Almeida Revista e Atualizada (1993) (ARA)
10

Jó protesta contra a severidade de Deus

101A minha alma tem tédio à minha vida;

darei livre curso à minha queixa,

falarei com amargura da minha alma.

2Direi a Deus: Não me condenes;

faze-me saber por que contendes comigo.

3Parece-te bem que me oprimas,

que rejeites a obra das tuas mãos

e favoreças o conselho dos perversos?

4Tens tu olhos de carne?

Acaso, vês tu como vê o homem?

5São os teus dias como os dias do mortal?

Ou são os teus anos como os anos de um homem,

6para te informares da minha iniquidade

e averiguares o meu pecado?

7Bem sabes tu que eu não sou culpado;

todavia, ninguém há que me livre da tua mão.

8As tuas mãos me plasmaram e me aperfeiçoaram,

porém, agora, queres devorar-me.

9Lembra-te de que me formaste como em barro;

e queres, agora, reduzir-me a pó?

10Porventura, não me derramaste como leite

e não me coalhaste como queijo?

11De pele e carne me vestiste

e de ossos e tendões me entreteceste.

12Vida me concedeste na tua benevolência,

e o teu cuidado a mim me guardou.

13Estas coisas, as ocultaste no teu coração;

mas bem sei o que resolveste contigo mesmo.

14Se eu pecar, tu me observas;

e da minha iniquidade não me perdoarás.

15Se for perverso, ai de mim!

E, se for justo, não ouso levantar a cabeça,

pois estou cheio de ignomínia

e olho para a minha miséria.

16Porque, se a levanto, tu me caças como a um leão feroz

e de novo revelas poder maravilhoso contra mim.

17Tu renovas contra mim as tuas testemunhas

e multiplicas contra mim a tua ira;

males e lutas se sucedem contra mim.

18Por que, pois, me tiraste da madre?

Ah! Se eu morresse antes que olhos nenhuns me vissem!

19Teria eu sido como se nunca existira

e já do ventre teria sido levado à sepultura.

20Não são poucos os meus dias?

Cessa, pois, e deixa-me,

para que por um pouco eu tome alento,

21antes que eu vá para o lugar de que não voltarei,

para a terra das trevas e da sombra da morte;

22terra de negridão, de profunda escuridade,

terra da sombra da morte e do caos,

onde a própria luz é tenebrosa.

11

Zofar acusa a Jó de iniquidade

111Então, respondeu Zofar, o naamatita:

2Porventura, não se dará resposta a esse palavrório?

Acaso, tem razão o tagarela?

3Será o caso de as tuas parolas fazerem calar os homens?

E zombarás tu sem que ninguém te envergonhe?

4Pois dizes: A minha doutrina é pura,

e sou limpo aos teus olhos.

5Oh! Falasse Deus,

e abrisse os seus lábios contra ti,

6e te revelasse os segredos da sabedoria,

da verdadeira sabedoria, que é multiforme!

Sabe, portanto, que Deus permite seja esquecida parte da tua iniquidade.

7Porventura, desvendarás os arcanos de Deus

ou penetrarás até à perfeição do Todo-Poderoso?

8Como as alturas dos céus é a sua sabedoria;

que poderás fazer?

Mais profunda é ela do que o abismo;

que poderás saber?

9A sua medida é mais longa do que a terra

e mais larga do que o mar.

10Se ele passa, prende a alguém e chama a juízo,

quem o poderá impedir?

11Porque ele conhece os homens vãos

e, sem esforço, vê a iniquidade.

12Mas o homem estúpido se tornará sábio,

quando a cria de um asno montês nascer homem.

13Se dispuseres o coração

e estenderes as mãos para Deus;

14se lançares para longe a iniquidade da tua mão

e não permitires habitar na tua tenda a injustiça,

15então, levantarás o rosto sem mácula,

estarás seguro e não temerás.

16Pois te esquecerás dos teus sofrimentos

e deles só terás lembrança como de águas que passaram.

17A tua vida será mais clara que o meio-dia;

ainda que lhe haja trevas, serão como a manhã.

18Sentir-te-ás seguro, porque haverá esperança;

olharás em derredor e dormirás tranquilo.

19Deitar-te-ás, e ninguém te espantará;

e muitos procurarão obter o teu favor.

20Mas os olhos dos perversos desfalecerão,

o seu refúgio perecerá;

sua esperança será o render do espírito.

12

Jó se defende das acusações de seus amigos

121Então, Jó respondeu:

2Na verdade, vós sois o povo,

e convosco morrerá a sabedoria.

3Também eu tenho entendimento como vós;

eu não vos sou inferior;

quem não sabe coisas como essas?

4Eu sou irrisão para os meus amigos;

eu, que invocava a Deus, e ele me respondia;

o justo e o reto servem de irrisão.

5No pensamento de quem está seguro, há desprezo para o infortúnio,

um empurrão para aquele cujos pés já vacilam.

6As tendas dos tiranos gozam paz,

e os que provocam a Deus estão seguros;

têm o punho por seu deus.

7Mas pergunta agora às alimárias, e cada uma delas to ensinará;

e às aves dos céus, e elas to farão saber.

8Ou fala com a terra, e ela te instruirá;

até os peixes do mar to contarão.

9Qual entre todos estes não sabe

que a mão do Senhor fez isto?

10Na sua mão está a alma de todo ser vivente

e o espírito de todo o gênero humano.

11Porventura, o ouvido não submete à prova as palavras,

como o paladar prova as comidas?

12Está a sabedoria com os idosos,

e, na longevidade, o entendimento?

13Não! Com Deus está a sabedoria e a força;

ele tem conselho e entendimento.

14O que ele deitar abaixo não se reedificará;

lança na prisão, e ninguém a pode abrir.

15Se retém as águas, elas secam;

se as larga, devastam a terra.

16Com ele está a força e a sabedoria;

seu é o que erra e o que faz errar.

17Aos conselheiros, leva-os despojados do seu cargo

e aos juízes faz desvairar.

18Dissolve a autoridade dos reis,

e uma corda lhes cinge os lombos.

19Aos sacerdotes, leva-os despojados do seu cargo

e aos poderosos transtorna.

20Aos eloquentes ele tira a palavra

e tira o entendimento aos anciãos.

21Lança desprezo sobre os príncipes

e afrouxa o cinto dos fortes.

22Das trevas manifesta coisas profundas

e traz à luz a densa escuridade.

23Multiplica as nações e as faz perecer;

dispersa-as e de novo as congrega.

24Tira o entendimento aos príncipes do povo da terra

e os faz vaguear pelos desertos sem caminho.

25Nas trevas andam às apalpadelas, sem terem luz,

e os faz cambalear como ébrios.

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