Almeida Revista e Atualizada (1993) (ARA)
2

21Num dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, veio também Satanás entre eles apresentar-se perante o Senhor. 2Então, o Senhor disse a Satanás: Donde vens? Respondeu Satanás ao Senhor e disse: De rodear a terra e passear por ela. 3Perguntou o Senhor a Satanás: Observaste o meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal. Ele conserva a sua integridade, embora me incitasses contra ele, para o consumir sem causa. 4Então, Satanás respondeu ao Senhor: Pele por pele, e tudo quanto o homem tem dará pela sua vida. 5Estende, porém, a mão, toca-lhe nos ossos e na carne e verás se não blasfema contra ti na tua face. 6Disse o Senhor a Satanás: Eis que ele está em teu poder; mas poupa-lhe a vida.

7Então, saiu Satanás da presença do Senhor e feriu a Jó de tumores malignos, desde a planta do pé até ao alto da cabeça. 8Jó, sentado em cinza, tomou um caco para com ele raspar-se. 9Então, sua mulher lhe disse: Ainda conservas a tua integridade? Amaldiçoa a Deus e morre. 10Mas ele lhe respondeu: Falas como qualquer doida; temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal? Em tudo isto não pecou Jó com os seus lábios.

11Ouvindo, pois, três amigos de Jó todo este mal que lhe sobreviera, chegaram, cada um do seu lugar: Elifaz, o temanita, Bildade, o suíta, e Zofar, o naamatita; e combinaram ir juntamente condoer-se dele e consolá-lo. 12Levantando eles de longe os olhos e não o reconhecendo, ergueram a voz e choraram; e cada um, rasgando o seu manto, lançava pó ao ar sobre a cabeça. 13Sentaram-se com ele na terra, sete dias e sete noites; e nenhum lhe dizia palavra alguma, pois viam que a dor era muito grande.

3

Jó amaldiçoa o seu nascimento

31Depois disto, passou Jó a falar e amaldiçoou o seu dia natalício. 2Disse Jó:

3Pereça o dia em que nasci

e a noite em que se disse:

Foi concebido um homem!

4Converta-se aquele dia em trevas;

e Deus, lá de cima, não tenha cuidado dele,

nem resplandeça sobre ele a luz.

5Reclamem-no as trevas e a sombra de morte;

habitem sobre ele nuvens;

espante-o tudo o que pode enegrecer o dia.

6Aquela noite, que dela se apoderem densas trevas;

não se regozije ela entre os dias do ano,

não entre na conta dos meses.

7Seja estéril aquela noite,

e dela sejam banidos os sons de júbilo.

8Amaldiçoem-na aqueles que sabem amaldiçoar o dia

e sabem excitar o monstro marinho.

9Escureçam-se as estrelas do crepúsculo matutino dessa noite;

que ela espere a luz, e a luz não venha;

que não veja as pálpebras dos olhos da alva,

10pois não fechou as portas do ventre de minha mãe,

nem escondeu dos meus olhos o sofrimento.

11Por que não morri eu na madre?

Por que não expirei ao sair dela?

12Por que houve regaço que me acolhesse?

E por que peitos, para que eu mamasse?

13Porque já agora repousaria tranquilo;

dormiria, e, então, haveria para mim descanso,

14com os reis e conselheiros da terra

que para si edificaram mausoléus;

15ou com os príncipes que tinham ouro

e encheram de prata as suas casas;

16ou, como aborto oculto, eu não existiria,

como crianças que nunca viram a luz.

17Ali, os maus cessam de perturbar,

e, ali, repousam os cansados.

18Ali, os presos juntamente repousam

e não ouvem a voz do feitor.

19Ali, está tanto o pequeno como o grande

e o servo livre de seu senhor.

3.1-19
Jr 20.14-18

20Por que se concede luz ao miserável

e vida aos amargurados de ânimo,

21que esperam a morte, e ela não vem?

3.21
Ap 9.6

Eles cavam em procura dela mais do que tesouros ocultos.

22Eles se regozijariam por um túmulo

e exultariam se achassem a sepultura.

23Por que se concede luz ao homem, cujo caminho é oculto,

e a quem Deus cercou de todos os lados?

24Por que em vez do meu pão me vêm gemidos,

e os meus lamentos se derramam como água?

25Aquilo que temo me sobrevém,

e o que receio me acontece.

26Não tenho descanso, nem sossego, nem repouso,

e já me vem grande perturbação.

4

Elifaz repreende a Jó

41Então, respondeu Elifaz, o temanita, e disse:

2Se intentar alguém falar-te, enfadar-te-ás?

Quem, todavia, poderá conter as palavras?

3Eis que tens ensinado a muitos

e tens fortalecido mãos fracas.

4As tuas palavras têm sustentado aos que tropeçavam,

e os joelhos vacilantes tens fortificado.

5Mas agora, em chegando a tua vez, tu te enfadas;

sendo tu atingido, te perturbas.

6Porventura, não é o teu temor de Deus aquilo em que confias,

e a tua esperança, a retidão dos teus caminhos?

7Lembra-te: acaso, já pereceu algum inocente?

E onde foram os retos destruídos?

8Segundo eu tenho visto, os que lavram a iniquidade

e semeiam o mal, isso mesmo eles segam.

9Com o hálito de Deus perecem;

e com o assopro da sua ira se consomem.

10Cessa o bramido do leão e a voz do leão feroz,

e os dentes dos leõezinhos se quebram.

11Perece o leão, porque não há presa,

e os filhos da leoa andam dispersos.

12Uma palavra se me disse em segredo;

e os meus ouvidos perceberam um sussurro dela.

13Entre pensamentos de visões noturnas,

quando profundo sono cai sobre os homens,

14sobrevieram-me o espanto e o tremor,

e todos os meus ossos estremeceram.

15Então, um espírito passou por diante de mim;

fez-me arrepiar os cabelos do meu corpo;

16parou ele, mas não lhe discerni a aparência;

um vulto estava diante dos meus olhos;

houve silêncio, e ouvi uma voz:

17Seria, porventura, o mortal justo diante de Deus?

Seria, acaso, o homem puro diante do seu Criador?

18Eis que Deus não confia nos seus servos

e aos seus anjos atribui imperfeições;

19quanto mais àqueles que habitam em casas de barro,

cujo fundamento está no pó,

e são esmagados como a traça!

20Nascem de manhã e à tarde são destruídos;

perecem para sempre, sem que disso se faça caso.

21Se se lhes corta o fio da vida,

morrem e não atingem a sabedoria.