Almeida Revista e Atualizada (1993) (ARA)
27

Jó descreve a sorte dos perversos

271Prosseguindo Jó em seu discurso, disse:

2Tão certo como vive Deus, que me tirou o direito,

e o Todo-Poderoso, que amargurou a minha alma,

3enquanto em mim estiver a minha vida,

e o sopro de Deus nos meus narizes,

4nunca os meus lábios falarão injustiça,

nem a minha língua pronunciará engano.

5Longe de mim que eu vos dê razão!

Até que eu expire, nunca afastarei de mim a minha integridade.

6À minha justiça me apegarei e não a largarei;

não me reprova a minha consciência por qualquer dia da minha vida.

7Seja como o perverso o meu inimigo,

e o que se levantar contra mim, como o injusto.

8Porque qual será a esperança do ímpio,

quando lhe for cortada a vida,

quando Deus lhe arrancar a alma?

9Acaso, ouvirá Deus o seu clamor,

em lhe sobrevindo a tribulação?

10Deleitar-se-á o perverso no Todo-Poderoso

e invocará a Deus em todo o tempo?

11Ensinar-vos-ei o que encerra a mão de Deus

e não vos ocultarei o que está com o Todo-Poderoso.

12Eis que todos vós já vistes isso;

por que, pois, alimentais vãs noções?

13Eis qual será da parte de Deus a porção do perverso

e a herança que os opressores receberão do Todo-Poderoso:

14Se os seus filhos se multiplicarem, será para a espada,

e a sua prole não se fartará de pão.

15Os que ficarem dela, a peste os enterrará,

e as suas viúvas não chorarão.

16Se o perverso amontoar prata como pó

e acumular vestes como barro,

17ele os acumulará, mas o justo é que os vestirá,

e o inocente repartirá a prata.

18Ele edifica a sua casa como a da traça

e como a choça que o vigia constrói.

19Rico se deita com a sua riqueza,

abre os seus olhos e já não a vê.

20Pavores se apoderam dele como inundação,

de noite a tempestade o arrebata.

21O vento oriental o leva, e ele se vai;

varre-o com ímpeto do seu lugar.

22Deus lança isto sobre ele e não o poupa,

a ele que procura fugir precipitadamente da sua mão;

23à sua queda lhe batem palmas,

à saída o apupam com assobios.

28

O homem apropria-se das riquezas da terra

281Na verdade, a prata tem suas minas,

e o ouro, que se refina, o seu lugar.

2O ferro tira-se da terra,

e da pedra se funde o cobre.

3Os homens põem termo à escuridão

e até aos últimos confins procuram as pedras

ocultas nas trevas e na densa escuridade.

4Abrem entrada para minas longe da habitação dos homens,

esquecidos dos transeuntes;

e, assim, longe deles, dependurados, oscilam de um lado para outro.

5Da terra procede o pão,

mas embaixo é revolvida como por fogo.

6Nas suas pedras se encontra safira,

e há pó que contém ouro.

7Essa vereda, a ave de rapina a ignora,

e jamais a viram os olhos do falcão.

8Nunca a pisaram feras majestosas,

nem o leãozinho passou por ela.

9Estende o homem a mão contra o rochedo

e revolve os montes desde as suas raízes.

10Abre canais nas pedras,

e os seus olhos veem tudo o que há de mais precioso.

11Tapa os veios de água, e nem uma gota sai deles,

e traz à luz o que estava escondido.

A verdadeira sabedoria é dom de Deus

12Mas onde se achará a sabedoria?

E onde está o lugar do entendimento?

13O homem não conhece o valor dela,

nem se acha ela na terra dos viventes.

14O abismo diz: Ela não está em mim;

e o mar diz: Não está comigo.

15Não se dá por ela ouro fino,

nem se pesa prata em câmbio dela.

16O seu valor não se pode avaliar pelo ouro de Ofir,

nem pelo precioso ônix, nem pela safira.

17O ouro não se iguala a ela, nem o cristal;

ela não se trocará por joia de ouro fino;

18ela faz esquecer o coral e o cristal;

a aquisição da sabedoria é melhor que a das pérolas.

19Não se lhe igualará o topázio da Etiópia,

nem se pode avaliar por ouro puro.

20Donde, pois, vem a sabedoria,

e onde está o lugar do entendimento?

21Está encoberta aos olhos de todo vivente

e oculta às aves do céu.

22O abismo e a morte dizem:

Ouvimos com os nossos ouvidos a sua fama.

23Deus lhe entende o caminho,

e ele é quem sabe o seu lugar.

24Porque ele perscruta até as extremidades da terra,

vê tudo o que há debaixo dos céus.

25Quando regulou o peso do vento

e fixou a medida das águas;

26quando determinou leis para a chuva

e caminho para o relâmpago dos trovões,

27então, viu ele a sabedoria e a manifestou;

estabeleceu-a e também a esquadrinhou.

28E disse ao homem:

Eis que o temor do Senhor é a sabedoria,

28.28
Sl 111.10
Pv 9.10

e o apartar-se do mal é o entendimento.

29

Jó lembra-se do seu primeiro estado feliz

291Prosseguiu Jó no seu discurso e disse:

2Ah! Quem me dera ser como fui nos meses passados,

como nos dias em que Deus me guardava!

3Quando fazia resplandecer a sua lâmpada sobre a minha cabeça,

quando eu, guiado por sua luz, caminhava pelas trevas;

4como fui nos dias do meu vigor,

quando a amizade de Deus estava sobre a minha tenda;

5quando o Todo-Poderoso ainda estava comigo,

e os meus filhos, em redor de mim;

6quando eu lavava os pés em leite,

e da rocha me corriam ribeiros de azeite.

7Quando eu saía para a porta da cidade,

e na praça me era dado sentar-me,

8os moços me viam e se retiravam;

os idosos se levantavam e se punham em pé;

9os príncipes reprimiam as suas palavras

e punham a mão sobre a boca;

10a voz dos nobres emudecia,

e a sua língua se apegava ao paladar.

11Ouvindo-me algum ouvido, esse me chamava feliz;

vendo-me algum olho, dava testemunho de mim;

12porque eu livrava os pobres que clamavam

e também o órfão que não tinha quem o socorresse.

13A bênção do que estava a perecer vinha sobre mim,

e eu fazia rejubilar-se o coração da viúva.

14Eu me cobria de justiça, e esta me servia de veste;

como manto e turbante era a minha equidade.

15Eu me fazia de olhos para o cego

e de pés para o coxo.

16Dos necessitados era pai

e até as causas dos desconhecidos eu examinava.

17Eu quebrava os queixos do iníquo

e dos seus dentes lhe fazia eu cair a vítima.

18Eu dizia: no meu ninho expirarei,

multiplicarei os meus dias como a areia.

19A minha raiz se estenderá até às águas,

e o orvalho ficará durante a noite sobre os meus ramos;

20a minha honra se renovará em mim,

e o meu arco se reforçará na minha mão.

21Os que me ouviam esperavam o meu conselho

e guardavam silêncio para ouvi-lo.

22Havendo eu falado, não replicavam;

as minhas palavras caíam sobre eles como orvalho.

23Esperavam-me como à chuva,

abriam a boca como à chuva de primavera.

24Sorria-me para eles quando não tinham confiança;

e a luz do meu rosto não desprezavam.

25Eu lhes escolhia o caminho, assentava-me como chefe

e habitava como rei entre as suas tropas,

como quem consola os que pranteiam.

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