Almeida Revista e Atualizada (1993) (ARA)
17

Jó nada mais espera desta vida

171O meu espírito se vai consumindo,

os meus dias se vão apagando,

e só tenho perante mim a sepultura.

2Estou, de fato, cercado de zombadores,

e os meus olhos são obrigados a lhes contemplar a provocação.

3Dá-me, pois, um penhor; sê o meu fiador para contigo mesmo;

quem mais haverá que se possa comprometer comigo?

4Porque ao seu coração encobriste o entendimento,

pelo que não os exaltarás.

5Se alguém oferece os seus amigos como presa,

os olhos de seus filhos desfalecerão.

6Mas a mim me pôs por provérbio dos povos;

tornei-me como aquele em cujo rosto se cospe.

7Pelo que já se escureceram de mágoa os meus olhos,

e já todos os meus membros são como a sombra;

8os retos pasmam disto,

e o inocente se levanta contra o ímpio.

9Contudo, o justo segue o seu caminho,

e o puro de mãos cresce mais e mais em força.

10Mas tornai-vos, todos vós, e vinde cá;

porque sábio nenhum acharei entre vós.

11Os meus dias passaram, e se malograram os meus propósitos,

as aspirações do meu coração.

12Convertem-me a noite em dia,

e a luz, dizem, está perto das trevas.

13Mas, se eu aguardo já a sepultura por minha casa;

se nas trevas estendo a minha cama;

14se ao sepulcro eu clamo: tu és meu pai;

e aos vermes: vós sois minha mãe e minha irmã,

15onde está, pois, a minha esperança?

Sim, a minha esperança, quem a poderá ver?

16Ela descerá até às portas da morte,

quando juntamente no pó teremos descanso.

18

Bildade descreve a sorte do perverso

181Então, respondeu Bildade, o suíta:

2Até quando andarás à caça de palavras?

Considera bem, e, então, falaremos.

3Por que somos reputados por animais,

e aos teus olhos passamos por curtos de inteligência?

4Oh! Tu, que te despedaças na tua ira,

será a terra abandonada por tua causa?

Remover-se-ão as rochas do seu lugar?

5Na verdade, a luz do perverso se apagará,

e para seu fogo não resplandecerá a faísca;

6a luz se escurecerá nas suas tendas,

e a sua lâmpada sobre ele se apagará;

7os seus passos fortes se estreitarão,

e a sua própria trama o derribará.

8Porque por seus próprios pés é lançado na rede

e andará na boca de forje.

9A armadilha o apanhará pelo calcanhar,

e o laço o prenderá.

10A corda está-lhe escondida na terra,

e a armadilha, na vereda.

11Os assombros o espantarão de todos os lados

e o perseguirão a cada passo.

12A calamidade virá faminta sobre ele,

e a miséria estará alerta ao seu lado,

13a qual lhe devorará os membros do corpo;

serão devorados pelo primogênito da morte.

14O perverso será arrancado da sua tenda, onde está confiado,

e será levado ao rei dos terrores.

15Nenhum dos seus morará na sua tenda,

espalhar-se-á enxofre sobre a sua habitação.

16Por baixo secarão as suas raízes,

e murcharão por cima os seus ramos.

17A sua memória desaparecerá da terra,

e pelas praças não terá nome.

18Da luz o lançarão nas trevas

e o afugentarão do mundo.

19Não terá filho nem posteridade entre o seu povo,

nem sobrevivente algum ficará nas suas moradas.

20Do seu dia se espantarão os do Ocidente,

e os do Oriente serão tomados de horror.

21Tais são, na verdade, as moradas do perverso,

e este é o paradeiro do que não conhece a Deus.

19

Jó, embora sofrendo, sabe que seu Redentor vive

191Então, respondeu Jó:

2Até quando afligireis a minha alma

e me quebrantareis com palavras?

3Já dez vezes me vituperastes

e não vos envergonhais de injuriar-me.

4Embora haja eu, na verdade, errado,

comigo ficará o meu erro.

5Se quereis engrandecer-vos contra mim

e me arguis pelo meu opróbrio,

6sabei agora que Deus é que me oprimiu

e com a sua rede me cercou.

7Eis que clamo: violência! Mas não sou ouvido;

grito: socorro! Porém não há justiça.

8O meu caminho ele fechou, e não posso passar;

e nas minhas veredas pôs trevas.

9Da minha honra me despojou

e tirou-me da cabeça a coroa.

10Arruinou-me de todos os lados, e eu me vou;

e arrancou-me a esperança, como a uma árvore.

11Inflamou contra mim a sua ira

e me tem na conta de seu adversário.

12Juntas vieram as suas tropas,

prepararam contra mim o seu caminho

e se acamparam ao redor da minha tenda.

13Pôs longe de mim a meus irmãos,

e os que me conhecem, como estranhos, se apartaram de mim.

14Os meus parentes me desampararam,

e os meus conhecidos se esqueceram de mim.

15Os que se abrigam na minha casa

e as minhas servas me têm por estranho,

e vim a ser estrangeiro aos seus olhos.

16Chamo o meu criado, e ele não me responde;

tenho de suplicar-lhe, eu mesmo.

17O meu hálito é intolerável à minha mulher,

e pelo mau cheiro sou repugnante aos filhos de minha mãe.

18Até as crianças me desprezam,

e, querendo eu levantar-me, zombam de mim.

19Todos os meus amigos íntimos me abominam,

e até os que eu amava se tornaram contra mim.

20Os meus ossos se apegam à minha pele e à minha carne,

e salvei-me só com a pele dos meus dentes.

21Compadecei-vos de mim, amigos meus,

compadecei-vos de mim, porque a mão de Deus me atingiu.

22Por que me perseguis como Deus me persegue

e não cessais de devorar a minha carne?

23Quem me dera fossem agora escritas as minhas palavras!

Quem me dera fossem gravadas em livro!

24Que, com pena de ferro e com chumbo,

para sempre fossem esculpidas na rocha!

25Porque eu sei que o meu Redentor vive

e por fim se levantará sobre a terra.

26Depois, revestido este meu corpo da minha pele,

em minha carne verei a Deus.

27Vê-lo-ei por mim mesmo,

os meus olhos o verão, e não outros;

de saudade me desfalece o coração dentro de mim.

28Se disserdes: Como o perseguiremos?

E: A causa deste mal se acha nele,

29temei, pois, a espada,

porque tais acusações merecem o seu furor,

para saberdes que há um juízo.

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