Almeida Revista e Atualizada (1993) (ARA)
28

O homem apropria-se das riquezas da terra

281Na verdade, a prata tem suas minas,

e o ouro, que se refina, o seu lugar.

2O ferro tira-se da terra,

e da pedra se funde o cobre.

3Os homens põem termo à escuridão

e até aos últimos confins procuram as pedras

ocultas nas trevas e na densa escuridade.

4Abrem entrada para minas longe da habitação dos homens,

esquecidos dos transeuntes;

e, assim, longe deles, dependurados, oscilam de um lado para outro.

5Da terra procede o pão,

mas embaixo é revolvida como por fogo.

6Nas suas pedras se encontra safira,

e há pó que contém ouro.

7Essa vereda, a ave de rapina a ignora,

e jamais a viram os olhos do falcão.

8Nunca a pisaram feras majestosas,

nem o leãozinho passou por ela.

9Estende o homem a mão contra o rochedo

e revolve os montes desde as suas raízes.

10Abre canais nas pedras,

e os seus olhos veem tudo o que há de mais precioso.

11Tapa os veios de água, e nem uma gota sai deles,

e traz à luz o que estava escondido.

A verdadeira sabedoria é dom de Deus

12Mas onde se achará a sabedoria?

E onde está o lugar do entendimento?

13O homem não conhece o valor dela,

nem se acha ela na terra dos viventes.

14O abismo diz: Ela não está em mim;

e o mar diz: Não está comigo.

15Não se dá por ela ouro fino,

nem se pesa prata em câmbio dela.

16O seu valor não se pode avaliar pelo ouro de Ofir,

nem pelo precioso ônix, nem pela safira.

17O ouro não se iguala a ela, nem o cristal;

ela não se trocará por joia de ouro fino;

18ela faz esquecer o coral e o cristal;

a aquisição da sabedoria é melhor que a das pérolas.

19Não se lhe igualará o topázio da Etiópia,

nem se pode avaliar por ouro puro.

20Donde, pois, vem a sabedoria,

e onde está o lugar do entendimento?

21Está encoberta aos olhos de todo vivente

e oculta às aves do céu.

22O abismo e a morte dizem:

Ouvimos com os nossos ouvidos a sua fama.

23Deus lhe entende o caminho,

e ele é quem sabe o seu lugar.

24Porque ele perscruta até as extremidades da terra,

vê tudo o que há debaixo dos céus.

25Quando regulou o peso do vento

e fixou a medida das águas;

26quando determinou leis para a chuva

e caminho para o relâmpago dos trovões,

27então, viu ele a sabedoria e a manifestou;

estabeleceu-a e também a esquadrinhou.

28E disse ao homem:

Eis que o temor do Senhor é a sabedoria,

28.28
Sl 111.10
Pv 9.10

e o apartar-se do mal é o entendimento.

29

Jó lembra-se do seu primeiro estado feliz

291Prosseguiu Jó no seu discurso e disse:

2Ah! Quem me dera ser como fui nos meses passados,

como nos dias em que Deus me guardava!

3Quando fazia resplandecer a sua lâmpada sobre a minha cabeça,

quando eu, guiado por sua luz, caminhava pelas trevas;

4como fui nos dias do meu vigor,

quando a amizade de Deus estava sobre a minha tenda;

5quando o Todo-Poderoso ainda estava comigo,

e os meus filhos, em redor de mim;

6quando eu lavava os pés em leite,

e da rocha me corriam ribeiros de azeite.

7Quando eu saía para a porta da cidade,

e na praça me era dado sentar-me,

8os moços me viam e se retiravam;

os idosos se levantavam e se punham em pé;

9os príncipes reprimiam as suas palavras

e punham a mão sobre a boca;

10a voz dos nobres emudecia,

e a sua língua se apegava ao paladar.

11Ouvindo-me algum ouvido, esse me chamava feliz;

vendo-me algum olho, dava testemunho de mim;

12porque eu livrava os pobres que clamavam

e também o órfão que não tinha quem o socorresse.

13A bênção do que estava a perecer vinha sobre mim,

e eu fazia rejubilar-se o coração da viúva.

14Eu me cobria de justiça, e esta me servia de veste;

como manto e turbante era a minha equidade.

15Eu me fazia de olhos para o cego

e de pés para o coxo.

16Dos necessitados era pai

e até as causas dos desconhecidos eu examinava.

17Eu quebrava os queixos do iníquo

e dos seus dentes lhe fazia eu cair a vítima.

18Eu dizia: no meu ninho expirarei,

multiplicarei os meus dias como a areia.

19A minha raiz se estenderá até às águas,

e o orvalho ficará durante a noite sobre os meus ramos;

20a minha honra se renovará em mim,

e o meu arco se reforçará na minha mão.

21Os que me ouviam esperavam o meu conselho

e guardavam silêncio para ouvi-lo.

22Havendo eu falado, não replicavam;

as minhas palavras caíam sobre eles como orvalho.

23Esperavam-me como à chuva,

abriam a boca como à chuva de primavera.

24Sorria-me para eles quando não tinham confiança;

e a luz do meu rosto não desprezavam.

25Eu lhes escolhia o caminho, assentava-me como chefe

e habitava como rei entre as suas tropas,

como quem consola os que pranteiam.

30

Jó lamenta a miséria em que caiu

301Mas agora se riem de mim os de menos idade do que eu,

e cujos pais eu teria desdenhado

de pôr ao lado dos cães do meu rebanho.

2De que também me serviria a força das suas mãos,

homens cujo vigor já pereceu?

3De míngua e fome se debilitaram;

roem os lugares secos, desde muito em ruínas e desolados.

4Apanham malvas e folhas dos arbustos

e se sustentam de raízes de zimbro.

5Do meio dos homens são expulsos;

grita-se contra eles, como se grita atrás de um ladrão;

6habitam nos desfiladeiros sombrios,

nas cavernas da terra e das rochas.

7Bramam entre os arbustos e se ajuntam debaixo dos espinheiros.

8São filhos de doidos, raça infame,

e da terra são escorraçados.

9Mas agora sou a sua canção de motejo

e lhes sirvo de provérbio.

10Abominam-me, fogem para longe de mim

e não se abstêm de me cuspir no rosto.

11Porque Deus afrouxou a corda do meu arco e me oprimiu;

pelo que sacudiram de si o freio perante o meu rosto.

12À direita se levanta uma súcia, e me empurra,

e contra mim prepara o seu caminho de destruição.

13Arruínam a minha vereda,

promovem a minha calamidade;

gente para quem já não há socorro.

14Vêm contra mim como por uma grande brecha

e se revolvem avante entre as ruínas.

15Sobrevieram-me pavores,

como pelo vento é varrida a minha honra;

como nuvem passou a minha felicidade.

16Agora, dentro de mim se me derrama a alma;

os dias da aflição se apoderaram de mim.

17A noite me verruma os ossos e os desloca,

e não descansa o mal que me rói.

18Pela grande violência do meu mal está desfigurada a minha veste,

mal que me cinge como a gola da minha túnica.

19Deus, tu me lançaste na lama,

e me tornei semelhante ao pó e à cinza.

20Clamo a ti, e não me respondes;

estou em pé, mas apenas olhas para mim.

21Tu foste cruel comigo;

com a força da tua mão tu me combates.

22Levantas-me sobre o vento e me fazes cavalgá-lo;

dissolves-me no estrondo da tempestade.

23Pois eu sei que me levarás à morte

e à casa destinada a todo vivente.

24De um montão de ruínas não estenderá o homem a mão

e na sua desventura não levantará um grito por socorro?

25Acaso, não chorei sobre aquele que atravessava dias difíceis

ou não se angustiou a minha alma pelo necessitado?

26Aguardava eu o bem, e eis que me veio o mal;

esperava a luz, veio-me a escuridão.

27O meu íntimo se agita sem cessar;

e dias de aflição me sobrevêm.

28Ando de luto, sem a luz do sol;

levanto-me na congregação e clamo por socorro.

29Sou irmão dos chacais

e companheiro de avestruzes.

30Enegrecida se me cai a pele,

e os meus ossos queimam em febre.

31Por isso, a minha harpa se me tornou em prantos de luto,

e a minha flauta, em voz dos que choram.