Almeida Revista e Atualizada (1993) (ARA)
33

Eliú repreende a Jó

331Ouve, pois, Jó, as minhas razões

e dá ouvidos a todas as minhas palavras.

2Passo agora a falar,

em minha boca fala a língua.

3As minhas razões provam a sinceridade do meu coração,

e os meus lábios proferem o puro saber.

4O Espírito de Deus me fez,

e o sopro do Todo-Poderoso me dá vida.

5Se podes, contesta-me,

dispõe bem as tuas razões perante mim e apresenta-te.

6Eis que diante de Deus sou como tu és;

também eu sou formado do barro.

7Por isso, não te inspiro terror,

nem será pesada sobre ti a minha mão.

8Na verdade, falaste perante mim,

e eu ouvi o som das tuas palavras:

9Estou limpo, sem transgressão;

puro sou e não tenho iniquidade.

10Eis que Deus procura pretextos contra mim

e me considera como seu inimigo.

11Põe no tronco os meus pés

e observa todas as minhas veredas.

12Nisto não tens razão, eu te respondo;

porque Deus é maior do que o homem.

13Por que contendes com ele,

afirmando que não te dá contas de nenhum dos seus atos?

14Pelo contrário, Deus fala de um modo, sim, de dois modos,

mas o homem não atenta para isso.

15Em sonho ou em visão de noite,

quando cai sono profundo sobre os homens,

quando adormecem na cama,

16então, lhes abre os ouvidos

e lhes sela a sua instrução,

17para apartar o homem do seu desígnio

e livrá-lo da soberba;

18para guardar a sua alma da cova

e a sua vida de passar pela espada.

19Também no seu leito é castigado com dores,

com incessante contenda nos seus ossos;

20de modo que a sua vida abomina o pão,

e a sua alma, a comida apetecível.

21A sua carne, que se via, agora desaparece,

e os seus ossos, que não se viam, agora se descobrem.

22A sua alma se vai chegando à cova,

e a sua vida, aos portadores da morte.

23Se com ele houver um anjo intercessor, um dos milhares,

para declarar ao homem o que lhe convém,

24então, Deus terá misericórdia dele e dirá ao anjo:

Redime-o, para que não desça à cova;

achei resgate.

25Sua carne se robustecerá com o vigor da sua infância,

e ele tornará aos dias da sua juventude.

26Deveras orará a Deus, que lhe será propício;

ele, com júbilo, verá a face de Deus,

e este lhe restituirá a sua justiça.

27Cantará diante dos homens e dirá:

Pequei, perverti o direito

e não fui punido segundo merecia.

28Deus redimiu a minha alma de ir para a cova;

e a minha vida verá a luz.

29Eis que tudo isto é obra de Deus,

duas e três vezes para com o homem,

30para reconduzir da cova a sua alma

e o alumiar com a luz dos viventes.

31Escuta, pois, ó Jó, ouve-me;

cala-te, e eu falarei.

32Se tens alguma coisa que dizer, responde-me;

fala, porque desejo justificar-te.

33Se não, escuta-me;

cala-te, e ensinar-te-ei a sabedoria.

34

Eliú justifica a Deus

341Disse mais Eliú:

2Ouvi, ó sábios, as minhas razões;

vós, instruídos, inclinai os ouvidos para mim.

3Porque o ouvido prova as palavras,

como o paladar, a comida.

4O que é direito escolhamos para nós;

conheçamos entre nós o que é bom.

5Porque Jó disse: Sou justo,

e Deus tirou o meu direito.

6Apesar do meu direito, sou tido por mentiroso;

a minha ferida é incurável, sem que haja pecado em mim.

7Que homem há como Jó,

que bebe a zombaria como água?

8E anda em companhia dos que praticam a iniquidade

e caminha com homens perversos?

9Pois disse: De nada aproveita ao homem

o comprazer-se em Deus.

10Pelo que vós, homens sensatos, escutai-me:

longe de Deus o praticar ele a perversidade,

e do Todo-Poderoso o cometer injustiça.

11Pois retribui ao homem segundo as suas obras

34.11
Sl 62.12

e faz que a cada um toque segundo o seu caminho.

12Na verdade, Deus não procede maliciosamente;

nem o Todo-Poderoso perverte o juízo.

13Quem lhe entregou o governo da terra?

Quem lhe confiou o universo?

14Se Deus pensasse apenas em si mesmo

e para si recolhesse o seu espírito e o seu sopro,

15toda a carne juntamente expiraria,

e o homem voltaria para o pó.

16Se, pois, há em ti entendimento, ouve isto;

inclina os ouvidos ao som das minhas palavras.

17Acaso, governaria o que aborrecesse o direito?

E quererás tu condenar aquele que é justo e poderoso?

18Dir-se-á a um rei: Oh! Vil?

Ou aos príncipes: Oh! Perversos?

19Quanto menos àquele que não faz acepção das pessoas de príncipes,

nem estima ao rico mais do que ao pobre;

porque todos são obra de suas mãos.

20De repente, morrem;

à meia-noite, os povos são perturbados e passam,

e os poderosos são tomados por força invisível.

21Os olhos de Deus estão sobre os caminhos do homem

e veem todos os seus passos.

22Não há trevas nem sombra assaz profunda,

onde se escondam os que praticam a iniquidade.

23Pois Deus não precisa observar por muito tempo o homem

antes de o fazer ir a juízo perante ele.

24Quebranta os fortes, sem os inquirir,

e põe outros em seu lugar.

25Ele conhece, pois, as suas obras;

de noite, os transtorna, e ficam moídos.

26Ele os fere como a perversos,

à vista de todos;

27porque dele se desviaram,

e não quiseram compreender nenhum de seus caminhos,

28e, assim, fizeram que o clamor do pobre subisse até Deus,

e este ouviu o lamento dos aflitos.

29Se ele aquietar-se, quem o condenará?

Se encobrir o rosto, quem o poderá contemplar,

seja um povo, seja um homem?

30Para que o ímpio não reine,

e não haja quem iluda o povo.

31Se alguém diz a Deus:

Sofri, não pecarei mais;

32o que não vejo, ensina-mo tu;

se cometi injustiça, jamais a tornarei a praticar,

33acaso, deve ele recompensar-te segundo tu queres ou não queres?

Acaso, deve ele dizer-te: Escolhe tu, e não eu;

declara o que sabes, fala?

34Os homens sensatos dir-me-ão,

dir-me-á o sábio que me ouve:

35Jó falou sem conhecimento,

e nas suas palavras não há sabedoria.

36Tomara fosse Jó provado até ao fim,

porque ele respondeu como homem de iniquidade.

37Pois ao seu pecado acrescenta rebelião,

entre nós, com desprezo, bate ele palmas

e multiplica as suas palavras contra Deus.

35

Deus não ouve os aflitos, porque estes não têm fé

351Disse mais Eliú:

2Achas que é justo dizeres:

Maior é a minha justiça do que a de Deus?

3Porque dizes: De que me serviria ela?

Que proveito tiraria dela mais do que do meu pecado?

4Dar-te-ei resposta, a ti

e aos teus amigos contigo.

5Atenta para os céus e vê;

contempla as altas nuvens acima de ti.

6Se pecas, que mal lhe causas tu?

Se as tuas transgressões se multiplicam, que lhe fazes?

7Se és justo, que lhe dás

ou que recebe ele da tua mão?

8A tua impiedade só pode fazer o mal ao homem como tu mesmo;

e a tua justiça, dar proveito ao filho do homem.

35.6-8
Jó 22.2-3

9Por causa das muitas opressões, os homens clamam,

clamam por socorro contra o braço dos poderosos.

10Mas ninguém diz: Onde está Deus, que me fez,

que inspira canções de louvor durante a noite,

11que nos ensina mais do que aos animais da terra

e nos faz mais sábios do que as aves dos céus?

12Clamam, porém ele não responde,

por causa da arrogância dos maus.

13Só gritos vazios Deus não ouvirá,

nem atentará para eles o Todo-Poderoso.

14Jó, ainda que dizes que não o vês,

a tua causa está diante dele;

por isso, espera nele.

15Mas agora, porque Deus na sua ira não está punindo,

nem fazendo muito caso das transgressões,

16abres a tua boca, com palavras vãs,

amontoando frases de ignorante.