Almeida Revista e Atualizada (1993) (ARA)
6

Jó justifica as suas queixas

61Então, Jó respondeu:

2Oh! Se a minha queixa, de fato, se pesasse,

e contra ela, numa balança, se pusesse a minha miséria,

3esta, na verdade, pesaria mais que a areia dos mares;

por isso é que as minhas palavras foram precipitadas.

4Porque as flechas do Todo-Poderoso estão em mim cravadas,

e o meu espírito sorve o veneno delas;

os terrores de Deus se arregimentam contra mim.

5Zurrará o jumento montês junto à relva?

Ou mugirá o boi junto à sua forragem?

6Comer-se-á sem sal o que é insípido?

Ou haverá sabor na clara do ovo?

7Aquilo que a minha alma recusava tocar,

isso é agora a minha comida repugnante.

8Quem dera que se cumprisse o meu pedido,

e que Deus me concedesse o que anelo!

9Que fosse do agrado de Deus esmagar-me,

que soltasse a sua mão e acabasse comigo!

10Isto ainda seria a minha consolação,

e saltaria de contente na minha dor, que ele não poupa;

porque não tenho negado as palavras do Santo.

11Por que esperar, se já não tenho forças?

Por que prolongar a vida, se o meu fim é certo?

12Acaso, a minha força é a força da pedra?

Ou é de bronze a minha carne?

13Não! Jamais haverá socorro para mim;

foram afastados de mim os meus recursos.

14Ao aflito deve o amigo mostrar compaixão,

a menos que tenha abandonado o temor do Todo-Poderoso.

15Meus irmãos aleivosamente me trataram;

são como um ribeiro, como a torrente que transborda no vale,

16turvada com o gelo e com a neve

que nela se esconde,

17torrente que no tempo do calor seca,

emudece e desaparece do seu lugar.

18Desviam-se as caravanas dos seus caminhos,

sobem para lugares desolados e perecem.

19As caravanas de Temá procuram essa torrente,

os viajantes de Sabá por ela suspiram.

20Ficam envergonhados por terem confiado;

em chegando ali, confundem-se.

21Assim também vós outros sois nada para mim;

vedes os meus males e vos espantais.

22Acaso, disse eu: dai-me um presente?

Ou: oferecei-me um suborno da vossa fazenda?

23Ou: livrai-me do poder do opressor?

Ou: redimi-me das mãos dos tiranos?

24Ensinai-me, e eu me calarei;

dai-me a entender em que tenho errado.

25Oh! Como são persuasivas as palavras retas!

Mas que é o que repreende a vossa repreensão?

26Acaso, pensais em reprovar as minhas palavras,

ditas por um desesperado ao vento?

27Até sobre o órfão lançaríeis sorte

e especularíeis com o vosso amigo?

28Agora, pois, se sois servidos, olhai para mim

e vede que não minto na vossa cara.

29Tornai a julgar, vos peço, e não haja iniquidade;

tornai a julgar, e a justiça da minha causa triunfará.

30Há iniquidade na minha língua?

Não pode o meu paladar discernir coisas perniciosas?

7

Jó contende com Deus

71Não é penosa a vida do homem sobre a terra?

Não são os seus dias como os de um jornaleiro?

2Como o escravo que suspira pela sombra

e como o jornaleiro que espera pela sua paga,

3assim me deram por herança meses de desengano

e noites de aflição me proporcionaram.

4Ao deitar-me, digo: quando me levantarei?

Mas comprida é a noite,

e farto-me de me revolver na cama, até à alva.

5A minha carne está vestida de vermes e de crostas terrosas;

a minha pele se encrosta e de novo supura.

6Os meus dias são mais velozes do que a lançadeira do tecelão

e se findam sem esperança.

7Lembra-te de que a minha vida é um sopro;

os meus olhos não tornarão a ver o bem.

8Os olhos dos que agora me veem não me verão mais;

os teus olhos me procurarão, mas já não serei.

9Tal como a nuvem se desfaz e passa,

aquele que desce à sepultura jamais tornará a subir.

10Nunca mais tornará à sua casa,

nem o lugar onde habita o conhecerá jamais.

11Por isso, não reprimirei a boca,

falarei na angústia do meu espírito,

queixar-me-ei na amargura da minha alma.

12Acaso, sou eu o mar ou algum monstro marinho,

para que me ponhas guarda?

13Dizendo eu: consolar-me-á o meu leito,

a minha cama aliviará a minha queixa,

14então, me espantas com sonhos

e com visões me assombras;

15pelo que a minha alma escolheria, antes, ser estrangulada;

antes, a morte do que esta tortura.

16Estou farto da minha vida;

não quero viver para sempre.

Deixa-me, pois, porque os meus dias são um sopro.

17Que é o homem,

7.17
Sl 8.4
144.3
para que tanto o estimes,

e ponhas nele o teu cuidado,

18e cada manhã o visites,

e cada momento o ponhas à prova?

19Até quando não apartarás de mim a tua vista?

Até quando não me darás tempo de engolir a minha saliva?

20Se pequei, que mal te fiz a ti, ó Espreitador dos homens?

Por que fizeste de mim um alvo para ti,

para que a mim mesmo me seja pesado?

21Por que não perdoas a minha transgressão

e não tiras a minha iniquidade?

Pois agora me deitarei no pó;

e, se me buscas, já não serei.

8

Bildade afirma a justiça de Deus

81Então, respondeu Bildade, o suíta:

2Até quando falarás tais coisas?

E até quando as palavras da tua boca serão qual vento impetuoso?

3Perverteria Deus o direito

ou perverteria o Todo-Poderoso a justiça?

4Se teus filhos pecaram contra ele,

também ele os lançou no poder da sua transgressão.

5Mas, se tu buscares a Deus

e ao Todo-Poderoso pedires misericórdia,

6se fores puro e reto,

ele, sem demora, despertará em teu favor

e restaurará a justiça da tua morada.

7O teu primeiro estado, na verdade, terá sido pequeno,

mas o teu último crescerá sobremaneira.

8Pois, eu te peço, pergunta agora a gerações passadas

e atenta para a experiência de seus pais;

9porque nós somos de ontem e nada sabemos;

porquanto nossos dias sobre a terra são como a sombra.

10Porventura, não te ensinarão os pais, não haverão de falar-te

e do próprio entendimento não proferirão estas palavras:

11Pode o papiro crescer sem lodo?

Ou viça o junco sem água?

12Estando ainda na sua verdura e ainda não colhidos,

todavia, antes de qualquer outra erva se secam.

13São assim as veredas de todos quantos se esquecem de Deus;

e a esperança do ímpio perecerá.

14A sua firmeza será frustrada,

e a sua confiança é teia de aranha.

15Encostar-se-á à sua casa, e ela não se manterá,

agarrar-se-á a ela, e ela não ficará em pé.

16Ele é viçoso perante o sol,

e os seus renovos irrompem no seu jardim;

17as suas raízes se entrelaçam num montão de pedras

e penetram até às muralhas.

18Mas, se Deus o arranca do seu lugar,

então, este o negará, dizendo: Nunca te vi.

19Eis em que deu a sua vida!

E do pó brotarão outros.

20Eis que Deus não rejeita ao íntegro,

nem toma pela mão os malfeitores.

21Ele te encherá a boca de riso

e os teus lábios, de júbilo.

22Teus aborrecedores se vestirão de ignomínia,

e a tenda dos perversos não subsistirá.