Almeida Revista e Atualizada (1993) (ARA)
11

Zofar acusa a Jó de iniquidade

111Então, respondeu Zofar, o naamatita:

2Porventura, não se dará resposta a esse palavrório?

Acaso, tem razão o tagarela?

3Será o caso de as tuas parolas fazerem calar os homens?

E zombarás tu sem que ninguém te envergonhe?

4Pois dizes: A minha doutrina é pura,

e sou limpo aos teus olhos.

5Oh! Falasse Deus,

e abrisse os seus lábios contra ti,

6e te revelasse os segredos da sabedoria,

da verdadeira sabedoria, que é multiforme!

Sabe, portanto, que Deus permite seja esquecida parte da tua iniquidade.

7Porventura, desvendarás os arcanos de Deus

ou penetrarás até à perfeição do Todo-Poderoso?

8Como as alturas dos céus é a sua sabedoria;

que poderás fazer?

Mais profunda é ela do que o abismo;

que poderás saber?

9A sua medida é mais longa do que a terra

e mais larga do que o mar.

10Se ele passa, prende a alguém e chama a juízo,

quem o poderá impedir?

11Porque ele conhece os homens vãos

e, sem esforço, vê a iniquidade.

12Mas o homem estúpido se tornará sábio,

quando a cria de um asno montês nascer homem.

13Se dispuseres o coração

e estenderes as mãos para Deus;

14se lançares para longe a iniquidade da tua mão

e não permitires habitar na tua tenda a injustiça,

15então, levantarás o rosto sem mácula,

estarás seguro e não temerás.

16Pois te esquecerás dos teus sofrimentos

e deles só terás lembrança como de águas que passaram.

17A tua vida será mais clara que o meio-dia;

ainda que lhe haja trevas, serão como a manhã.

18Sentir-te-ás seguro, porque haverá esperança;

olharás em derredor e dormirás tranquilo.

19Deitar-te-ás, e ninguém te espantará;

e muitos procurarão obter o teu favor.

20Mas os olhos dos perversos desfalecerão,

o seu refúgio perecerá;

sua esperança será o render do espírito.

12

Jó se defende das acusações de seus amigos

121Então, Jó respondeu:

2Na verdade, vós sois o povo,

e convosco morrerá a sabedoria.

3Também eu tenho entendimento como vós;

eu não vos sou inferior;

quem não sabe coisas como essas?

4Eu sou irrisão para os meus amigos;

eu, que invocava a Deus, e ele me respondia;

o justo e o reto servem de irrisão.

5No pensamento de quem está seguro, há desprezo para o infortúnio,

um empurrão para aquele cujos pés já vacilam.

6As tendas dos tiranos gozam paz,

e os que provocam a Deus estão seguros;

têm o punho por seu deus.

7Mas pergunta agora às alimárias, e cada uma delas to ensinará;

e às aves dos céus, e elas to farão saber.

8Ou fala com a terra, e ela te instruirá;

até os peixes do mar to contarão.

9Qual entre todos estes não sabe

que a mão do Senhor fez isto?

10Na sua mão está a alma de todo ser vivente

e o espírito de todo o gênero humano.

11Porventura, o ouvido não submete à prova as palavras,

como o paladar prova as comidas?

12Está a sabedoria com os idosos,

e, na longevidade, o entendimento?

13Não! Com Deus está a sabedoria e a força;

ele tem conselho e entendimento.

14O que ele deitar abaixo não se reedificará;

lança na prisão, e ninguém a pode abrir.

15Se retém as águas, elas secam;

se as larga, devastam a terra.

16Com ele está a força e a sabedoria;

seu é o que erra e o que faz errar.

17Aos conselheiros, leva-os despojados do seu cargo

e aos juízes faz desvairar.

18Dissolve a autoridade dos reis,

e uma corda lhes cinge os lombos.

19Aos sacerdotes, leva-os despojados do seu cargo

e aos poderosos transtorna.

20Aos eloquentes ele tira a palavra

e tira o entendimento aos anciãos.

21Lança desprezo sobre os príncipes

e afrouxa o cinto dos fortes.

22Das trevas manifesta coisas profundas

e traz à luz a densa escuridade.

23Multiplica as nações e as faz perecer;

dispersa-as e de novo as congrega.

24Tira o entendimento aos príncipes do povo da terra

e os faz vaguear pelos desertos sem caminho.

25Nas trevas andam às apalpadelas, sem terem luz,

e os faz cambalear como ébrios.

13

Jó defende a sua integridade

131Eis que tudo isso viram os meus olhos,

e os meus ouvidos o ouviram e entenderam.

2Como vós o sabeis, também eu o sei;

não vos sou inferior.

3Mas falarei ao Todo-Poderoso

e quero defender-me perante Deus.

4Vós, porém, besuntais a verdade com mentiras

e vós todos sois médicos que não valem nada.

5Tomara vos calásseis de todo,

que isso seria a vossa sabedoria!

6Ouvi agora a minha defesa

e atentai para os argumentos dos meus lábios.

7Porventura, falareis perversidade em favor de Deus

e a seu favor falareis mentiras?

8Sereis parciais por ele?

Contendereis a favor de Deus?

9Ser-vos-ia bom, se ele vos esquadrinhasse?

Ou zombareis dele, como se zomba de um homem qualquer?

10Acerbamente vos repreenderá,

se em oculto fordes parciais.

11Porventura, não vos amedrontará a sua dignidade,

e não cairá sobre vós o seu terror?

12As vossas máximas são como provérbios de cinza,

os vossos baluartes, baluartes de barro.

13Calai-vos perante mim, e falarei eu,

e venha sobre mim o que vier.

14Tomarei a minha carne nos meus dentes

e porei a vida na minha mão.

15Eis que me matará, já não tenho esperança;

contudo, defenderei o meu procedimento.

16Também isto será a minha salvação,

o fato de o ímpio não vir perante ele.

17Atentai para as minhas razões

e dai ouvidos à minha exposição.

18Tenho já bem-encaminhada minha causa

e estou certo de que serei justificado.

19Quem há que possa contender comigo?

Neste caso, eu me calaria e renderia o espírito.

20Concede-me somente duas coisas;

então, me não esconderei do teu rosto:

21alivia a tua mão de sobre mim,

e não me espante o teu terror.

22Interpela-me, e te responderei

ou deixa-me falar e tu me responderás.

23Quantas culpas e pecados tenho eu?

Notifica-me a minha transgressão e o meu pecado.

24Por que escondes o rosto

e me tens por teu inimigo?

25Queres aterrorizar uma folha arrebatada pelo vento?

E perseguirás a palha seca?

26Pois decretas contra mim coisas amargas

e me atribuis as culpas da minha mocidade.

27Também pões os meus pés no tronco,

observas todos os meus caminhos

e traças limites à planta dos meus pés,

28apesar de eu ser como uma coisa podre que se consome

e como a roupa que é comida da traça.