Almeida Revista e Atualizada (1993) (ARA)
24

Jó contesta que os perversos muitas vezes não são castigados

241Por que o Todo-Poderoso não designa tempos de julgamento?

E por que os que o conhecem não veem tais dias?

2Há os que removem os limites,

roubam os rebanhos e os apascentam.

3Levam do órfão o jumento,

da viúva, tomam-lhe o boi.

4Desviam do caminho aos necessitados,

e os pobres da terra todos têm de esconder-se.

5Como asnos monteses no deserto, saem estes para o seu mister,

à procura de presa no campo aberto,

como pão para eles e seus filhos.

6No campo segam o pasto do perverso

e lhe rabiscam a vinha.

7Passam a noite nus por falta de roupa

e não têm cobertas contra o frio.

8Pelas chuvas das montanhas são molhados

e, não tendo refúgio, abraçam-se com as rochas.

9Orfãozinhos são arrancados ao peito,

e dos pobres se toma penhor;

10de modo que estes andam nus, sem roupa,

e, famintos, arrastam os molhos.

11Entre os muros desses perversos espremem o azeite,

pisam-lhes o lagar; contudo, padecem sede.

12Desde as cidades gemem os homens,

e a alma dos feridos clama;

e, contudo, Deus não tem isso por anormal.

13Os perversos são inimigos da luz,

não conhecem os seus caminhos,

nem permanecem nas suas veredas.

14De madrugada se levanta o homicida,

mata ao pobre e ao necessitado,

e de noite se torna ladrão.

15Aguardam o crepúsculo os olhos do adúltero;

este diz consigo: Ninguém me reconhecerá;

e cobre o rosto.

16Nas trevas minam as casas, de dia se conservam encerrados,

nada querem com a luz.

17Pois a manhã para todos eles é como sombra de morte;

mas os terrores da noite lhes são familiares.

18Vós dizeis: Os perversos são levados rapidamente na superfície das águas;

maldita é a porção dos tais na terra;

já não andam pelo caminho das vinhas.

19A secura e o calor desfazem as águas da neve;

assim faz a sepultura aos que pecaram.

20A mãe se esquecerá deles,

os vermes os comerão gostosamente;

nunca mais haverá lembrança deles;

como árvore será quebrado o injusto,

21aquele que devora a estéril que não tem filhos

e não faz o bem à viúva.

22Não! Pelo contrário, Deus por sua força prolonga os dias dos valentes;

veem-se eles de pé quando desesperavam da vida.

23Ele lhes dá descanso, e nisso se estribam;

os olhos de Deus estão nos caminhos deles.

24São exaltados por breve tempo;

depois, passam, colhidos como todos os mais;

são cortados como as pontas das espigas.

25Se não é assim, quem me desmentirá

e anulará as minhas razões?

25

Bildade nega que o homem possa justificar-se diante de Deus

251Então, respondeu Bildade, o suíta:

2A Deus pertence o domínio e o poder;

ele faz reinar a paz nas alturas celestes.

3Acaso, têm número os seus exércitos?

E sobre quem não se levanta a sua luz?

4Como, pois, seria justo o homem perante Deus,

e como seria puro aquele que nasce de mulher?

5Eis que até a lua não tem brilho,

e as estrelas não são puras aos olhos dele.

6Quanto menos o homem, que é gusano,

e o filho do homem, que é verme!

26

Jó afirma a soberania de Deus

261Jó, porém, respondeu:

2Como sabes ajudar ao que não tem força

e prestar socorro ao braço que não tem vigor!

3Como sabes aconselhar ao que não tem sabedoria

e revelar plenitude de verdadeiro conhecimento!

4Com a ajuda de quem proferes tais palavras?

E de quem é o espírito que fala em ti?

5A alma dos mortos treme

debaixo das águas com seus habitantes.

6O além está desnudo perante ele,

e não há coberta para o abismo.

7Ele estende o norte sobre o vazio

e faz pairar a terra sobre o nada.

8Prende as águas em densas nuvens,

e as nuvens não se rasgam debaixo delas.

9Encobre a face do seu trono

e sobre ele estende a sua nuvem.

10Traçou um círculo à superfície das águas,

até aos confins da luz e das trevas.

11As colunas do céu tremem

e se espantam da sua ameaça.

12Com a sua força fende o mar

e com o seu entendimento abate o adversário.

13Pelo seu sopro aclara os céus,

a sua mão fere o dragão veloz.

14Eis que isto são apenas as orlas dos seus caminhos!

Que leve sussurro temos ouvido dele!

Mas o trovão do seu poder, quem o entenderá?