Almeida Revista e Atualizada (1993) (ARA)
15

Elifaz acusa a Jó de impiedade

151Então, respondeu Elifaz, o temanita:

2Porventura, dará o sábio em resposta ciência de vento?

E encher-se-á a si mesmo de vento oriental,

3arguindo com palavras que de nada servem

e com razões de que nada aproveita?

4Tornas vão o temor de Deus

e diminuis a devoção a ele devida.

5Pois a tua iniquidade ensina à tua boca,

e tu escolheste a língua dos astutos.

6A tua própria boca te condena, e não eu;

os teus lábios testificam contra ti.

7És tu, porventura, o primeiro homem que nasceu?

Ou foste formado antes dos outeiros?

8Ou ouviste o secreto conselho de Deus

e a ti só limitaste a sabedoria?

9Que sabes tu, que nós não saibamos?

Que entendes, que não haja em nós?

10Também há entre nós encanecidos e idosos,

muito mais idosos do que teu pai.

11Porventura, fazes pouco caso das consolações de Deus

e das suaves palavras que te dirigimos nós?

12Por que te arrebata o teu coração?

Por que flamejam os teus olhos,

13para voltares contra Deus o teu furor

e deixares sair tais palavras da tua boca?

14Que é o homem, para que seja puro?

E o que nasce de mulher, para ser justo?

15Eis que Deus não confia nem nos seus santos;

nem os céus são puros aos seus olhos,

16quanto menos o homem, que é abominável e corrupto,

que bebe a iniquidade como a água!

Elifaz mostra o justo castigo dos perversos

17Escuta-me, mostrar-to-ei;

e o que tenho visto te contarei,

18o que os sábios anunciaram,

que o ouviram de seus pais e não o ocultaram

19(aos quais somente se dera a terra,

e nenhum estranho passou por entre eles):

20Todos os dias o perverso é atormentado,

no curto número de anos que se reservam para o opressor.

21O sonido dos horrores está nos seus ouvidos;

na prosperidade lhe sobrevém o assolador.

22Não crê que tornará das trevas,

e sim que o espera a espada.

23Por pão anda vagueando, dizendo: Onde está?

Bem sabe que o dia das trevas lhe está preparado, à mão.

24Assombram-no a angústia e a tribulação;

prevalecem contra ele, como o rei preparado para a peleja,

25porque estendeu a mão contra Deus

e desafiou o Todo-Poderoso;

26arremete contra ele obstinadamente,

atrás da grossura dos seus escudos,

27porquanto cobriu o rosto com a sua gordura

e criou enxúndia nas ilhargas;

28habitou em cidades assoladas,

em casas em que ninguém devia morar,

que estavam destinadas a se fazerem montões de ruínas.

29Por isso, não se enriquecerá, nem subsistirá a sua fazenda,

nem se estenderão seus bens pela terra.

30Não escapará das trevas;

a chama do fogo secará os seus renovos,

e ao assopro da boca de Deus será arrebatado.

31Não confie, pois, na vaidade, enganando-se a si mesmo,

porque a vaidade será a sua recompensa.

32Esta se lhe consumará antes dos seus dias,

e o seu ramo não reverdecerá.

33Sacudirá as suas uvas verdes, como a vide,

e deixará cair a sua flor, como a oliveira;

34pois a companhia dos ímpios será estéril,

e o fogo consumirá as tendas de suborno.

35Concebem a malícia e dão à luz a iniquidade,

pois o seu coração só prepara enganos.

16

Jó se queixa do trato de Deus

161Então, respondeu Jó:

2Tenho ouvido muitas coisas como estas;

todos vós sois consoladores molestos.

3Porventura, não terão fim essas palavras de vento?

Ou que é que te instiga para responderes assim?

4Eu também poderia falar como vós falais;

se a vossa alma estivesse em lugar da minha,

eu poderia dirigir-vos um montão de palavras

e menear contra vós outros a minha cabeça;

5poderia fortalecer-vos com as minhas palavras,

e a compaixão dos meus lábios abrandaria a vossa dor.

6Se eu falar, a minha dor não cessa;

se me calar, qual é o meu alívio?

7Na verdade, as minhas forças estão exaustas;

tu, ó Deus, destruíste a minha família toda.

8Testemunha disto é que já me tornaste encarquilhado,

a minha magreza já se levanta contra mim

e me acusa cara a cara.

9Na sua ira me despedaçou e tem animosidade contra mim;

contra mim rangeu os dentes

e, como meu adversário, aguça os olhos.

10Homens abrem contra mim a boca,

com desprezo me esbofeteiam,

e contra mim todos se ajuntam.

11Deus me entrega ao ímpio

e nas mãos dos perversos me faz cair.

12Em paz eu vivia, porém ele me quebrantou;

pegou-me pelo pescoço e me despedaçou;

pôs-me por seu alvo.

13Cercam-me as suas flechas,

atravessa-me os rins, e não me poupa,

e o meu fel derrama na terra.

14Fere-me com ferimento sobre ferimento,

arremete contra mim como um guerreiro.

15Cosi sobre a minha pele o cilício

e revolvi o meu orgulho no pó.

16O meu rosto está todo afogueado de chorar,

e sobre as minhas pálpebras está a sombra da morte,

17embora não haja violência nas minhas mãos,

e seja pura a minha oração.

18Ó terra, não cubras o meu sangue,

e não haja lugar em que se oculte o meu clamor!

19Já agora sabei que a minha testemunha está no céu,

e, nas alturas, quem advoga a minha causa.

20Os meus amigos zombam de mim,

mas os meus olhos se desfazem em lágrimas diante de Deus,

21para que ele mantenha o direito do homem contra o próprio Deus

e o do filho do homem contra o seu próximo.

22Porque dentro de poucos anos

eu seguirei o caminho de onde não tornarei.

17

Jó nada mais espera desta vida

171O meu espírito se vai consumindo,

os meus dias se vão apagando,

e só tenho perante mim a sepultura.

2Estou, de fato, cercado de zombadores,

e os meus olhos são obrigados a lhes contemplar a provocação.

3Dá-me, pois, um penhor; sê o meu fiador para contigo mesmo;

quem mais haverá que se possa comprometer comigo?

4Porque ao seu coração encobriste o entendimento,

pelo que não os exaltarás.

5Se alguém oferece os seus amigos como presa,

os olhos de seus filhos desfalecerão.

6Mas a mim me pôs por provérbio dos povos;

tornei-me como aquele em cujo rosto se cospe.

7Pelo que já se escureceram de mágoa os meus olhos,

e já todos os meus membros são como a sombra;

8os retos pasmam disto,

e o inocente se levanta contra o ímpio.

9Contudo, o justo segue o seu caminho,

e o puro de mãos cresce mais e mais em força.

10Mas tornai-vos, todos vós, e vinde cá;

porque sábio nenhum acharei entre vós.

11Os meus dias passaram, e se malograram os meus propósitos,

as aspirações do meu coração.

12Convertem-me a noite em dia,

e a luz, dizem, está perto das trevas.

13Mas, se eu aguardo já a sepultura por minha casa;

se nas trevas estendo a minha cama;

14se ao sepulcro eu clamo: tu és meu pai;

e aos vermes: vós sois minha mãe e minha irmã,

15onde está, pois, a minha esperança?

Sim, a minha esperança, quem a poderá ver?

16Ela descerá até às portas da morte,

quando juntamente no pó teremos descanso.

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