Almeida Revista e Atualizada (1993) (ARA)
1

A virtude e riqueza de Jó

11Havia um homem na terra de Uz, cujo nome era Jó; homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal. 2Nasceram-lhe sete filhos e três filhas. 3Possuía sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois e quinhentas jumentas; era também mui numeroso o pessoal ao seu serviço, de maneira que este homem era o maior de todos os do Oriente. 4Seus filhos iam às casas uns dos outros e faziam banquetes, cada um por sua vez, e mandavam convidar as suas três irmãs a comerem e beberem com eles. 5Decorrido o turno de dias de seus banquetes, chamava Jó a seus filhos e os santificava; levantava-se de madrugada e oferecia holocaustos segundo o número de todos eles, pois dizia: Talvez tenham pecado os meus filhos e blasfemado contra Deus em seu coração. Assim o fazia Jó continuamente.

6Num dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, veio também Satanás entre eles. 7Então, perguntou o Senhor a Satanás: Donde vens? Satanás respondeu ao Senhor e disse: De rodear a terra e passear por ela. 8Perguntou ainda o Senhor a Satanás: Observaste o meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal. 9Então, respondeu Satanás

1.9
Ap 12.10
ao Senhor: Porventura, Jó debalde teme a Deus? 10Acaso, não o cercaste com sebe, a ele, a sua casa e a tudo quanto tem? A obra de suas mãos abençoaste, e os seus bens se multiplicaram na terra. 11Estende, porém, a mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e verás se não blasfema contra ti na tua face. 12Disse o Senhor a Satanás: Eis que tudo quanto ele tem está em teu poder; somente contra ele não estendas a mão. E Satanás saiu da presença do Senhor.

As aflições e a paciência de Jó

13Sucedeu um dia, em que seus filhos e suas filhas comiam e bebiam vinho na casa do irmão primogênito, 14que veio um mensageiro a Jó e lhe disse: Os bois lavravam, e as jumentas pasciam junto a eles; 15de repente, deram sobre eles os sabeus, e os levaram, e mataram aos servos a fio de espada; só eu escapei, para trazer-te a nova. 16Falava este ainda quando veio outro e disse: Fogo de Deus caiu do céu, e queimou as ovelhas e os servos, e os consumiu; só eu escapei, para trazer-te a nova. 17Falava este ainda quando veio outro e disse: Dividiram-se os caldeus em três bandos, deram sobre os camelos, os levaram e mataram aos servos a fio de espada; só eu escapei, para trazer-te a nova. 18Também este falava ainda quando veio outro e disse: Estando teus filhos e tuas filhas comendo e bebendo vinho, em casa do irmão primogênito, 19eis que se levantou grande vento do lado do deserto e deu nos quatro cantos da casa, a qual caiu sobre eles, e morreram; só eu escapei, para trazer-te a nova.

20Então, Jó se levantou, rasgou o seu manto, rapou a cabeça e lançou-se em terra e adorou; 21e disse: Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei; o Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor! 22Em tudo isto Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma.

2

21Num dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, veio também Satanás entre eles apresentar-se perante o Senhor. 2Então, o Senhor disse a Satanás: Donde vens? Respondeu Satanás ao Senhor e disse: De rodear a terra e passear por ela. 3Perguntou o Senhor a Satanás: Observaste o meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal. Ele conserva a sua integridade, embora me incitasses contra ele, para o consumir sem causa. 4Então, Satanás respondeu ao Senhor: Pele por pele, e tudo quanto o homem tem dará pela sua vida. 5Estende, porém, a mão, toca-lhe nos ossos e na carne e verás se não blasfema contra ti na tua face. 6Disse o Senhor a Satanás: Eis que ele está em teu poder; mas poupa-lhe a vida.

7Então, saiu Satanás da presença do Senhor e feriu a Jó de tumores malignos, desde a planta do pé até ao alto da cabeça. 8Jó, sentado em cinza, tomou um caco para com ele raspar-se. 9Então, sua mulher lhe disse: Ainda conservas a tua integridade? Amaldiçoa a Deus e morre. 10Mas ele lhe respondeu: Falas como qualquer doida; temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal? Em tudo isto não pecou Jó com os seus lábios.

11Ouvindo, pois, três amigos de Jó todo este mal que lhe sobreviera, chegaram, cada um do seu lugar: Elifaz, o temanita, Bildade, o suíta, e Zofar, o naamatita; e combinaram ir juntamente condoer-se dele e consolá-lo. 12Levantando eles de longe os olhos e não o reconhecendo, ergueram a voz e choraram; e cada um, rasgando o seu manto, lançava pó ao ar sobre a cabeça. 13Sentaram-se com ele na terra, sete dias e sete noites; e nenhum lhe dizia palavra alguma, pois viam que a dor era muito grande.

3

Jó amaldiçoa o seu nascimento

31Depois disto, passou Jó a falar e amaldiçoou o seu dia natalício. 2Disse Jó:

3Pereça o dia em que nasci

e a noite em que se disse:

Foi concebido um homem!

4Converta-se aquele dia em trevas;

e Deus, lá de cima, não tenha cuidado dele,

nem resplandeça sobre ele a luz.

5Reclamem-no as trevas e a sombra de morte;

habitem sobre ele nuvens;

espante-o tudo o que pode enegrecer o dia.

6Aquela noite, que dela se apoderem densas trevas;

não se regozije ela entre os dias do ano,

não entre na conta dos meses.

7Seja estéril aquela noite,

e dela sejam banidos os sons de júbilo.

8Amaldiçoem-na aqueles que sabem amaldiçoar o dia

e sabem excitar o monstro marinho.

9Escureçam-se as estrelas do crepúsculo matutino dessa noite;

que ela espere a luz, e a luz não venha;

que não veja as pálpebras dos olhos da alva,

10pois não fechou as portas do ventre de minha mãe,

nem escondeu dos meus olhos o sofrimento.

11Por que não morri eu na madre?

Por que não expirei ao sair dela?

12Por que houve regaço que me acolhesse?

E por que peitos, para que eu mamasse?

13Porque já agora repousaria tranquilo;

dormiria, e, então, haveria para mim descanso,

14com os reis e conselheiros da terra

que para si edificaram mausoléus;

15ou com os príncipes que tinham ouro

e encheram de prata as suas casas;

16ou, como aborto oculto, eu não existiria,

como crianças que nunca viram a luz.

17Ali, os maus cessam de perturbar,

e, ali, repousam os cansados.

18Ali, os presos juntamente repousam

e não ouvem a voz do feitor.

19Ali, está tanto o pequeno como o grande

e o servo livre de seu senhor.

3.1-19
Jr 20.14-18

20Por que se concede luz ao miserável

e vida aos amargurados de ânimo,

21que esperam a morte, e ela não vem?

3.21
Ap 9.6

Eles cavam em procura dela mais do que tesouros ocultos.

22Eles se regozijariam por um túmulo

e exultariam se achassem a sepultura.

23Por que se concede luz ao homem, cujo caminho é oculto,

e a quem Deus cercou de todos os lados?

24Por que em vez do meu pão me vêm gemidos,

e os meus lamentos se derramam como água?

25Aquilo que temo me sobrevém,

e o que receio me acontece.

26Não tenho descanso, nem sossego, nem repouso,

e já me vem grande perturbação.

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