Almeida Revista e Atualizada (1993) (ARA)
39

391Sabes tu o tempo em que as cabras monteses têm os filhos

ou cuidaste das corças quando dão suas crias?

2Podes contar os meses que cumprem?

Ou sabes o tempo do seu parto?

3Elas encurvam-se, para terem seus filhos,

e lançam de si as suas dores.

4Seus filhos se tornam robustos, crescem no campo aberto,

saem e nunca mais tornam para elas.

5Quem despediu livre o jumento selvagem,

e quem soltou as prisões ao asno veloz,

6ao qual dei o ermo por casa

e a terra salgada por moradas?

7Ri-se do tumulto da cidade,

não ouve os muitos gritos do arrieiro.

8Os montes são o lugar do seu pasto,

e anda à procura de tudo o que está verde.

9Acaso, quer o boi selvagem servir-te?

Ou passará ele a noite junto da tua manjedoura?

10Porventura, podes prendê-lo ao sulco com cordas?

Ou gradará ele os vales após ti?

11Confiarás nele, por ser grande a sua força,

ou deixarás a seu cuidado o teu trabalho?

12Fiarás dele que te traga para a casa o que semeaste

e o recolha na tua eira?

13O avestruz bate alegre as asas;

acaso, porém, tem asas e penas de bondade?

14Ele deixa os seus ovos na terra, e os aquenta no pó,

15e se esquece de que algum pé os pode esmagar

ou de que podem pisá-los os animais do campo.

16Trata com dureza os seus filhos, como se não fossem seus;

embora seja em vão o seu trabalho, ele está tranquilo,

17porque Deus lhe negou sabedoria

e não lhe deu entendimento;

18mas, quando de um salto se levanta para correr,

ri-se do cavalo e do cavaleiro.

19Ou dás tu força ao cavalo

ou revestirás o seu pescoço de crinas?

20Acaso, o fazes pular como ao gafanhoto?

Terrível é o fogoso respirar das suas ventas.

21Escarva no vale, folga na sua força

e sai ao encontro dos armados.

22Ri-se do temor e não se espanta;

e não torna atrás por causa da espada.

23Sobre ele chocalha a aljava,

flameja a lança e o dardo.

24De fúria e ira devora o caminho

e não se contém ao som da trombeta.

25Em cada sonido da trombeta, ele diz: Avante!

Cheira de longe a batalha,

o trovão dos príncipes e o alarido.

26Ou é pela tua inteligência que voa o falcão,

estendendo as asas para o Sul?

27Ou é pelo teu mandado que se remonta a águia

e faz alto o seu ninho?

28Habita no penhasco onde faz a sua morada,

sobre o cimo do penhasco, em lugar seguro.

29Dali, descobre a presa;

seus olhos a avistam de longe.

30Seus filhos chupam sangue;

onde há mortos, ela aí está.

40

401Disse mais o Senhor a Jó:

2Acaso, quem usa de censuras contenderá com o Todo-Poderoso?

Quem assim argui a Deus que responda.

A resposta humilde de Jó

3Então, Jó respondeu ao Senhor e disse:

4Sou indigno; que te responderia eu?

Ponho a mão na minha boca.

5Uma vez falei e não replicarei,

aliás, duas vezes, porém não prosseguirei.

As manifestações do poder de Deus

6Então, o Senhor, do meio de um redemoinho, respondeu a Jó:

7Cinge agora os lombos como homem;

eu te perguntarei, e tu me responderás.

8Acaso, anularás tu, de fato, o meu juízo?

Ou me condenarás, para te justificares?

9Ou tens braço como Deus

ou podes trovejar com a voz como ele o faz?

10Orna-te, pois, de excelência e grandeza,

veste-te de majestade e de glória.

11Derrama as torrentes da tua ira

e atenta para todo soberbo e abate-o.

12Olha para todo soberbo e humilha-o,

calca aos pés os perversos no seu lugar.

13Cobre-os juntamente no pó,

encerra-lhes o rosto no sepulcro.

14Então, também eu confessarei a teu respeito

que a tua mão direita te dá vitória.

15Contempla agora o hipopótamo, que eu criei contigo,

que come a erva como o boi.

16Sua força está nos seus lombos,

e o seu poder, nos músculos do seu ventre.

17Endurece a sua cauda como cedro;

os tendões das suas coxas estão entretecidos.

18Os seus ossos são como tubos de bronze,

o seu arcabouço, como barras de ferro.

19Ele é obra-prima dos feitos de Deus;

quem o fez o proveu de espada.

20Em verdade, os montes lhe produzem pasto,

onde todos os animais do campo folgam.

21Deita-se debaixo dos lotos,

no esconderijo dos canaviais e da lama.

22Os lotos o cobrem com sua sombra;

os salgueiros do ribeiro o cercam.

23Se um rio transborda, ele não se apressa;

fica tranquilo ainda que o Jordão se levante até à sua boca.

24Acaso, pode alguém apanhá-lo quando ele está olhando?

Ou lhe meter um laço pelo nariz?

41

411Podes tu, com anzol, apanhar o crocodilo

41.1
Sl 74.14
104.26
Is 27.1

ou lhe travar a língua com uma corda?

2Podes meter-lhe no nariz uma vara de junco?

Ou furar-lhe as bochechas com um gancho?

3Acaso, te fará muitas súplicas?

Ou te falará palavras brandas?

4Fará ele acordo contigo?

Ou tomá-lo-ás por servo para sempre?

5Brincarás com ele, como se fora um passarinho?

Ou tê-lo-ás preso à correia para as tuas meninas?

6Acaso, os teus sócios negociam com ele?

Ou o repartirão entre os mercadores?

7Encher-lhe-ás a pele de arpões?

Ou a cabeça, de farpas?

8Põe a mão sobre ele,

lembra-te da peleja e nunca mais o intentarás.

9Eis que a gente se engana em sua esperança;

acaso, não será o homem derribado só em vê-lo?

10Ninguém há tão ousado, que se atreva a despertá-lo.

Quem é, pois, aquele que pode erguer-se diante de mim?

11Quem primeiro me deu a mim,

41.11
Rm 11.35
para que eu haja de retribuir-lhe?

Pois o que está debaixo de todos os céus é meu.

12Não me calarei a respeito dos seus membros,

nem da sua grande força, nem da graça da sua compostura.

13Quem lhe abrirá as vestes do seu dorso?

Ou lhe penetrará a couraça dobrada?

14Quem abriria as portas do seu rosto?

Pois em roda dos seus dentes está o terror.

15As fileiras de suas escamas são o seu orgulho,

cada uma bem-encostada como por um selo que as ajusta.

16A tal ponto uma se chega à outra,

que entre elas não entra nem o ar.

17Umas às outras se ligam,

aderem entre si e não se podem separar.

18Cada um dos seus espirros faz resplandecer luz,

e os seus olhos são como as pestanas da alva.

19Da sua boca saem tochas;

faíscas de fogo saltam dela.

20Das suas narinas procede fumaça,

como de uma panela fervente ou de juncos que ardem.

21O seu hálito faz incender os carvões;

e da sua boca sai chama.

22No seu pescoço reside a força;

e diante dele salta o desespero.

23Suas partes carnudas são bem-pegadas entre si;

todas fundidas nele e imóveis.

24O seu coração é firme como uma pedra,

firme como a mó de baixo.

25Levantando-se ele, tremem os valentes;

quando irrompe, ficam como que fora de si.

26Se o golpe de espada o alcança, de nada vale,

nem de lança, de dardo ou de flecha.

27Para ele, o ferro é palha,

e o cobre, pau podre.

28A seta o não faz fugir;

as pedras das fundas se lhe tornam em restolho.

29Os porretes atirados são para ele como palha,

e ri-se do brandir da lança.

30Debaixo do ventre, há escamas pontiagudas;

arrasta-se sobre a lama, como um instrumento de debulhar.

31As profundezas faz ferver, como uma panela;

torna o mar como caldeira de unguento.

32Após si, deixa um sulco luminoso;

o abismo parece ter-se encanecido.

33Na terra, não tem ele igual,

pois foi feito para nunca ter medo.

34Ele olha com desprezo tudo o que é alto;

é rei sobre todos os animais orgulhosos.