Almeida Revista e Atualizada (1993) (ARA)
5

Elifaz exorta a Jó a que busque a Deus

51Chama agora! Haverá alguém que te atenda?

E para qual dos santos anjos te virarás?

2Porque a ira do louco o destrói,

e o zelo do tolo o mata.

3Bem vi eu o louco lançar raízes;

mas logo declarei maldita a sua habitação.

4Seus filhos estão longe do socorro,

são espezinhados às portas, e não há quem os livre.

5A sua messe, o faminto a devora

e até do meio dos espinhos a arrebata;

e o intrigante abocanha os seus bens.

6Porque a aflição não vem do pó,

e não é da terra que brota o enfado.

7Mas o homem nasce para o enfado,

como as faíscas das brasas voam para cima.

8Quanto a mim, eu buscaria a Deus

e a ele entregaria a minha causa;

9ele faz coisas grandes e inescrutáveis

e maravilhas que não se podem contar;

10faz chover sobre a terra

e envia águas sobre os campos,

11para pôr os abatidos num lugar alto

e para que os enlutados se alegrem da maior ventura.

12Ele frustra as maquinações dos astutos,

para que as suas mãos não possam realizar seus projetos.

13Ele apanha os sábios na sua própria astúcia;

5.13
1Co 3.19

e o conselho dos que tramam se precipita.

14Eles de dia encontram as trevas;

ao meio-dia andam como de noite, às apalpadelas.

15Porém Deus salva da espada que lhes sai da boca,

salva o necessitado da mão do poderoso.

16Assim, há esperança para o pobre,

e a iniquidade tapa a sua própria boca.

17Bem-aventurado é o homem a quem Deus disciplina;

não desprezes, pois, a disciplina do Todo-Poderoso.

5.17
Pv 3.11-12
Hb 12.5-6

18Porque ele faz a ferida e ele mesmo a ata;

ele fere, e as suas mãos curam.

19De seis angústias te livrará,

e na sétima o mal te não tocará.

20Na fome te livrará da morte;

na guerra, do poder da espada.

21Do açoite da língua estarás abrigado

e, quando vier a assolação, não a temerás.

22Da assolação e da fome te rirás

e das feras da terra não terás medo.

23Porque até com as pedras do campo terás a tua aliança,

e os animais da terra viverão em paz contigo.

24Saberás que a paz é a tua tenda,

percorrerás as tuas possessões, e nada te faltará.

25Saberás também que se multiplicará a tua descendência,

e a tua posteridade, como a erva da terra.

26Em robusta velhice entrarás para a sepultura,

como se recolhe o feixe de trigo a seu tempo.

27Eis que isto já o havemos inquirido, e assim é;

ouve-o e medita nisso para teu bem.

6

Jó justifica as suas queixas

61Então, Jó respondeu:

2Oh! Se a minha queixa, de fato, se pesasse,

e contra ela, numa balança, se pusesse a minha miséria,

3esta, na verdade, pesaria mais que a areia dos mares;

por isso é que as minhas palavras foram precipitadas.

4Porque as flechas do Todo-Poderoso estão em mim cravadas,

e o meu espírito sorve o veneno delas;

os terrores de Deus se arregimentam contra mim.

5Zurrará o jumento montês junto à relva?

Ou mugirá o boi junto à sua forragem?

6Comer-se-á sem sal o que é insípido?

Ou haverá sabor na clara do ovo?

7Aquilo que a minha alma recusava tocar,

isso é agora a minha comida repugnante.

8Quem dera que se cumprisse o meu pedido,

e que Deus me concedesse o que anelo!

9Que fosse do agrado de Deus esmagar-me,

que soltasse a sua mão e acabasse comigo!

10Isto ainda seria a minha consolação,

e saltaria de contente na minha dor, que ele não poupa;

porque não tenho negado as palavras do Santo.

11Por que esperar, se já não tenho forças?

Por que prolongar a vida, se o meu fim é certo?

12Acaso, a minha força é a força da pedra?

Ou é de bronze a minha carne?

13Não! Jamais haverá socorro para mim;

foram afastados de mim os meus recursos.

14Ao aflito deve o amigo mostrar compaixão,

a menos que tenha abandonado o temor do Todo-Poderoso.

15Meus irmãos aleivosamente me trataram;

são como um ribeiro, como a torrente que transborda no vale,

16turvada com o gelo e com a neve

que nela se esconde,

17torrente que no tempo do calor seca,

emudece e desaparece do seu lugar.

18Desviam-se as caravanas dos seus caminhos,

sobem para lugares desolados e perecem.

19As caravanas de Temá procuram essa torrente,

os viajantes de Sabá por ela suspiram.

20Ficam envergonhados por terem confiado;

em chegando ali, confundem-se.

21Assim também vós outros sois nada para mim;

vedes os meus males e vos espantais.

22Acaso, disse eu: dai-me um presente?

Ou: oferecei-me um suborno da vossa fazenda?

23Ou: livrai-me do poder do opressor?

Ou: redimi-me das mãos dos tiranos?

24Ensinai-me, e eu me calarei;

dai-me a entender em que tenho errado.

25Oh! Como são persuasivas as palavras retas!

Mas que é o que repreende a vossa repreensão?

26Acaso, pensais em reprovar as minhas palavras,

ditas por um desesperado ao vento?

27Até sobre o órfão lançaríeis sorte

e especularíeis com o vosso amigo?

28Agora, pois, se sois servidos, olhai para mim

e vede que não minto na vossa cara.

29Tornai a julgar, vos peço, e não haja iniquidade;

tornai a julgar, e a justiça da minha causa triunfará.

30Há iniquidade na minha língua?

Não pode o meu paladar discernir coisas perniciosas?

7

Jó contende com Deus

71Não é penosa a vida do homem sobre a terra?

Não são os seus dias como os de um jornaleiro?

2Como o escravo que suspira pela sombra

e como o jornaleiro que espera pela sua paga,

3assim me deram por herança meses de desengano

e noites de aflição me proporcionaram.

4Ao deitar-me, digo: quando me levantarei?

Mas comprida é a noite,

e farto-me de me revolver na cama, até à alva.

5A minha carne está vestida de vermes e de crostas terrosas;

a minha pele se encrosta e de novo supura.

6Os meus dias são mais velozes do que a lançadeira do tecelão

e se findam sem esperança.

7Lembra-te de que a minha vida é um sopro;

os meus olhos não tornarão a ver o bem.

8Os olhos dos que agora me veem não me verão mais;

os teus olhos me procurarão, mas já não serei.

9Tal como a nuvem se desfaz e passa,

aquele que desce à sepultura jamais tornará a subir.

10Nunca mais tornará à sua casa,

nem o lugar onde habita o conhecerá jamais.

11Por isso, não reprimirei a boca,

falarei na angústia do meu espírito,

queixar-me-ei na amargura da minha alma.

12Acaso, sou eu o mar ou algum monstro marinho,

para que me ponhas guarda?

13Dizendo eu: consolar-me-á o meu leito,

a minha cama aliviará a minha queixa,

14então, me espantas com sonhos

e com visões me assombras;

15pelo que a minha alma escolheria, antes, ser estrangulada;

antes, a morte do que esta tortura.

16Estou farto da minha vida;

não quero viver para sempre.

Deixa-me, pois, porque os meus dias são um sopro.

17Que é o homem,

7.17
Sl 8.4
144.3
para que tanto o estimes,

e ponhas nele o teu cuidado,

18e cada manhã o visites,

e cada momento o ponhas à prova?

19Até quando não apartarás de mim a tua vista?

Até quando não me darás tempo de engolir a minha saliva?

20Se pequei, que mal te fiz a ti, ó Espreitador dos homens?

Por que fizeste de mim um alvo para ti,

para que a mim mesmo me seja pesado?

21Por que não perdoas a minha transgressão

e não tiras a minha iniquidade?

Pois agora me deitarei no pó;

e, se me buscas, já não serei.

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