Almeida Revista e Atualizada (1993) (ARA)
23

Jó deseja apresentar-se perante Deus

231Respondeu, porém, Jó:

2Ainda hoje a minha queixa é de um revoltado,

apesar de a minha mão reprimir o meu gemido.

3Ah! Se eu soubesse onde o poderia achar!

Então, me chegaria ao seu tribunal.

4Exporia ante ele a minha causa,

encheria a minha boca de argumentos.

5Saberia as palavras que ele me respondesse

e entenderia o que me dissesse.

6Acaso, segundo a grandeza de seu poder, contenderia comigo?

Não; antes, me atenderia.

7Ali, o homem reto pleitearia com ele,

e eu me livraria para sempre do meu juiz.

8Eis que, se me adianto, ali não está;

se torno para trás, não o percebo.

9Se opera à esquerda, não o vejo;

esconde-se à direita, e não o diviso.

10Mas ele sabe o meu caminho;

se ele me provasse, sairia eu como o ouro.

11Os meus pés seguiram as suas pisadas;

guardei o seu caminho e não me desviei dele.

12Do mandamento de seus lábios nunca me apartei,

escondi no meu íntimo as palavras da sua boca.

13Mas, se ele resolveu alguma coisa,

quem o pode dissuadir?

O que ele deseja, isso fará.

14Pois ele cumprirá o que está ordenado a meu respeito

e muitas coisas como estas ainda tem consigo.

15Por isso, me perturbo perante ele;

e, quando o considero, temo-o.

16Deus é quem me fez desmaiar o coração,

e o Todo-Poderoso, quem me perturbou,

17porque não estou desfalecido por causa das trevas,

nem porque a escuridão cobre o meu rosto.

24

Jó contesta que os perversos muitas vezes não são castigados

241Por que o Todo-Poderoso não designa tempos de julgamento?

E por que os que o conhecem não veem tais dias?

2Há os que removem os limites,

roubam os rebanhos e os apascentam.

3Levam do órfão o jumento,

da viúva, tomam-lhe o boi.

4Desviam do caminho aos necessitados,

e os pobres da terra todos têm de esconder-se.

5Como asnos monteses no deserto, saem estes para o seu mister,

à procura de presa no campo aberto,

como pão para eles e seus filhos.

6No campo segam o pasto do perverso

e lhe rabiscam a vinha.

7Passam a noite nus por falta de roupa

e não têm cobertas contra o frio.

8Pelas chuvas das montanhas são molhados

e, não tendo refúgio, abraçam-se com as rochas.

9Orfãozinhos são arrancados ao peito,

e dos pobres se toma penhor;

10de modo que estes andam nus, sem roupa,

e, famintos, arrastam os molhos.

11Entre os muros desses perversos espremem o azeite,

pisam-lhes o lagar; contudo, padecem sede.

12Desde as cidades gemem os homens,

e a alma dos feridos clama;

e, contudo, Deus não tem isso por anormal.

13Os perversos são inimigos da luz,

não conhecem os seus caminhos,

nem permanecem nas suas veredas.

14De madrugada se levanta o homicida,

mata ao pobre e ao necessitado,

e de noite se torna ladrão.

15Aguardam o crepúsculo os olhos do adúltero;

este diz consigo: Ninguém me reconhecerá;

e cobre o rosto.

16Nas trevas minam as casas, de dia se conservam encerrados,

nada querem com a luz.

17Pois a manhã para todos eles é como sombra de morte;

mas os terrores da noite lhes são familiares.

18Vós dizeis: Os perversos são levados rapidamente na superfície das águas;

maldita é a porção dos tais na terra;

já não andam pelo caminho das vinhas.

19A secura e o calor desfazem as águas da neve;

assim faz a sepultura aos que pecaram.

20A mãe se esquecerá deles,

os vermes os comerão gostosamente;

nunca mais haverá lembrança deles;

como árvore será quebrado o injusto,

21aquele que devora a estéril que não tem filhos

e não faz o bem à viúva.

22Não! Pelo contrário, Deus por sua força prolonga os dias dos valentes;

veem-se eles de pé quando desesperavam da vida.

23Ele lhes dá descanso, e nisso se estribam;

os olhos de Deus estão nos caminhos deles.

24São exaltados por breve tempo;

depois, passam, colhidos como todos os mais;

são cortados como as pontas das espigas.

25Se não é assim, quem me desmentirá

e anulará as minhas razões?

25

Bildade nega que o homem possa justificar-se diante de Deus

251Então, respondeu Bildade, o suíta:

2A Deus pertence o domínio e o poder;

ele faz reinar a paz nas alturas celestes.

3Acaso, têm número os seus exércitos?

E sobre quem não se levanta a sua luz?

4Como, pois, seria justo o homem perante Deus,

e como seria puro aquele que nasce de mulher?

5Eis que até a lua não tem brilho,

e as estrelas não são puras aos olhos dele.

6Quanto menos o homem, que é gusano,

e o filho do homem, que é verme!

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