Almeida Revista e Atualizada (1993) (ARA)
18

Bildade descreve a sorte do perverso

181Então, respondeu Bildade, o suíta:

2Até quando andarás à caça de palavras?

Considera bem, e, então, falaremos.

3Por que somos reputados por animais,

e aos teus olhos passamos por curtos de inteligência?

4Oh! Tu, que te despedaças na tua ira,

será a terra abandonada por tua causa?

Remover-se-ão as rochas do seu lugar?

5Na verdade, a luz do perverso se apagará,

e para seu fogo não resplandecerá a faísca;

6a luz se escurecerá nas suas tendas,

e a sua lâmpada sobre ele se apagará;

7os seus passos fortes se estreitarão,

e a sua própria trama o derribará.

8Porque por seus próprios pés é lançado na rede

e andará na boca de forje.

9A armadilha o apanhará pelo calcanhar,

e o laço o prenderá.

10A corda está-lhe escondida na terra,

e a armadilha, na vereda.

11Os assombros o espantarão de todos os lados

e o perseguirão a cada passo.

12A calamidade virá faminta sobre ele,

e a miséria estará alerta ao seu lado,

13a qual lhe devorará os membros do corpo;

serão devorados pelo primogênito da morte.

14O perverso será arrancado da sua tenda, onde está confiado,

e será levado ao rei dos terrores.

15Nenhum dos seus morará na sua tenda,

espalhar-se-á enxofre sobre a sua habitação.

16Por baixo secarão as suas raízes,

e murcharão por cima os seus ramos.

17A sua memória desaparecerá da terra,

e pelas praças não terá nome.

18Da luz o lançarão nas trevas

e o afugentarão do mundo.

19Não terá filho nem posteridade entre o seu povo,

nem sobrevivente algum ficará nas suas moradas.

20Do seu dia se espantarão os do Ocidente,

e os do Oriente serão tomados de horror.

21Tais são, na verdade, as moradas do perverso,

e este é o paradeiro do que não conhece a Deus.

19

Jó, embora sofrendo, sabe que seu Redentor vive

191Então, respondeu Jó:

2Até quando afligireis a minha alma

e me quebrantareis com palavras?

3Já dez vezes me vituperastes

e não vos envergonhais de injuriar-me.

4Embora haja eu, na verdade, errado,

comigo ficará o meu erro.

5Se quereis engrandecer-vos contra mim

e me arguis pelo meu opróbrio,

6sabei agora que Deus é que me oprimiu

e com a sua rede me cercou.

7Eis que clamo: violência! Mas não sou ouvido;

grito: socorro! Porém não há justiça.

8O meu caminho ele fechou, e não posso passar;

e nas minhas veredas pôs trevas.

9Da minha honra me despojou

e tirou-me da cabeça a coroa.

10Arruinou-me de todos os lados, e eu me vou;

e arrancou-me a esperança, como a uma árvore.

11Inflamou contra mim a sua ira

e me tem na conta de seu adversário.

12Juntas vieram as suas tropas,

prepararam contra mim o seu caminho

e se acamparam ao redor da minha tenda.

13Pôs longe de mim a meus irmãos,

e os que me conhecem, como estranhos, se apartaram de mim.

14Os meus parentes me desampararam,

e os meus conhecidos se esqueceram de mim.

15Os que se abrigam na minha casa

e as minhas servas me têm por estranho,

e vim a ser estrangeiro aos seus olhos.

16Chamo o meu criado, e ele não me responde;

tenho de suplicar-lhe, eu mesmo.

17O meu hálito é intolerável à minha mulher,

e pelo mau cheiro sou repugnante aos filhos de minha mãe.

18Até as crianças me desprezam,

e, querendo eu levantar-me, zombam de mim.

19Todos os meus amigos íntimos me abominam,

e até os que eu amava se tornaram contra mim.

20Os meus ossos se apegam à minha pele e à minha carne,

e salvei-me só com a pele dos meus dentes.

21Compadecei-vos de mim, amigos meus,

compadecei-vos de mim, porque a mão de Deus me atingiu.

22Por que me perseguis como Deus me persegue

e não cessais de devorar a minha carne?

23Quem me dera fossem agora escritas as minhas palavras!

Quem me dera fossem gravadas em livro!

24Que, com pena de ferro e com chumbo,

para sempre fossem esculpidas na rocha!

25Porque eu sei que o meu Redentor vive

e por fim se levantará sobre a terra.

26Depois, revestido este meu corpo da minha pele,

em minha carne verei a Deus.

27Vê-lo-ei por mim mesmo,

os meus olhos o verão, e não outros;

de saudade me desfalece o coração dentro de mim.

28Se disserdes: Como o perseguiremos?

E: A causa deste mal se acha nele,

29temei, pois, a espada,

porque tais acusações merecem o seu furor,

para saberdes que há um juízo.

20

Zofar descreve as calamidades dos perversos

201Então, respondeu Zofar, o naamatita:

2Visto que os meus pensamentos me impõem resposta,

eu me apresso.

3Eu ouvi a repreensão, que me envergonha,

mas o meu espírito me obriga a responder segundo o meu entendimento.

4Porventura, não sabes tu que desde todos os tempos,

desde que o homem foi posto sobre a terra,

5o júbilo dos perversos é breve,

e a alegria dos ímpios, momentânea?

6Ainda que a sua presunção remonte aos céus,

e a sua cabeça atinja as nuvens,

7como o seu próprio esterco, apodrecerá para sempre;

e os que o conheceram dirão: Onde está?

8Voará como um sonho e não será achado,

será afugentado como uma visão da noite.

9Os olhos que o viram jamais o verão,

e o seu lugar não o verá outra vez.

10Os seus filhos procurarão aplacar aos pobres,

e as suas mãos lhes restaurarão os seus bens.

11Ainda que os seus ossos estejam cheios do vigor da sua juventude,

esse vigor se deitará com ele no pó.

12Ainda que o mal lhe seja doce na boca,

e ele o esconda debaixo da língua,

13e o saboreie, e o não deixe;

antes, o retenha no seu paladar,

14contudo, a sua comida se transformará nas suas entranhas;

fel de áspides será no seu interior.

15Engoliu riquezas, mas vomitá-las-á;

do seu ventre Deus as lançará.

16Veneno de áspides sorveu;

língua de víbora o matará.

17Não se deliciará com a vista dos ribeiros

e dos rios transbordantes de mel e de leite.

18Devolverá o fruto do seu trabalho e não o engolirá;

do lucro de sua barganha não tirará prazer nenhum.

19Oprimiu e desamparou os pobres,

roubou casas que não edificou.

20Por não haver limites à sua cobiça,

não chegará a salvar as coisas por ele desejadas.

21Nada escapou à sua cobiça insaciável,

pelo que a sua prosperidade não durará.

22Na plenitude da sua abastança, ver-se-á angustiado;

toda a força da miséria virá sobre ele.

23Para encher a sua barriga,

Deus mandará sobre ele o furor da sua ira,

que, por alimento, mandará chover sobre ele.

24Se fugir das armas de ferro,

o arco de bronze o traspassará.

25Ele arranca das suas costas a flecha,

e esta vem resplandecente do seu fel;

e haverá assombro sobre ele.

26Todas as calamidades serão reservadas contra os seus tesouros;

fogo não assoprado o consumirá,

fogo que se apascentará do que ficar na sua tenda.

27Os céus lhe manifestarão a sua iniquidade;

e a terra se levantará contra ele.

28As riquezas de sua casa serão transportadas;

como água serão derramadas no dia da ira de Deus.

29Tal é, da parte de Deus, a sorte do homem perverso,

tal a herança decretada por Deus.

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