Almeida Revista e Atualizada (1993) (ARA)
12

Jó se defende das acusações de seus amigos

121Então, Jó respondeu:

2Na verdade, vós sois o povo,

e convosco morrerá a sabedoria.

3Também eu tenho entendimento como vós;

eu não vos sou inferior;

quem não sabe coisas como essas?

4Eu sou irrisão para os meus amigos;

eu, que invocava a Deus, e ele me respondia;

o justo e o reto servem de irrisão.

5No pensamento de quem está seguro, há desprezo para o infortúnio,

um empurrão para aquele cujos pés já vacilam.

6As tendas dos tiranos gozam paz,

e os que provocam a Deus estão seguros;

têm o punho por seu deus.

7Mas pergunta agora às alimárias, e cada uma delas to ensinará;

e às aves dos céus, e elas to farão saber.

8Ou fala com a terra, e ela te instruirá;

até os peixes do mar to contarão.

9Qual entre todos estes não sabe

que a mão do Senhor fez isto?

10Na sua mão está a alma de todo ser vivente

e o espírito de todo o gênero humano.

11Porventura, o ouvido não submete à prova as palavras,

como o paladar prova as comidas?

12Está a sabedoria com os idosos,

e, na longevidade, o entendimento?

13Não! Com Deus está a sabedoria e a força;

ele tem conselho e entendimento.

14O que ele deitar abaixo não se reedificará;

lança na prisão, e ninguém a pode abrir.

15Se retém as águas, elas secam;

se as larga, devastam a terra.

16Com ele está a força e a sabedoria;

seu é o que erra e o que faz errar.

17Aos conselheiros, leva-os despojados do seu cargo

e aos juízes faz desvairar.

18Dissolve a autoridade dos reis,

e uma corda lhes cinge os lombos.

19Aos sacerdotes, leva-os despojados do seu cargo

e aos poderosos transtorna.

20Aos eloquentes ele tira a palavra

e tira o entendimento aos anciãos.

21Lança desprezo sobre os príncipes

e afrouxa o cinto dos fortes.

22Das trevas manifesta coisas profundas

e traz à luz a densa escuridade.

23Multiplica as nações e as faz perecer;

dispersa-as e de novo as congrega.

24Tira o entendimento aos príncipes do povo da terra

e os faz vaguear pelos desertos sem caminho.

25Nas trevas andam às apalpadelas, sem terem luz,

e os faz cambalear como ébrios.

13

Jó defende a sua integridade

131Eis que tudo isso viram os meus olhos,

e os meus ouvidos o ouviram e entenderam.

2Como vós o sabeis, também eu o sei;

não vos sou inferior.

3Mas falarei ao Todo-Poderoso

e quero defender-me perante Deus.

4Vós, porém, besuntais a verdade com mentiras

e vós todos sois médicos que não valem nada.

5Tomara vos calásseis de todo,

que isso seria a vossa sabedoria!

6Ouvi agora a minha defesa

e atentai para os argumentos dos meus lábios.

7Porventura, falareis perversidade em favor de Deus

e a seu favor falareis mentiras?

8Sereis parciais por ele?

Contendereis a favor de Deus?

9Ser-vos-ia bom, se ele vos esquadrinhasse?

Ou zombareis dele, como se zomba de um homem qualquer?

10Acerbamente vos repreenderá,

se em oculto fordes parciais.

11Porventura, não vos amedrontará a sua dignidade,

e não cairá sobre vós o seu terror?

12As vossas máximas são como provérbios de cinza,

os vossos baluartes, baluartes de barro.

13Calai-vos perante mim, e falarei eu,

e venha sobre mim o que vier.

14Tomarei a minha carne nos meus dentes

e porei a vida na minha mão.

15Eis que me matará, já não tenho esperança;

contudo, defenderei o meu procedimento.

16Também isto será a minha salvação,

o fato de o ímpio não vir perante ele.

17Atentai para as minhas razões

e dai ouvidos à minha exposição.

18Tenho já bem-encaminhada minha causa

e estou certo de que serei justificado.

19Quem há que possa contender comigo?

Neste caso, eu me calaria e renderia o espírito.

20Concede-me somente duas coisas;

então, me não esconderei do teu rosto:

21alivia a tua mão de sobre mim,

e não me espante o teu terror.

22Interpela-me, e te responderei

ou deixa-me falar e tu me responderás.

23Quantas culpas e pecados tenho eu?

Notifica-me a minha transgressão e o meu pecado.

24Por que escondes o rosto

e me tens por teu inimigo?

25Queres aterrorizar uma folha arrebatada pelo vento?

E perseguirás a palha seca?

26Pois decretas contra mim coisas amargas

e me atribuis as culpas da minha mocidade.

27Também pões os meus pés no tronco,

observas todos os meus caminhos

e traças limites à planta dos meus pés,

28apesar de eu ser como uma coisa podre que se consome

e como a roupa que é comida da traça.

14

Jó medita sobre a brevidade da vida

141O homem, nascido de mulher, vive breve tempo, cheio de inquietação.

2Nasce como a flor e murcha;

foge como a sombra e não permanece;

3e sobre tal homem abres os olhos

e o fazes entrar em juízo contigo?

4Quem da imundícia poderá tirar coisa pura?

Ninguém!

5Visto que os seus dias estão contados,

contigo está o número dos seus meses;

tu ao homem puseste limites

além dos quais não passará.

6Desvia dele os olhares, para que tenha repouso,

até que, como o jornaleiro, tenha prazer no seu dia.

7Porque há esperança para a árvore,

pois, mesmo cortada, ainda se renovará,

e não cessarão os seus rebentos.

8Se envelhecer na terra a sua raiz,

e no chão morrer o seu tronco,

9ao cheiro das águas brotará

e dará ramos como a planta nova.

10O homem, porém, morre e fica prostrado;

expira o homem e onde está?

11Como as águas do lago se evaporam,

e o rio se esgota e seca,

12assim o homem se deita e não se levanta;

enquanto existirem os céus, não acordará,

nem será despertado do seu sono.

13Que me encobrisses na sepultura

e me ocultasses até que a tua ira se fosse,

e me pusesses um prazo

e depois te lembrasses de mim!

14Morrendo o homem, porventura tornará a viver?

Todos os dias da minha luta esperaria,

até que eu fosse substituído.

15Chamar-me-ias, e eu te responderia;

terias saudades da obra de tuas mãos;

16e até contarias os meus passos

e não levarias em conta os meus pecados.

17A minha transgressão estaria selada num saco,

e terias encoberto as minhas iniquidades.

18Como o monte que se esboroa e se desfaz,

e a rocha que se remove do seu lugar,

19como as águas gastam as pedras,

e as cheias arrebatam o pó da terra,

assim destróis a esperança do homem.

20Tu prevaleces para sempre contra ele, e ele passa,

mudas-lhe o semblante e o despedes para o além.

21Os seus filhos recebem honras, e ele o não sabe;

são humilhados, e ele o não percebe.

22Ele sente as dores apenas de seu próprio corpo,

e só a seu respeito sofre a sua alma.