Almeida Revista e Atualizada (1993) (ARA)
16

Jó se queixa do trato de Deus

161Então, respondeu Jó:

2Tenho ouvido muitas coisas como estas;

todos vós sois consoladores molestos.

3Porventura, não terão fim essas palavras de vento?

Ou que é que te instiga para responderes assim?

4Eu também poderia falar como vós falais;

se a vossa alma estivesse em lugar da minha,

eu poderia dirigir-vos um montão de palavras

e menear contra vós outros a minha cabeça;

5poderia fortalecer-vos com as minhas palavras,

e a compaixão dos meus lábios abrandaria a vossa dor.

6Se eu falar, a minha dor não cessa;

se me calar, qual é o meu alívio?

7Na verdade, as minhas forças estão exaustas;

tu, ó Deus, destruíste a minha família toda.

8Testemunha disto é que já me tornaste encarquilhado,

a minha magreza já se levanta contra mim

e me acusa cara a cara.

9Na sua ira me despedaçou e tem animosidade contra mim;

contra mim rangeu os dentes

e, como meu adversário, aguça os olhos.

10Homens abrem contra mim a boca,

com desprezo me esbofeteiam,

e contra mim todos se ajuntam.

11Deus me entrega ao ímpio

e nas mãos dos perversos me faz cair.

12Em paz eu vivia, porém ele me quebrantou;

pegou-me pelo pescoço e me despedaçou;

pôs-me por seu alvo.

13Cercam-me as suas flechas,

atravessa-me os rins, e não me poupa,

e o meu fel derrama na terra.

14Fere-me com ferimento sobre ferimento,

arremete contra mim como um guerreiro.

15Cosi sobre a minha pele o cilício

e revolvi o meu orgulho no pó.

16O meu rosto está todo afogueado de chorar,

e sobre as minhas pálpebras está a sombra da morte,

17embora não haja violência nas minhas mãos,

e seja pura a minha oração.

18Ó terra, não cubras o meu sangue,

e não haja lugar em que se oculte o meu clamor!

19Já agora sabei que a minha testemunha está no céu,

e, nas alturas, quem advoga a minha causa.

20Os meus amigos zombam de mim,

mas os meus olhos se desfazem em lágrimas diante de Deus,

21para que ele mantenha o direito do homem contra o próprio Deus

e o do filho do homem contra o seu próximo.

22Porque dentro de poucos anos

eu seguirei o caminho de onde não tornarei.

17

Jó nada mais espera desta vida

171O meu espírito se vai consumindo,

os meus dias se vão apagando,

e só tenho perante mim a sepultura.

2Estou, de fato, cercado de zombadores,

e os meus olhos são obrigados a lhes contemplar a provocação.

3Dá-me, pois, um penhor; sê o meu fiador para contigo mesmo;

quem mais haverá que se possa comprometer comigo?

4Porque ao seu coração encobriste o entendimento,

pelo que não os exaltarás.

5Se alguém oferece os seus amigos como presa,

os olhos de seus filhos desfalecerão.

6Mas a mim me pôs por provérbio dos povos;

tornei-me como aquele em cujo rosto se cospe.

7Pelo que já se escureceram de mágoa os meus olhos,

e já todos os meus membros são como a sombra;

8os retos pasmam disto,

e o inocente se levanta contra o ímpio.

9Contudo, o justo segue o seu caminho,

e o puro de mãos cresce mais e mais em força.

10Mas tornai-vos, todos vós, e vinde cá;

porque sábio nenhum acharei entre vós.

11Os meus dias passaram, e se malograram os meus propósitos,

as aspirações do meu coração.

12Convertem-me a noite em dia,

e a luz, dizem, está perto das trevas.

13Mas, se eu aguardo já a sepultura por minha casa;

se nas trevas estendo a minha cama;

14se ao sepulcro eu clamo: tu és meu pai;

e aos vermes: vós sois minha mãe e minha irmã,

15onde está, pois, a minha esperança?

Sim, a minha esperança, quem a poderá ver?

16Ela descerá até às portas da morte,

quando juntamente no pó teremos descanso.

18

Bildade descreve a sorte do perverso

181Então, respondeu Bildade, o suíta:

2Até quando andarás à caça de palavras?

Considera bem, e, então, falaremos.

3Por que somos reputados por animais,

e aos teus olhos passamos por curtos de inteligência?

4Oh! Tu, que te despedaças na tua ira,

será a terra abandonada por tua causa?

Remover-se-ão as rochas do seu lugar?

5Na verdade, a luz do perverso se apagará,

e para seu fogo não resplandecerá a faísca;

6a luz se escurecerá nas suas tendas,

e a sua lâmpada sobre ele se apagará;

7os seus passos fortes se estreitarão,

e a sua própria trama o derribará.

8Porque por seus próprios pés é lançado na rede

e andará na boca de forje.

9A armadilha o apanhará pelo calcanhar,

e o laço o prenderá.

10A corda está-lhe escondida na terra,

e a armadilha, na vereda.

11Os assombros o espantarão de todos os lados

e o perseguirão a cada passo.

12A calamidade virá faminta sobre ele,

e a miséria estará alerta ao seu lado,

13a qual lhe devorará os membros do corpo;

serão devorados pelo primogênito da morte.

14O perverso será arrancado da sua tenda, onde está confiado,

e será levado ao rei dos terrores.

15Nenhum dos seus morará na sua tenda,

espalhar-se-á enxofre sobre a sua habitação.

16Por baixo secarão as suas raízes,

e murcharão por cima os seus ramos.

17A sua memória desaparecerá da terra,

e pelas praças não terá nome.

18Da luz o lançarão nas trevas

e o afugentarão do mundo.

19Não terá filho nem posteridade entre o seu povo,

nem sobrevivente algum ficará nas suas moradas.

20Do seu dia se espantarão os do Ocidente,

e os do Oriente serão tomados de horror.

21Tais são, na verdade, as moradas do perverso,

e este é o paradeiro do que não conhece a Deus.