Almeida Revista e Atualizada (1993) (ARA)
8

Bildade afirma a justiça de Deus

81Então, respondeu Bildade, o suíta:

2Até quando falarás tais coisas?

E até quando as palavras da tua boca serão qual vento impetuoso?

3Perverteria Deus o direito

ou perverteria o Todo-Poderoso a justiça?

4Se teus filhos pecaram contra ele,

também ele os lançou no poder da sua transgressão.

5Mas, se tu buscares a Deus

e ao Todo-Poderoso pedires misericórdia,

6se fores puro e reto,

ele, sem demora, despertará em teu favor

e restaurará a justiça da tua morada.

7O teu primeiro estado, na verdade, terá sido pequeno,

mas o teu último crescerá sobremaneira.

8Pois, eu te peço, pergunta agora a gerações passadas

e atenta para a experiência de seus pais;

9porque nós somos de ontem e nada sabemos;

porquanto nossos dias sobre a terra são como a sombra.

10Porventura, não te ensinarão os pais, não haverão de falar-te

e do próprio entendimento não proferirão estas palavras:

11Pode o papiro crescer sem lodo?

Ou viça o junco sem água?

12Estando ainda na sua verdura e ainda não colhidos,

todavia, antes de qualquer outra erva se secam.

13São assim as veredas de todos quantos se esquecem de Deus;

e a esperança do ímpio perecerá.

14A sua firmeza será frustrada,

e a sua confiança é teia de aranha.

15Encostar-se-á à sua casa, e ela não se manterá,

agarrar-se-á a ela, e ela não ficará em pé.

16Ele é viçoso perante o sol,

e os seus renovos irrompem no seu jardim;

17as suas raízes se entrelaçam num montão de pedras

e penetram até às muralhas.

18Mas, se Deus o arranca do seu lugar,

então, este o negará, dizendo: Nunca te vi.

19Eis em que deu a sua vida!

E do pó brotarão outros.

20Eis que Deus não rejeita ao íntegro,

nem toma pela mão os malfeitores.

21Ele te encherá a boca de riso

e os teus lábios, de júbilo.

22Teus aborrecedores se vestirão de ignomínia,

e a tenda dos perversos não subsistirá.

9

Jó é incapaz de responder a Deus

91Então, Jó respondeu e disse:

2Na verdade, sei que assim é;

porque, como pode o homem ser justo para com Deus?

3Se quiser contender com ele,

nem a uma de mil coisas lhe poderá responder.

4Ele é sábio de coração e grande em poder;

quem porfiou com ele e teve paz?

5Ele é quem remove os montes, sem que saibam

que ele na sua ira os transtorna;

6quem move a terra para fora do seu lugar,

cujas colunas estremecem;

7quem fala ao sol, e este não sai,

e sela as estrelas;

8quem sozinho estende os céus

e anda sobre os altos do mar;

9quem fez a Ursa, o Órion,

o Sete-estrelo

9.9
Jó 38.31
Am 5.8
e as recâmaras do Sul;

10quem faz grandes coisas, que se não podem esquadrinhar,

e maravilhas tais, que se não podem contar.

11Eis que ele passa por mim, e não o vejo;

segue perante mim, e não o percebo.

12Eis que arrebata a presa! Quem o pode impedir?

Quem lhe dirá: Que fazes?

13Deus não revogará a sua própria ira;

debaixo dele se encurvam os auxiliadores do Egito.

14Como, então, lhe poderei eu responder

ou escolher as minhas palavras, para argumentar com ele?

15A ele, ainda que eu fosse justo, não lhe responderia;

antes, ao meu Juiz pediria misericórdia.

16Ainda que o chamasse, e ele me respondesse,

nem por isso creria eu que desse ouvidos à minha voz.

17Porque me esmaga com uma tempestade

e multiplica as minhas chagas sem causa.

18Não me permite respirar;

antes, me farta de amarguras.

19Se se trata da força do poderoso, ele dirá: Eis-me aqui;

se, de justiça: Quem me citará?

20Ainda que eu seja justo, a minha boca me condenará;

embora seja eu íntegro, ele me terá por culpado.

21Eu sou íntegro, não levo em conta a minha alma,

não faço caso da minha vida.

22Para mim tudo é o mesmo; por isso, digo:

tanto destrói ele o íntegro como o perverso.

23Se qualquer flagelo mata subitamente,

então, se rirá do desespero do inocente.

24A terra está entregue nas mãos dos perversos;

e Deus ainda cobre o rosto dos juízes dela;

se não é ele o causador disso, quem é, logo?

25Os meus dias foram mais velozes do que um corredor;

fugiram e não viram a felicidade.

26Passaram como barcos de junco;

como a águia que se lança sobre a presa.

27Se eu disser: eu me esquecerei da minha queixa,

deixarei o meu ar triste e ficarei contente;

28ainda assim todas as minhas dores me apavoram,

porque bem sei que me não terás por inocente.

29Serei condenado;

por que, pois, trabalho eu em vão?

30Ainda que me lave com água de neve

e purifique as mãos com cáustico,

31mesmo assim me submergirás no lodo,

e as minhas próprias vestes me abominarão.

32Porque ele não é homem, como eu,

a quem eu responda, vindo juntamente a juízo.

33Não há entre nós árbitro

que ponha a mão sobre nós ambos.

34Tire ele a sua vara de cima de mim,

e não me amedronte o seu terror;

35então, falarei sem o temer;

do contrário, não estaria em mim.

10

Jó protesta contra a severidade de Deus

101A minha alma tem tédio à minha vida;

darei livre curso à minha queixa,

falarei com amargura da minha alma.

2Direi a Deus: Não me condenes;

faze-me saber por que contendes comigo.

3Parece-te bem que me oprimas,

que rejeites a obra das tuas mãos

e favoreças o conselho dos perversos?

4Tens tu olhos de carne?

Acaso, vês tu como vê o homem?

5São os teus dias como os dias do mortal?

Ou são os teus anos como os anos de um homem,

6para te informares da minha iniquidade

e averiguares o meu pecado?

7Bem sabes tu que eu não sou culpado;

todavia, ninguém há que me livre da tua mão.

8As tuas mãos me plasmaram e me aperfeiçoaram,

porém, agora, queres devorar-me.

9Lembra-te de que me formaste como em barro;

e queres, agora, reduzir-me a pó?

10Porventura, não me derramaste como leite

e não me coalhaste como queijo?

11De pele e carne me vestiste

e de ossos e tendões me entreteceste.

12Vida me concedeste na tua benevolência,

e o teu cuidado a mim me guardou.

13Estas coisas, as ocultaste no teu coração;

mas bem sei o que resolveste contigo mesmo.

14Se eu pecar, tu me observas;

e da minha iniquidade não me perdoarás.

15Se for perverso, ai de mim!

E, se for justo, não ouso levantar a cabeça,

pois estou cheio de ignomínia

e olho para a minha miséria.

16Porque, se a levanto, tu me caças como a um leão feroz

e de novo revelas poder maravilhoso contra mim.

17Tu renovas contra mim as tuas testemunhas

e multiplicas contra mim a tua ira;

males e lutas se sucedem contra mim.

18Por que, pois, me tiraste da madre?

Ah! Se eu morresse antes que olhos nenhuns me vissem!

19Teria eu sido como se nunca existira

e já do ventre teria sido levado à sepultura.

20Não são poucos os meus dias?

Cessa, pois, e deixa-me,

para que por um pouco eu tome alento,

21antes que eu vá para o lugar de que não voltarei,

para a terra das trevas e da sombra da morte;

22terra de negridão, de profunda escuridade,

terra da sombra da morte e do caos,

onde a própria luz é tenebrosa.