Almeida Revista e Atualizada (1993) (ARA)
31

Jó declara sua integridade

311Fiz aliança com meus olhos;

como, pois, os fixaria eu numa donzela?

2Que porção, pois, teria eu do Deus lá de cima

e que herança, do Todo-Poderoso desde as alturas?

3Acaso, não é a perdição para o iníquo,

e o infortúnio, para os que praticam a maldade?

4Ou não vê Deus os meus caminhos

e não conta todos os meus passos?

5Se andei com falsidade,

e se o meu pé se apressou para o engano

6(pese-me Deus em balanças fiéis

e conhecerá a minha integridade);

7se os meus passos se desviaram do caminho,

e se o meu coração segue os meus olhos,

e se às minhas mãos se apegou qualquer mancha,

8então, semeie eu, e outro coma,

e sejam arrancados os renovos do meu campo.

9Se o meu coração se deixou seduzir por causa de mulher,

se andei à espreita à porta do meu próximo,

10então, moa minha mulher para outro,

e outros se encurvem sobre ela.

11Pois seria isso um crime hediondo,

delito à punição de juízes;

12pois seria fogo que consome até à destruição

e desarraigaria toda a minha renda.

13Se desprezei o direito do meu servo ou da minha serva,

quando eles contendiam comigo,

14então, que faria eu quando Deus se levantasse?

E, inquirindo ele a causa, que lhe responderia eu?

15Aquele que me formou no ventre materno

não os fez também a eles?

Ou não é o mesmo que nos formou na madre?

16Se retive o que os pobres desejavam

ou fiz desfalecer os olhos da viúva;

17ou, se sozinho comi o meu bocado,

e o órfão dele não participou

18(Porque desde a minha mocidade cresceu comigo como se eu lhe fora o pai,

e desde o ventre da minha mãe fui o guia da viúva.);

19se a alguém vi perecer por falta de roupa

e ao necessitado, por não ter coberta;

20se os seus lombos não me abençoaram,

se ele não se aquentava com a lã dos meus cordeiros;

21se eu levantei a mão contra o órfão,

por me ver apoiado pelos juízes da porta,

22então, caia a omoplata do meu ombro,

e seja arrancado o meu braço da articulação.

23Porque o castigo de Deus seria para mim um assombro,

e eu não poderia enfrentar a sua majestade.

24Se no ouro pus a minha esperança

ou disse ao ouro fino: em ti confio;

25se me alegrei por serem grandes os meus bens

e por ter a minha mão alcançado muito;

26se olhei para o sol, quando resplandecia,

ou para a lua, que caminhava esplendente,

27e o meu coração se deixou enganar em oculto,

e beijos lhes atirei com a mão,

28também isto seria delito à punição de juízes;

pois assim negaria eu ao Deus lá de cima.

29Se me alegrei da desgraça do que me tem ódio

e se exultei quando o mal o atingiu

30(Também não deixei pecar a minha boca,

pedindo com imprecações a sua morte.);

31se a gente da minha tenda não disse:

Ah! Quem haverá aí que não se saciou de carne provida por ele

32(O estrangeiro não pernoitava na rua;

as minhas portas abria ao viandante.)!

33Se, como Adão, encobri as minhas transgressões,

ocultando o meu delito no meu seio;

34porque eu temia a grande multidão,

e o desprezo das famílias me apavorava,

de sorte que me calei e não saí da porta.

35Tomara eu tivesse quem me ouvisse!

Eis aqui a minha defesa assinada!

Que o Todo-Poderoso me responda!

Que o meu adversário escreva a sua acusação!

36Por certo que a levaria sobre o meu ombro,

atá-la-ia sobre mim como coroa;

37mostrar-lhe-ia o número dos meus passos;

como príncipe me chegaria a ele.

38Se a minha terra clamar contra mim,

e se os seus sulcos juntamente chorarem;

39se comi os seus frutos sem tê-la pago devidamente

e causei a morte aos seus donos,

40por trigo me produza cardos,

e por cevada, joio.

Fim das palavras de Jó.
32

Eliú irado contra Jó e seus três amigos

321Cessaram aqueles três homens de responder a Jó no tocante ao se ter ele por justo aos seus próprios olhos. 2Então, se acendeu a ira de Eliú, filho de Baraquel, o buzita, da família de Rão; acendeu-se a sua ira contra Jó, porque este pretendia ser mais justo do que Deus. 3Também a sua ira se acendeu contra os três amigos, porque, mesmo não achando eles o que responder, condenavam a Jó. 4Eliú, porém, esperara para falar a Jó, pois eram de mais idade do que ele. 5Vendo Eliú que já não havia resposta na boca daqueles três homens, a sua ira se acendeu.

Eliú vinga o seu direito de responder a Jó

6Disse Eliú, filho de Baraquel, o buzita:

Eu sou de menos idade,

e vós sois idosos;

arreceei-me e temi

de vos declarar a minha opinião.

7Dizia eu: Falem os dias,

e a multidão dos anos ensine a sabedoria.

8Na verdade, há um espírito no homem,

e o sopro do Todo-Poderoso o faz sábio.

9Os de mais idade não é que são os sábios,

nem os velhos, os que entendem o que é reto.

10Pelo que digo: dai-me ouvidos,

e também eu declararei a minha opinião.

11Eis que aguardei as vossas palavras

e dei ouvidos às vossas considerações,

enquanto, quem sabe, buscáveis o que dizer.

12Atentando, pois, para vós outros,

eis que nenhum de vós houve que refutasse a Jó,

nem que respondesse às suas razões.

13Não vos desculpeis, pois, dizendo:

Achamos sabedoria nele;

Deus pode vencê-lo, e não o homem.

14Ora, ele não me dirigiu palavra alguma,

nem eu lhe retorquirei com as vossas palavras.

15Jó, os três estão pasmados, já não respondem,

faltam-lhes as palavras.

16Acaso, devo esperar, pois não falam,

estão parados e nada mais respondem?

17Também eu concorrerei com a minha resposta;

declararei a minha opinião.

18Porque tenho muito que falar,

e o meu espírito me constrange.

19Eis que dentro de mim sou como o vinho, sem respiradouro,

como odres novos, prestes a arrebentar-se.

20Permiti, pois, que eu fale para desafogar-me;

abrirei os lábios e responderei.

21Não farei acepção de pessoas,

nem usarei de lisonjas com o homem.

22Porque não sei lisonjear;

em caso contrário, em breve me levaria o meu Criador.

33

Eliú repreende a Jó

331Ouve, pois, Jó, as minhas razões

e dá ouvidos a todas as minhas palavras.

2Passo agora a falar,

em minha boca fala a língua.

3As minhas razões provam a sinceridade do meu coração,

e os meus lábios proferem o puro saber.

4O Espírito de Deus me fez,

e o sopro do Todo-Poderoso me dá vida.

5Se podes, contesta-me,

dispõe bem as tuas razões perante mim e apresenta-te.

6Eis que diante de Deus sou como tu és;

também eu sou formado do barro.

7Por isso, não te inspiro terror,

nem será pesada sobre ti a minha mão.

8Na verdade, falaste perante mim,

e eu ouvi o som das tuas palavras:

9Estou limpo, sem transgressão;

puro sou e não tenho iniquidade.

10Eis que Deus procura pretextos contra mim

e me considera como seu inimigo.

11Põe no tronco os meus pés

e observa todas as minhas veredas.

12Nisto não tens razão, eu te respondo;

porque Deus é maior do que o homem.

13Por que contendes com ele,

afirmando que não te dá contas de nenhum dos seus atos?

14Pelo contrário, Deus fala de um modo, sim, de dois modos,

mas o homem não atenta para isso.

15Em sonho ou em visão de noite,

quando cai sono profundo sobre os homens,

quando adormecem na cama,

16então, lhes abre os ouvidos

e lhes sela a sua instrução,

17para apartar o homem do seu desígnio

e livrá-lo da soberba;

18para guardar a sua alma da cova

e a sua vida de passar pela espada.

19Também no seu leito é castigado com dores,

com incessante contenda nos seus ossos;

20de modo que a sua vida abomina o pão,

e a sua alma, a comida apetecível.

21A sua carne, que se via, agora desaparece,

e os seus ossos, que não se viam, agora se descobrem.

22A sua alma se vai chegando à cova,

e a sua vida, aos portadores da morte.

23Se com ele houver um anjo intercessor, um dos milhares,

para declarar ao homem o que lhe convém,

24então, Deus terá misericórdia dele e dirá ao anjo:

Redime-o, para que não desça à cova;

achei resgate.

25Sua carne se robustecerá com o vigor da sua infância,

e ele tornará aos dias da sua juventude.

26Deveras orará a Deus, que lhe será propício;

ele, com júbilo, verá a face de Deus,

e este lhe restituirá a sua justiça.

27Cantará diante dos homens e dirá:

Pequei, perverti o direito

e não fui punido segundo merecia.

28Deus redimiu a minha alma de ir para a cova;

e a minha vida verá a luz.

29Eis que tudo isto é obra de Deus,

duas e três vezes para com o homem,

30para reconduzir da cova a sua alma

e o alumiar com a luz dos viventes.

31Escuta, pois, ó Jó, ouve-me;

cala-te, e eu falarei.

32Se tens alguma coisa que dizer, responde-me;

fala, porque desejo justificar-te.

33Se não, escuta-me;

cala-te, e ensinar-te-ei a sabedoria.