Almeida Revista e Atualizada (1993) (ARA)
8

A mulher adúltera

81Jesus, entretanto, foi para o monte das Oliveiras. 2De madrugada, voltou novamente para o templo, e todo o povo ia ter com ele; e, assentado, os ensinava. 3Os escribas e fariseus trouxeram à sua presença uma mulher surpreendida em adultério e, fazendo-a ficar de pé no meio de todos, 4disseram a Jesus: Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério. 5E na lei nos mandou Moisés que tais mulheres sejam apedrejadas;

8.5
Lv 20.10
Dt 22.22-24
tu, pois, que dizes? 6Isto diziam eles tentando-o, para terem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia na terra com o dedo. 7Como insistissem na pergunta, Jesus se levantou e lhes disse: Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra. 8E, tornando a inclinar-se, continuou a escrever no chão. 9Mas, ouvindo eles esta resposta e acusados pela própria consciência, foram-se retirando um por um, a começar pelos mais velhos até aos últimos, ficando só Jesus e a mulher no meio onde estava. 10Erguendo-se Jesus e não vendo a ninguém mais além da mulher, perguntou-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? 11Respondeu ela: Ninguém, Senhor! Então, lhe disse Jesus: Nem eu tampouco te condeno; vai e não peques mais.]

Jesus, a luz do mundo

12De novo, lhes falava Jesus, dizendo: Eu sou a luz do mundo;

8.12
Mt 5.14
Jo 9.5
quem me segue não andará nas trevas; pelo contrário, terá a luz da vida. 13Então, lhe objetaram os fariseus: Tu dás testemunho de ti mesmo;
8.13
Jo 5.31
logo, o teu testemunho não é verdadeiro. 14Respondeu Jesus e disse-lhes: Posto que eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho é verdadeiro, porque sei donde vim e para onde vou; mas vós não sabeis donde venho, nem para onde vou. 15Vós julgais segundo a carne, eu a ninguém julgo. 16Se eu julgo, o meu juízo é verdadeiro, porque não sou eu só, porém eu e aquele que me enviou. 17Também na vossa lei está escrito que o testemunho de duas pessoas é verdadeiro. 18Eu testifico de mim mesmo, e o Pai, que me enviou, também testifica de mim. 19Então, eles lhe perguntaram: Onde está teu Pai? Respondeu Jesus: Não me conheceis a mim nem a meu Pai; se conhecêsseis a mim, também conheceríeis a meu Pai. 20Proferiu ele estas palavras no lugar do gazofilácio, quando ensinava no templo; e ninguém o prendeu, porque não era ainda chegada a sua hora.

Jesus defende a sua missão e autoridade

21De outra feita, lhes falou, dizendo: Vou retirar-me, e vós me procurareis, mas perecereis no vosso pecado; para onde eu vou vós não podeis ir. 22Então, diziam os judeus: Terá ele, acaso, a intenção de suicidar-se? Porque diz: Para onde eu vou vós não podeis ir. 23E prosseguiu: Vós sois cá de baixo, eu sou lá de cima; vós sois deste mundo, eu deste mundo não sou. 24Por isso, eu vos disse que morrereis nos vossos pecados; porque, se não crerdes que Eu Sou, morrereis nos vossos pecados. 25Então, lhe perguntaram: Quem és tu? Respondeu-lhes Jesus: Que é que desde o princípio vos tenho dito? 26Muitas coisas tenho para dizer a vosso respeito e vos julgar; porém aquele que me enviou é verdadeiro, de modo que as coisas que dele tenho ouvido, essas digo ao mundo. 27Eles, porém, não atinaram que lhes falava do Pai. 28Disse-lhes, pois, Jesus: Quando levantardes o Filho do Homem, então, sabereis que Eu Sou e que nada faço por mim mesmo; mas falo como o Pai me ensinou. 29E aquele que me enviou está comigo, não me deixou só, porque eu faço sempre o que lhe agrada. 30Ditas estas coisas, muitos creram nele.

31Disse, pois, Jesus aos judeus que haviam crido nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; 32e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. 33Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão

8.33
Mt 3.9
Lc 3.8
e jamais fomos escravos de alguém; como dizes tu: Sereis livres? 34Replicou-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: todo o que comete pecado é escravo do pecado. 35O escravo não fica sempre na casa; o filho, sim, para sempre. 36Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres. 37Bem sei que sois descendência de Abraão; contudo, procurais matar-me, porque a minha palavra não está em vós. 38Eu falo das coisas que vi junto de meu Pai; vós, porém, fazeis o que vistes em vosso pai.

39Então, lhe responderam: Nosso pai é Abraão. Disse-lhes Jesus: Se sois filhos de Abraão, praticai as obras de Abraão. 40Mas agora procurais matar-me, a mim que vos tenho falado a verdade que ouvi de Deus; assim não procedeu Abraão. 41Vós fazeis as obras de vosso pai. Disseram-lhe eles: Nós não somos bastardos; temos um pai, que é Deus. 42Replicou-lhes Jesus: Se Deus fosse, de fato, vosso pai, certamente, me havíeis de amar; porque eu vim de Deus e aqui estou; pois não vim de mim mesmo, mas ele me enviou. 43Qual a razão por que não compreendeis a minha linguagem? É porque sois incapazes de ouvir a minha palavra. 44Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira. 45Mas, porque eu digo a verdade, não me credes. 46Quem dentre vós me convence de pecado? Se vos digo a verdade, por que razão não me credes? 47Quem é de Deus ouve as palavras de Deus; por isso, não me dais ouvidos, porque não sois de Deus.

48Responderam, pois, os judeus e lhe disseram: Porventura, não temos razão em dizer que és samaritano e tens demônio? 49Replicou Jesus: Eu não tenho demônio; pelo contrário, honro a meu Pai, e vós me desonrais. 50Eu não procuro a minha própria glória; há quem a busque e julgue. 51Em verdade, em verdade vos digo: se alguém guardar a minha palavra, não verá a morte, eternamente. 52Disseram-lhe os judeus: Agora, estamos certos de que tens demônio. Abraão morreu, e também os profetas, e tu dizes: Se alguém guardar a minha palavra, não provará a morte, eternamente. 53És maior do que Abraão, o nosso pai, que morreu? Também os profetas morreram. Quem, pois, te fazes ser? 54Respondeu Jesus: Se eu me glorifico a mim mesmo, a minha glória nada é; quem me glorifica é meu Pai, o qual vós dizeis que é vosso Deus. 55Entretanto, vós não o tendes conhecido; eu, porém, o conheço. Se eu disser que não o conheço, serei como vós: mentiroso; mas eu o conheço e guardo a sua palavra. 56Abraão, vosso pai, alegrou-se por ver o meu dia, viu-o e regozijou-se. 57Perguntaram-lhe, pois, os judeus: Ainda não tens cinquenta anos e viste Abraão? 58Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade eu vos digo: antes que Abraão existisse, Eu Sou. 59Então, pegaram em pedras para atirarem nele; mas Jesus se ocultou e saiu do templo.

9

A cura de um cego de nascença

91Caminhando Jesus, viu um homem cego de nascença. 2E os seus discípulos perguntaram: Mestre, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego? 3Respondeu Jesus: Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus. 4É necessário que façamos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar. 5Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo.

9.5
Mt 5.14
Jo 8.12
6Dito isso, cuspiu na terra e, tendo feito lodo com a saliva, aplicou-o aos olhos do cego, 7dizendo-lhe: Vai, lava-te no tanque de Siloé (que quer dizer Enviado). Ele foi, lavou-se e voltou vendo. 8Então, os vizinhos e os que dantes o conheciam de vista, como mendigo, perguntavam: Não é este o que estava assentado pedindo esmolas? 9Uns diziam: É ele. Outros: Não, mas se parece com ele. Ele mesmo, porém, dizia: Sou eu. 10Perguntaram-lhe, pois: Como te foram abertos os olhos? 11Respondeu ele: O homem chamado Jesus fez lodo, untou-me os olhos e disse-me: Vai ao tanque de Siloé e lava-te. Então, fui, lavei-me e estou vendo. 12Disseram-lhe, pois: Onde está ele? Respondeu: Não sei.

Os fariseus interrogam o cego

13Levaram, pois, aos fariseus o que dantes fora cego. 14E era sábado o dia em que Jesus fez o lodo e lhe abriu os olhos. 15Então, os fariseus, por sua vez, lhe perguntaram como chegara a ver; ao que lhes respondeu: Aplicou lodo aos meus olhos, lavei-me e estou vendo. 16Por isso, alguns dos fariseus diziam: Esse homem não é de Deus, porque não guarda o sábado. Diziam outros: Como pode um homem pecador fazer tamanhos sinais? E houve dissensão entre eles. 17De novo, perguntaram ao cego: Que dizes tu a respeito dele, visto que te abriu os olhos? Que é profeta, respondeu ele.

18Não acreditaram os judeus que ele fora cego e que agora via, enquanto não lhe chamaram os pais 19e os interrogaram: É este o vosso filho, de quem dizeis que nasceu cego? Como, pois, vê agora? 20Então, os pais responderam: Sabemos que este é nosso filho e que nasceu cego; 21mas não sabemos como vê agora; ou quem lhe abriu os olhos também não sabemos. Perguntai a ele, idade tem; falará de si mesmo. 22Isto disseram seus pais porque estavam com medo dos judeus; pois estes já haviam assentado que, se alguém confessasse ser Jesus o Cristo, fosse expulso da sinagoga. 23Por isso, é que disseram os pais: Ele idade tem, interrogai-o.

24Então, chamaram, pela segunda vez, o homem que fora cego e lhe disseram: Dá glória a Deus; nós sabemos que esse homem é pecador. 25Ele retrucou: Se é pecador, não sei; uma coisa sei: eu era cego e agora vejo. 26Perguntaram-lhe, pois: Que te fez ele? como te abriu os olhos? 27Ele lhes respondeu: Já vo-lo disse, e não atendestes; por que quereis ouvir outra vez? Porventura, quereis vós também tornar-vos seus discípulos? 28Então, o injuriaram e lhe disseram: Discípulo dele és tu; mas nós somos discípulos de Moisés. 29Sabemos que Deus falou a Moisés; mas este nem sabemos donde é. 30Respondeu-lhes o homem: Nisto é de estranhar que vós não saibais donde ele é, e, contudo, me abriu os olhos. 31Sabemos que Deus não atende a pecadores; mas, pelo contrário, se alguém teme a Deus e pratica a sua vontade, a este atende. 32Desde que há mundo, jamais se ouviu que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. 33Se este homem não fosse de Deus, nada poderia ter feito. 34Mas eles retrucaram: Tu és nascido todo em pecado e nos ensinas a nós? E o expulsaram.

Jesus revela-se ao cego

35Ouvindo Jesus que o tinham expulsado, encontrando-o, lhe perguntou: Crês tu no Filho do Homem? 36Ele respondeu e disse: Quem é, Senhor, para que eu nele creia? 37E Jesus lhe disse: Já o tens visto, e é o que fala contigo. 38Então, afirmou ele: Creio, Senhor; e o adorou. 39Prosseguiu Jesus: Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não veem vejam, e os que veem se tornem cegos. 40Alguns dentre os fariseus que estavam perto dele perguntaram-lhe: Acaso, também nós somos cegos? 41Respondeu-lhes Jesus: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado algum; mas, porque agora dizeis: Nós vemos, subsiste o vosso pecado.

10

Jesus, o bom pastor

101Em verdade, em verdade vos digo: o que não entra pela porta no aprisco das ovelhas, mas sobe por outra parte, esse é ladrão e salteador. 2Aquele, porém, que entra pela porta, esse é o pastor das ovelhas. 3Para este o porteiro abre, as ovelhas ouvem a sua voz, ele chama pelo nome as suas próprias ovelhas e as conduz para fora. 4Depois de fazer sair todas as que lhe pertencem, vai adiante delas, e elas o seguem, porque lhe reconhecem a voz; 5mas de modo nenhum seguirão o estranho; antes, fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos. 6Jesus lhes propôs esta parábola, mas eles não compreenderam o sentido daquilo que lhes falava.

7Jesus, pois, lhes afirmou de novo: Em verdade, em verdade vos digo: eu sou a porta das ovelhas. 8Todos quantos vieram antes de mim são ladrões e salteadores; mas as ovelhas não lhes deram ouvido. 9Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo; entrará, e sairá, e achará pastagem. 10O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância. 11Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas. 12O mercenário, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê vir o lobo, abandona as ovelhas e foge; então, o lobo as arrebata e dispersa. 13O mercenário foge, porque é mercenário e não tem cuidado com as ovelhas. 14Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem a mim, 15assim como o Pai me conhece

10.15
Mt 11.27
Lc 10.22
a mim, e eu conheço o Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas. 16Ainda tenho outras ovelhas, não deste aprisco; a mim me convém conduzi-las; elas ouvirão a minha voz; então, haverá um rebanho e um pastor. 17Por isso, o Pai me ama, porque eu dou a minha vida para a reassumir. 18Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la. Este mandato recebi de meu Pai.

Nova dissensão entre os judeus

19Por causa dessas palavras, rompeu nova dissensão entre os judeus. 20Muitos deles diziam: Ele tem demônio e enlouqueceu; por que o ouvis? 21Outros diziam: Este modo de falar não é de endemoninhado; pode, porventura, um demônio abrir os olhos aos cegos?

A Festa da Dedicação. Jesus é interrogado

22Celebrava-se em Jerusalém a Festa da Dedicação. Era inverno. 23Jesus passeava no templo, no Pórtico de Salomão. 24Rodearam-no, pois, os judeus e o interpelaram: Até quando nos deixarás a mente em suspenso? Se tu és o Cristo, dize-o francamente. 25Respondeu-lhes Jesus: Já vo-lo disse, e não credes. As obras que eu faço em nome de meu Pai testificam a meu respeito. 26Mas vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas. 27As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. 28Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. 29Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar. 30Eu e o Pai somos um.

31Novamente, pegaram os judeus em pedras para lhe atirar. 32Disse-lhes Jesus: Tenho-vos mostrado muitas obras boas da parte do Pai; por qual delas me apedrejais? 33Responderam-lhe os judeus: Não é por obra boa que te apedrejamos, e sim por causa da blasfêmia,

10.33
Lv 24.16
pois, sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo. 34Replicou-lhes Jesus: Não está escrito na vossa lei:

Eu disse: sois deuses?

10.34
Sl 82.6

35Se ele chamou deuses àqueles a quem foi dirigida a palavra de Deus, e a Escritura não pode falhar, 36então, daquele a quem o Pai santificou e enviou ao mundo, dizeis: Tu blasfemas; porque declarei: sou Filho de Deus? 37Se não faço as obras de meu Pai, não me acrediteis; 38mas, se faço, e não me credes, crede nas obras; para que possais saber e compreender que o Pai está em mim, e eu estou no Pai. 39Nesse ponto, procuravam, outra vez, prendê-lo; mas ele se livrou das suas mãos.

40Novamente, se retirou para além do Jordão, para o lugar onde João batizava no princípio;

10.40
Jo 1.28
e ali permaneceu. 41E iam muitos ter com ele e diziam: Realmente, João não fez nenhum sinal, porém tudo quanto disse a respeito deste era verdade. 42E muitos ali creram nele.