Almeida Revista e Atualizada (1993) (ARA)
20

Zofar descreve as calamidades dos perversos

201Então, respondeu Zofar, o naamatita:

2Visto que os meus pensamentos me impõem resposta,

eu me apresso.

3Eu ouvi a repreensão, que me envergonha,

mas o meu espírito me obriga a responder segundo o meu entendimento.

4Porventura, não sabes tu que desde todos os tempos,

desde que o homem foi posto sobre a terra,

5o júbilo dos perversos é breve,

e a alegria dos ímpios, momentânea?

6Ainda que a sua presunção remonte aos céus,

e a sua cabeça atinja as nuvens,

7como o seu próprio esterco, apodrecerá para sempre;

e os que o conheceram dirão: Onde está?

8Voará como um sonho e não será achado,

será afugentado como uma visão da noite.

9Os olhos que o viram jamais o verão,

e o seu lugar não o verá outra vez.

10Os seus filhos procurarão aplacar aos pobres,

e as suas mãos lhes restaurarão os seus bens.

11Ainda que os seus ossos estejam cheios do vigor da sua juventude,

esse vigor se deitará com ele no pó.

12Ainda que o mal lhe seja doce na boca,

e ele o esconda debaixo da língua,

13e o saboreie, e o não deixe;

antes, o retenha no seu paladar,

14contudo, a sua comida se transformará nas suas entranhas;

fel de áspides será no seu interior.

15Engoliu riquezas, mas vomitá-las-á;

do seu ventre Deus as lançará.

16Veneno de áspides sorveu;

língua de víbora o matará.

17Não se deliciará com a vista dos ribeiros

e dos rios transbordantes de mel e de leite.

18Devolverá o fruto do seu trabalho e não o engolirá;

do lucro de sua barganha não tirará prazer nenhum.

19Oprimiu e desamparou os pobres,

roubou casas que não edificou.

20Por não haver limites à sua cobiça,

não chegará a salvar as coisas por ele desejadas.

21Nada escapou à sua cobiça insaciável,

pelo que a sua prosperidade não durará.

22Na plenitude da sua abastança, ver-se-á angustiado;

toda a força da miséria virá sobre ele.

23Para encher a sua barriga,

Deus mandará sobre ele o furor da sua ira,

que, por alimento, mandará chover sobre ele.

24Se fugir das armas de ferro,

o arco de bronze o traspassará.

25Ele arranca das suas costas a flecha,

e esta vem resplandecente do seu fel;

e haverá assombro sobre ele.

26Todas as calamidades serão reservadas contra os seus tesouros;

fogo não assoprado o consumirá,

fogo que se apascentará do que ficar na sua tenda.

27Os céus lhe manifestarão a sua iniquidade;

e a terra se levantará contra ele.

28As riquezas de sua casa serão transportadas;

como água serão derramadas no dia da ira de Deus.

29Tal é, da parte de Deus, a sorte do homem perverso,

tal a herança decretada por Deus.

21

Jó descreve a prosperidade dos perversos

211Respondeu, porém, Jó:

2Ouvi atentamente as minhas razões,

e já isso me será a vossa consolação.

3Tolerai-me, e eu falarei;

e, havendo eu falado, podereis zombar.

4Acaso, é do homem que eu me queixo?

Não tenho motivo de me impacientar?

5Olhai para mim e pasmai;

e ponde a mão sobre a boca;

6porque só de pensar nisso me perturbo,

e um calafrio se apodera de toda a minha carne.

7Como é, pois, que vivem os perversos,

envelhecem e ainda se tornam mais poderosos?

8Seus filhos se estabelecem na sua presença;

e os seus descendentes, ante seus olhos.

9As suas casas têm paz, sem temor,

e a vara de Deus não os fustiga.

10O seu touro gera e não falha,

suas novilhas têm a cria e não abortam.

11Deixam correr suas crianças, como a um rebanho,

e seus filhos saltam de alegria;

12cantam com tamboril e harpa

e alegram-se ao som da flauta.

13Passam eles os seus dias em prosperidade

e em paz descem à sepultura.

14E são estes os que disseram a Deus: Retira-te de nós!

Não desejamos conhecer os teus caminhos.

15Que é o Todo-Poderoso, para que nós o sirvamos?

E que nos aproveitará que lhe façamos orações?

16Vede, porém, que não provém deles a sua prosperidade;

longe de mim o conselho dos perversos!

17Quantas vezes sucede que se apaga a lâmpada dos perversos?

Quantas vezes lhes sobrevém a destruição?

Quantas vezes Deus na sua ira lhes reparte dores?

18Quantas vezes são como a palha diante do vento

e como a pragana arrebatada pelo remoinho?

19Deus, dizeis vós, guarda a iniquidade do perverso para seus filhos.

Mas é a ele que deveria Deus dar o pago, para que o sinta.

20Seus próprios olhos devem ver a sua ruína,

e ele, beber do furor do Todo-Poderoso.

21Porque depois de morto, cortado já o número dos seus meses,

que interessa a ele a sua casa?

22Acaso, alguém ensinará ciência a Deus,

a ele que julga os que estão nos céus?

23Um morre em pleno vigor,

despreocupado e tranquilo,

24com seus baldes cheios de leite

e fresca a medula dos seus ossos.

25Outro, ao contrário, morre na amargura do seu coração,

não havendo provado do bem.

26Juntamente jazem no pó,

onde os vermes os cobrem.

27Vede que conheço os vossos pensamentos

e os injustos desígnios com que me tratais.

28Porque direis: Onde está a casa do príncipe,

e onde, a tenda em que morava o perverso?

29Porventura, não tendes interrogado os que viajam?

E não considerastes as suas declarações,

30que o mau é poupado no dia da calamidade,

é socorrido no dia do furor?

31Quem lhe lançará em rosto o seu proceder?

Quem lhe dará o pago do que faz?

32Finalmente, é levado à sepultura,

e sobre o seu túmulo se faz vigilância.

33Os torrões do vale lhe são leves,

todos os homens o seguem,

assim como não têm número os que foram adiante dele.

34Como, pois, me consolais em vão?

Das vossas respostas só resta falsidade.

22

Elifaz acusa a Jó de grandes pecados

221Então, respondeu Elifaz, o temanita:

2Porventura, será o homem de algum proveito a Deus?

Antes, o sábio é só útil a si mesmo.

3Ou tem o Todo-Poderoso interesse em que sejas justo

ou algum lucro em que faças perfeitos os teus caminhos?

22.2-3
Jó 35.6-8

4Ou te repreende pelo teu temor de Deus

ou entra contra ti em juízo?

5Porventura, não é grande a tua malícia,

e sem termo, as tuas iniquidades?

6Porque sem causa tomaste penhores a teu irmão

e aos seminus despojaste das suas roupas.

7Não deste água a beber ao cansado

e ao faminto retiveste o pão.

8Ao braço forte pertencia a terra,

e só os homens favorecidos habitavam nela.

9As viúvas despediste de mãos vazias,

e os braços dos órfãos foram quebrados.

10Por isso, estás cercado de laços,

e repentino pavor te conturba

11ou trevas, em que nada vês;

e águas transbordantes te cobrem.

12Porventura, não está Deus nas alturas do céu?

Olha para as estrelas mais altas. Que altura!

13E dizes: Que sabe Deus?

Acaso, poderá ele julgar através de densa escuridão?

14Grossas nuvens o encobrem,

de modo que não pode ver;

ele passeia pela abóbada do céu.

15Queres seguir a rota antiga,

que os homens iníquos pisaram?

16Estes foram arrebatados antes do tempo;

o seu fundamento, uma torrente o arrasta.

17Diziam a Deus: Retira-te de nós.

E: Que pode fazer-nos o Todo-Poderoso?

18Contudo, ele enchera de bens as suas casas.

Longe de mim o conselho dos perversos!

19Os justos o veem e se alegram,

e o inocente escarnece deles,

20dizendo: Na verdade, os nossos adversários foram destruídos,

e o fogo consumiu o resto deles.

21Reconcilia-te, pois, com ele e tem paz,

e assim te sobrevirá o bem.

22Aceita, peço-te, a instrução que profere

e põe as suas palavras no teu coração.

23Se te converteres ao Todo-Poderoso, serás restabelecido;

se afastares a injustiça da tua tenda

24e deitares ao pó o teu ouro

e o ouro de Ofir entre pedras dos ribeiros,

25então, o Todo-Poderoso será o teu ouro

e a tua prata escolhida.

26Deleitar-te-ás, pois, no Todo-Poderoso

e levantarás o rosto para Deus.

27Orarás a ele, e ele te ouvirá;

e pagarás os teus votos.

28Se projetas alguma coisa, ela te sairá bem,

e a luz brilhará em teus caminhos.

29Se estes descem, então, dirás: Para cima!

E Deus salvará o humilde

30e livrará até ao que não é inocente;

sim, será libertado, graças à pureza de tuas mãos.