ira do Senhor,

quem escapasse ou ficasse;

aqueles do meu carinho os quais eu criei,

o meu inimigo os consumiu.

3

Convidado o povo a reconhecer o seu pecado

31Eu sou o homem que viu a aflição

pela vara do furor de Deus.

2Ele me levou e me fez andar

em trevas e não na luz.

3Deveras ele volveu contra mim a mão,

de contínuo, todo o dia.

4Fez envelhecer a minha carne e a minha pele,

despedaçou os meus ossos.

5Edificou contra mim

e me cercou de veneno e de dor.

6Fez-me habitar em lugares tenebrosos,

como os que estão mortos para sempre.

7Cercou-me de um muro, e já não posso sair;

agravou-me com grilhões de bronze.

8Ainda quando clamo e grito,

ele não admite a minha oração.

9Fechou os meus caminhos com pedras lavradas,

fez tortuosas as minhas veredas.

10Fez-se-me como urso à espreita,

um leão de emboscada.

11Desviou os meus caminhos e me fez em pedaços;

deixou-me assolado.

12Entesou o seu arco

e me pôs como alvo à flecha.

13Fez que me entrassem no coração

as flechas da sua aljava.

14Fui feito objeto de escárnio para todo o meu povo

e a sua canção, todo o dia.

15Fartou-me de amarguras,

saciou-me de absinto.

16Fez-me quebrar com pedrinhas de areia os meus dentes,

cobriu-me de cinza.

17Afastou a paz de minha alma;

esqueci-me do bem.

18Então, disse eu: já pereceu a minha glória,

como também a minha esperança no Senhor.

19Lembra-te da minha aflição e do meu pranto,

do absinto e do veneno.

20Minha alma, continuamente, os recorda

e se abate dentro de mim.

21Quero trazer à memória

o que me pode dar esperança.

Esperança de auxílio pela misericórdia de Deus

22As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos,

porque as suas misericórdias não têm fim;

23renovam-se cada manhã.

Grande é a tua fidelidade.

24A minha porção é o Senhor, diz a minha alma;

portanto, esperarei nele.

25Bom é o Senhor para os que esperam por ele,

para a alma que o busca.

26Bom é aguardar a salvação do Senhor,

e isso, em silêncio.

27Bom é para o homem

suportar o jugo na sua mocidade.

28Assente-se solitário e fique em silêncio;

porquanto esse jugo Deus pôs sobre ele;

29ponha a boca no pó;

talvez ainda haja esperança.

30Dê a face ao que o fere;

farte-se de afronta.

31O Senhor não rejeitará

para sempre;

32pois, ainda que entristeça a alguém,

usará de compaixão segundo a grandeza das suas misericórdias;

33porque não aflige, nem entristece de bom grado

os filhos dos homens.

34Pisar debaixo dos pés

a todos os presos da terra,

35perverter o direito do homem

perante o Altíssimo,

36subverter ao homem no seu pleito,

não o veria o Senhor?

37Quem é aquele que diz, e assim acontece,

quando o Senhor o não mande?

38Acaso, não procede do Altíssimo

tanto o mal como o bem?

39Por que, pois, se queixa o homem vivente?

Queixe-se cada um dos seus próprios pecados.

40Esquadrinhemos os nossos caminhos,

provemo-los e voltemos para o Senhor.

41Levantemos o coração,

juntamente com as mãos, para Deus nos céus, dizendo:

42Nós prevaricamos e fomos rebeldes,

e tu não nos perdoaste.

43Cobriste-nos de ira e nos perseguiste;

e sem piedade nos mataste.

44De nuvens te encobriste

para que não passe a nossa oração.

45Como cisco e refugo nos puseste

no meio dos povos.

46Todos os nossos inimigos

abriram contra nós a boca.

47Sobre nós vieram o temor e a cova,

a assolação e a ruína.

48Dos meus olhos se derramam torrentes de águas,

por causa da destruição da filha do meu povo.

49Os meus olhos choram,

não cessam, e não há descanso,

50até que o Senhor atenda

e veja lá do céu.

51Os meus olhos entristecem a minha alma,

por causa de todas as filhas da minha cidade.

52Caçaram-me, como se eu fosse ave,

os que sem motivo são meus inimigos.

53Para me destruírem, lançaram-me na cova

e atiraram pedras sobre mim.

54Águas correram sobre a minha cabeça;

então, disse: estou perdido!

55Da mais profunda cova, Senhor,

invoquei o teu nome.

56Ouviste a minha voz;

não escondas o ouvido aos meus lamentos, ao meu clamor.

57De mim te aproximaste no dia em que te invoquei;

disseste: Não temas.

58Pleiteaste, Senhor, a causa da minha alma,

remiste a minha vida.

59Viste, Senhor, a injustiça que me fizeram;

julga a minha causa.

60Viste a sua vingança toda,

todos os seus pensamentos contra mim.

61Ouviste as suas afrontas, Senhor,

todos os seus pensamentos contra mim;

62as acusações dos meus adversários

e o seu murmurar contra mim, o dia todo.

63Observa-os quando se assentam e quando se levantam;

eu sou objeto da sua canção.

64Tu lhes darás a paga, Senhor,

segundo a obra das suas mãos.

65Tu lhes darás cegueira de coração,

a tua maldição imporás sobre eles.

66Na tua ira, os perseguirás,

e eles serão eliminados de debaixo dos céus do Senhor.