Almeida Revista e Atualizada (1993) (ARA)
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José na prisão interpreta dois sonhos

401Passadas estas coisas, aconteceu que o mordomo do rei do Egito e o padeiro ofenderam o seu senhor, o rei do Egito. 2Indignou-se Faraó contra os seus dois oficiais, o copeiro-chefe e o padeiro-chefe. 3E mandou detê-los na casa do comandante da guarda, no cárcere onde José estava preso. 4O comandante da guarda pô-los a cargo de José, para que os servisse; e por algum tempo estiveram na prisão. 5E ambos sonharam, cada um o seu sonho, na mesma noite; cada sonho com a sua própria significação, o copeiro e o padeiro do rei do Egito, que se achavam encarcerados. 6Vindo José, pela manhã, viu-os, e eis que estavam turbados. 7Então, perguntou aos oficiais de Faraó, que com ele estavam no cárcere da casa do seu senhor: Por que tendes, hoje, triste o semblante? 8Eles responderam: Tivemos um sonho, e não há quem o possa interpretar. Disse-lhes José: Porventura, não pertencem a Deus as interpretações? Contai-me o sonho.

O sonho do copeiro-chefe

9Então, o copeiro-chefe contou o seu sonho a José e lhe disse: Em meu sonho havia uma videira perante mim. 10E, na videira, três ramos; ao brotar a vide, havia flores, e seus cachos produziam uvas maduras. 11O copo de Faraó estava na minha mão; tomei as uvas, e as espremi no copo de Faraó, e o dei na própria mão de Faraó. 12Então, lhe disse José: Esta é a sua interpretação: os três ramos são três dias; 13dentro ainda de três dias, Faraó te reabilitará e te reintegrará no teu cargo, e tu lhe darás o copo na própria mão dele, segundo o costume antigo, quando lhe eras copeiro. 14Porém lembra-te de mim, quando tudo te correr bem; e rogo-te que sejas bondoso para comigo, e faças menção de mim a Faraó, e me faças sair desta casa; 15porque, de fato, fui roubado da terra dos hebreus; e, aqui, nada fiz, para que me pusessem nesta masmorra.

O sonho do padeiro-chefe

16Vendo o padeiro-chefe que a interpretação era boa, disse a José: Eu também sonhei, e eis que três cestos de pão alvo me estavam sobre a cabeça; 17e no cesto mais alto havia de todos os manjares de Faraó, arte de padeiro; e as aves os comiam do cesto na minha cabeça. 18Então, lhe disse José: A interpretação é esta: os três cestos são três dias; 19dentro ainda de três dias, Faraó te tirará fora a cabeça e te pendurará num madeiro, e as aves te comerão as carnes.

20No terceiro dia, que era aniversário de nascimento de Faraó, deu este um banquete a todos os seus servos; e, no meio destes, reabilitou o copeiro-chefe e condenou o padeiro-chefe. 21Ao copeiro-chefe reintegrou no seu cargo, no qual dava o copo na mão de Faraó; 22mas ao padeiro-chefe enforcou, como José havia interpretado. 23O copeiro-chefe, todavia, não se lembrou de José, porém dele se esqueceu.

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José interpreta os sonhos de Faraó

411Passados dois anos completos, Faraó teve um sonho. Parecia-lhe achar-se ele de pé junto ao Nilo. 2Do rio subiam sete vacas formosas à vista e gordas e pastavam no carriçal. 3Após elas subiam do rio outras sete vacas, feias à vista e magras; e pararam junto às primeiras, na margem do rio. 4As vacas feias à vista e magras comiam as sete formosas à vista e gordas. Então, acordou Faraó. 5Tornando a dormir, sonhou outra vez. De uma só haste saíam sete espigas cheias e boas. 6E após elas nasciam sete espigas mirradas, crestadas do vento oriental. 7As espigas mirradas devoravam as sete espigas grandes e cheias. Então, acordou Faraó. Fora isto um sonho. 8De manhã, achando-se ele de espírito perturbado, mandou chamar todos os magos do Egito e todos os seus sábios e lhes contou os sonhos; mas ninguém havia que lhos interpretasse.

9Então, disse a Faraó o copeiro-chefe: Lembro-me hoje das minhas ofensas. 10Estando Faraó mui indignado contra os seus servos e pondo-me sob prisão na casa do comandante da guarda, a mim e ao padeiro-chefe, 11tivemos um sonho na mesma noite, eu e ele; sonhamos, e cada sonho com a sua própria significação.

12Achava-se conosco um jovem hebreu, servo do comandante da guarda; contamos-lhe os nossos sonhos, e ele no-los interpretou, a cada um segundo o seu sonho. 13E como nos interpretou, assim mesmo se deu: eu fui restituído ao meu cargo, o outro foi enforcado.

14Então, Faraó mandou chamar a José, e o fizeram sair à pressa da masmorra; ele se barbeou, mudou de roupa e foi apresentar-se a Faraó. 15Este lhe disse: Tive um sonho, e não há quem o interprete. Ouvi dizer, porém, a teu respeito que, quando ouves um sonho, podes interpretá-lo. 16Respondeu-lhe José: Não está isso em mim; mas Deus dará resposta favorável a Faraó. 17Então, contou Faraó a José: No meu sonho, estava eu de pé na margem do Nilo, 18e eis que subiam dele sete vacas gordas e formosas à vista e pastavam no carriçal. 19Após estas subiam outras vacas, fracas, mui feias à vista e magras; nunca vi outras assim disformes, em toda a terra do Egito. 20E as vacas magras e ruins comiam as primeiras sete gordas; 21e, depois de as terem engolido, não davam aparência de as terem devorado, pois o seu aspecto continuava ruim como no princípio. Então, acordei. 22Depois, vi, em meu sonho, que sete espigas saíam da mesma haste, cheias e boas; 23após elas nasceram sete espigas secas, mirradas e crestadas do vento oriental. 24As sete espigas mirradas devoravam as sete espigas boas. Contei-o aos magos, mas ninguém houve que mo interpretasse.

25Então, lhe respondeu José: O sonho de Faraó é apenas um; Deus manifestou a Faraó o que há de fazer. 26As sete vacas boas serão sete anos; as sete espigas boas, também sete anos; o sonho é um só. 27As sete vacas magras e feias, que subiam após as primeiras, serão sete anos, bem como as sete espigas mirradas e crestadas do vento oriental serão sete anos de fome. 28Esta é a palavra, como acabo de dizer a Faraó, que Deus manifestou a Faraó que ele há de fazer. 29Eis aí vêm sete anos de grande abundância por toda a terra do Egito. 30Seguir-se-ão sete anos de fome, e toda aquela abundância será esquecida na terra do Egito, e a fome consumirá a terra; 31e não será lembrada a abundância na terra, em vista da fome que seguirá, porque será gravíssima. 32O sonho de Faraó foi dúplice, porque a coisa é estabelecida por Deus, e Deus se apressa a fazê-la. 33Agora, pois, escolha Faraó um homem ajuizado e sábio e o ponha sobre a terra do Egito. 34Faça isso Faraó, e ponha administradores sobre a terra, e tome a quinta parte dos frutos da terra do Egito nos sete anos de fartura. 35Ajuntem os administradores toda a colheita dos bons anos que virão, recolham cereal debaixo do poder de Faraó, para mantimento nas cidades, e o guardem. 36Assim, o mantimento será para abastecer a terra nos sete anos da fome que haverá no Egito; para que a terra não pereça de fome.

José como governador do Egito

37O conselho foi agradável a Faraó e a todos os seus oficiais. 38Disse Faraó aos seus oficiais: Acharíamos, porventura, homem como este, em quem há o Espírito de Deus? 39Depois, disse Faraó a José: Visto que Deus te fez saber tudo isto, ninguém há tão ajuizado e sábio como tu. 40Administrarás a minha casa,

41.40
At 7.10
e à tua palavra obedecerá todo o meu povo; somente no trono eu serei maior do que tu. 41Disse mais Faraó a José: Vês que te faço autoridade sobre toda a terra do Egito. 42Então, tirou Faraó o seu anel de sinete da mão e o pôs na mão de José, fê-lo vestir roupas de linho fino e lhe pôs ao pescoço um colar de ouro. 43E fê-lo subir ao seu segundo carro, e clamavam diante dele: Inclinai-vos! Desse modo, o constituiu sobre toda a terra do Egito. 44Disse ainda Faraó a José: Eu sou Faraó, contudo sem a tua ordem ninguém levantará mão ou pé em toda a terra do Egito. 45E a José chamou Faraó de Zafenate-Paneia e lhe deu por mulher a Asenate, filha de Potífera, sacerdote de Om; e percorreu José toda a terra do Egito.

46Era José da idade de trinta anos quando se apresentou a Faraó, rei do Egito, e andou por toda a terra do Egito. 47Nos sete anos de fartura a terra produziu abundantemente. 48E ajuntou José todo o mantimento que houve na terra do Egito durante os sete anos e o guardou nas cidades; o mantimento do campo ao redor de cada cidade foi guardado na mesma cidade. 49Assim, ajuntou José muitíssimo cereal, como a areia do mar, até perder a conta, porque ia além das medidas.

50Antes de chegar a fome, nasceram dois filhos a José, os quais lhe deu Asenate, filha de Potífera, sacerdote de Om. 51José ao primogênito chamou de Manassés, pois disse: Deus me fez esquecer de todos os meus trabalhos e de toda a casa de meu pai. 52Ao segundo, chamou-lhe Efraim, pois disse: Deus me fez próspero na terra da minha aflição.

53Passados os sete anos de abundância, que houve na terra do Egito, 54começaram a vir os sete anos de fome,

41.54
At 7.11
como José havia predito; e havia fome em todas as terras, mas em toda a terra do Egito havia pão. 55Sentindo toda a terra do Egito a fome, clamou o povo a Faraó por pão; e Faraó dizia a todos os egípcios: Ide a José; o que ele vos disser fazei.
41.55
Jo 2.5
56Havendo, pois, fome sobre toda a terra, abriu José todos os celeiros e vendia aos egípcios; porque a fome prevaleceu na terra do Egito. 57E todas as terras vinham ao Egito, para comprar de José, porque a fome prevaleceu em todo o mundo.

42

Os irmãos de José descem ao Egito

421Sabedor Jacó de que havia mantimento no Egito, disse a seus filhos: Por que estais aí a olhar uns para os outros? 2E ajuntou: Tenho ouvido que há cereais

42.2
At 7.12
no Egito; descei até lá e comprai-nos deles, para que vivamos e não morramos. 3Então, desceram dez dos irmãos de José, para comprar cereal do Egito. 4A Benjamim, porém, irmão de José, não enviou Jacó na companhia dos irmãos, porque dizia: Para que não lhe suceda, acaso, algum desastre. 5Entre os que iam, pois, para lá, foram também os filhos de Israel; porque havia fome na terra de Canaã.

6José era governador daquela terra; era ele quem vendia a todos os povos da terra; e os irmãos de José vieram e se prostraram rosto em terra, perante ele. 7Vendo José a seus irmãos, reconheceu-os, porém não se deu a conhecer, e lhes falou asperamente, e lhes perguntou: Donde vindes? Responderam: Da terra de Canaã, para comprar mantimento. 8José reconheceu os irmãos; porém eles não o reconheceram. 9Então, se lembrou José dos sonhos

42.9
Gn 37.5-10
que tivera a respeito deles e lhes disse: Vós sois espiões e viestes para ver os pontos fracos da terra. 10Responderam-lhe: Não, senhor meu; mas vieram os teus servos para comprar mantimento. 11Somos todos filhos de um mesmo homem; somos homens honestos; os teus servos não são espiões. 12Ele, porém, lhes respondeu: Nada disso; pelo contrário, viestes para ver os pontos fracos da terra. 13Eles disseram: Nós, teus servos, somos doze irmãos, filhos de um homem na terra de Canaã; o mais novo está hoje com nosso pai, outro já não existe. 14Então, lhes falou José: É como já vos disse: sois espiões. 15Nisto sereis provados: pela vida de Faraó, daqui não saireis, sem que primeiro venha o vosso irmão mais novo. 16Enviai um dentre vós, que traga vosso irmão; vós ficareis detidos para que sejam provadas as vossas palavras, se há verdade no que dizeis; ou se não, pela vida de Faraó, sois espiões. 17E os meteu juntos em prisão três dias.

18Ao terceiro dia, disse-lhes José: Fazei o seguinte e vivereis, pois temo a Deus. 19Se sois homens honestos, fique detido um de vós na casa da vossa prisão; vós outros ide, levai cereal para suprir a fome das vossas casas. 20E trazei-me vosso irmão mais novo, com o que serão verificadas as vossas palavras, e não morrereis. E eles se dispuseram a fazê-lo. 21Então, disseram uns aos outros: Na verdade, somos culpados, no tocante a nosso irmão, pois lhe vimos a angústia da alma, quando nos rogava, e não lhe acudimos; por isso, nos vem esta ansiedade. 22Respondeu-lhes Rúben: Não vos disse eu:

42.22
Gn 37.21-22
Não pequeis contra o jovem? E não me quisestes ouvir. Pois vedes aí que se requer de nós o seu sangue. 23Eles, porém, não sabiam que José os entendia, porque lhes falava por intérprete. 24E, retirando-se deles, chorou; depois, tornando, lhes falou; tomou a Simeão dentre eles e o algemou na presença deles.

Os irmãos de José regressam do Egito

25Ordenou José que lhes enchessem de cereal os sacos, e lhes restituíssem o dinheiro, a cada um no saco de cereal, e os suprissem de comida para o caminho; e assim lhes foi feito. 26E carregaram o cereal sobre os seus jumentos e partiram dali. 27Abrindo um deles o saco de cereal, para dar de comer ao seu jumento na estalagem, deu com o dinheiro na boca do saco de cereal. 28Então, disse aos irmãos: Devolveram o meu dinheiro; aqui está na boca do saco de cereal. Desfaleceu-lhes o coração, e, atemorizados, entreolhavam-se, dizendo: Que é isto que Deus nos fez? 29E vieram para Jacó, seu pai, na terra de Canaã, e lhe contaram tudo o que lhes acontecera, dizendo: 30O homem, o senhor da terra, falou conosco asperamente e nos tratou como espiões da terra. 31Dissemos-lhe: Somos homens honestos; não somos espiões; 32somos doze irmãos, filhos de um mesmo pai; um já não existe, e o mais novo está hoje com nosso pai na terra de Canaã. 33Respondeu-nos o homem, o senhor da terra: Nisto conhecerei que sois homens honestos: deixai comigo um de vossos irmãos, tomai o cereal para remediar a fome de vossas casas e parti; 34trazei-me vosso irmão mais novo; assim saberei que não sois espiões, mas homens honestos. Então, vos entregarei vosso irmão, e negociareis na terra. 35Aconteceu que, despejando eles os sacos de cereal, eis cada um tinha a sua trouxinha de dinheiro no saco de cereal; e viram as trouxinhas com o dinheiro, eles e seu pai, e temeram. 36Então, lhes disse Jacó, seu pai: Tendes-me privado de filhos: José já não existe, Simeão não está aqui, e ides levar a Benjamim! Todas estas coisas me sobrevêm. 37Mas Rúben disse a seu pai: Mata os meus dois filhos, se to não tornar a trazer; entrega-mo, e eu to restituirei. 38Ele, porém, disse: Meu filho não descerá convosco; seu irmão é morto, e ele ficou só; se lhe sucede algum desastre no caminho por onde fordes, fareis descer minhas cãs com tristeza à sepultura.