Almeida Revista e Atualizada (1993) (ARA)
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Jacó retorna à terra de seus pais

311Então, ouvia Jacó os comentários dos filhos de Labão, que diziam: Jacó se apossou de tudo o que era de nosso pai; e do que era de nosso pai juntou ele toda esta riqueza. 2Jacó, por sua vez, reparou que o rosto de Labão não lhe era favorável, como anteriormente. 3E disse o Senhor a Jacó: Torna à terra de teus pais e à tua parentela; e eu serei contigo. 4Então, Jacó mandou vir Raquel e Lia ao campo, para junto do seu rebanho, 5e lhes disse: Vejo que o rosto de vosso pai não me é favorável como anteriormente; porém o Deus de meu pai tem estado comigo. 6Vós mesmas sabeis que com todo empenho tenho servido a vosso pai; 7mas vosso pai me tem enganado e por dez vezes me mudou o salário; porém Deus não lhe permitiu que me fizesse mal nenhum. 8Se ele dizia: Os salpicados serão o teu salário, então, todos os rebanhos davam salpicados; e se dizia: Os listados serão o teu salário, então, os rebanhos todos davam listados. 9Assim, Deus tomou o gado de vosso pai e mo deu a mim. 10Pois, chegado o tempo em que o rebanho concebia, levantei os olhos e vi em sonhos que os machos que cobriam as ovelhas eram listados, salpicados e malhados. 11E o Anjo de Deus me disse em sonho: Jacó! Eu respondi: Eis-me aqui! 12Ele continuou: Levanta agora os olhos e vê que todos os machos que cobrem o rebanho são listados, salpicados e malhados, porque vejo tudo o que Labão te está fazendo. 13Eu sou o Deus de Betel, onde ungiste uma coluna,

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Gn 28.18
onde me fizeste um voto; levanta-te agora, sai desta terra e volta para a terra de tua parentela. 14Então, responderam Raquel e Lia e lhe disseram: Há ainda para nós parte ou herança na casa de nosso pai? 15Não nos considera ele como estrangeiras? Pois nos vendeu e consumiu tudo o que nos era devido. 16Porque toda a riqueza que Deus tirou de nosso pai é nossa e de nossos filhos; agora, pois, faze tudo o que Deus te disse.

17Então, se levantou Jacó e, fazendo montar seus filhos e suas mulheres em camelos, 18levou todo o seu gado e todos os seus bens que chegou a possuir; o gado de sua propriedade que acumulara em Padã-Arã, para ir a Isaque, seu pai, à terra de Canaã. 19Tendo ido Labão fazer a tosquia das ovelhas, Raquel furtou os ídolos do lar que pertenciam a seu pai. 20E Jacó logrou a Labão, o arameu, não lhe dando a saber que fugia. 21E fugiu com tudo o que lhe pertencia; levantou-se, passou o Eufrates e tomou o rumo da montanha de Gileade.

Labão segue no encalço de Jacó

22No terceiro dia, Labão foi avisado de que Jacó ia fugindo. 23Tomando, pois, consigo a seus irmãos, saiu-lhe no encalço, por sete dias de jornada, e o alcançou na montanha de Gileade. 24De noite, porém, veio Deus a Labão, o arameu, em sonhos, e lhe disse: Guarda-te, não fales a Jacó nem bem nem mal.

25Alcançou, pois, Labão a Jacó. Este havia armado a sua tenda naquela montanha; também Labão armou a sua com seus irmãos, na montanha de Gileade. 26E disse Labão a Jacó: Que fizeste, que me lograste e levaste minhas filhas como cativas pela espada? 27Por que fugiste ocultamente, e me lograste, e nada me fizeste saber, para que eu te despedisse com alegria, e com cânticos, e com tamboril, e com harpa? 28E por que não me permitiste beijar meus filhos e minhas filhas? Nisso procedeste insensatamente. 29Há poder em minhas mãos para vos fazer mal, mas o Deus de vosso pai me falou, ontem à noite, e disse: Guarda-te, não fales a Jacó nem bem nem mal. 30E agora que partiste de vez, porque tens saudade da casa de teu pai, por que me furtaste os meus deuses? 31Respondeu-lhe Jacó: Porque tive medo; pois calculei: não suceda que me tome à força as suas filhas. 32Não viva aquele com quem achares os teus deuses; verifica diante de nossos irmãos o que te pertence e que está comigo e leva-o contigo. Pois Jacó não sabia que Raquel os havia furtado.

33Labão, pois, entrou na tenda de Jacó, na de Lia e na das duas servas, porém não os achou. Tendo saído da tenda de Lia, entrou na de Raquel. 34Ora, Raquel havia tomado os ídolos do lar, e os pusera na sela de um camelo, e estava assentada sobre eles; apalpou Labão toda a tenda e não os achou. 35Então, disse ela a seu pai: Não te agastes, meu senhor, por não poder eu levantar-me na tua presença; pois me acho com as regras das mulheres. Ele procurou, contudo não achou os ídolos do lar.

36Então, se irou Jacó e altercou com Labão; e lhe disse: Qual é a minha transgressão? Qual o meu pecado, que tão furiosamente me tens perseguido? 37Havendo apalpado todos os meus utensílios, que achaste de todos os utensílios de tua casa? Põe-nos aqui diante de meus irmãos e de teus irmãos, para que julguem entre mim e ti. 38Vinte anos eu estive contigo, as tuas ovelhas e as tuas cabras nunca perderam as crias, e não comi os carneiros de teu rebanho. 39Nem te apresentei o que era despedaçado pelas feras; sofri o dano; da minha mão o requerias, tanto o furtado de dia como de noite. 40De maneira que eu andava, de dia consumido pelo calor, de noite, pela geada; e o meu sono me fugia dos olhos. 41Vinte anos permaneci em tua casa; catorze anos te servi por tuas duas filhas e seis anos por teu rebanho; dez vezes me mudaste o salário. 42Se não fora o Deus de meu pai, o Deus de Abraão e o Temor de Isaque, por certo me despedirias agora de mãos vazias. Deus me atendeu ao sofrimento e ao trabalho das minhas mãos e te repreendeu ontem à noite.

A aliança entre Labão e Jacó

43Então, respondeu Labão a Jacó: As filhas são minhas filhas, os filhos são meus filhos, os rebanhos são meus rebanhos, e tudo o que vês é meu; que posso fazer hoje a estas minhas filhas ou aos filhos que elas deram à luz? 44Vem, pois; e façamos aliança, eu e tu, que sirva de testemunho entre mim e ti. 45Então, Jacó tomou uma pedra e a erigiu por coluna. 46E disse a seus irmãos: Ajuntai pedras. E tomaram pedras e fizeram um montão, ao lado do qual comeram. 47Chamou-lhe Labão Jegar-Saaduta; Jacó, porém, lhe chamou Galeede. 48E disse Labão: Seja hoje este montão por testemunha entre mim e ti; por isso, se lhe chamou Galeede 49e Mispa, pois disse: Vigie o Senhor entre mim e ti e nos julgue quando estivermos separados um do outro. 50Se maltratares as minhas filhas e tomares outras mulheres além delas, não estando ninguém conosco, atenta que Deus é testemunha entre mim e ti.

51Disse mais Labão a Jacó: Eis aqui este montão e esta coluna que levantei entre mim e ti. 52Seja o montão testemunha, e seja a coluna testemunha de que para mal não passarei o montão para lá, e tu não passarás o montão e a coluna para cá. 53O Deus de Abraão e o Deus de Naor, o Deus do pai deles, julgue entre nós. E jurou Jacó pelo Temor de Isaque, seu pai. 54E ofereceu Jacó um sacrifício na montanha e convidou seus irmãos para comerem pão; comeram pão e passaram a noite na montanha.

55Tendo-se levantado Labão pela madrugada, beijou seus filhos e suas filhas e os abençoou; e, partindo, voltou para sua casa.

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321Também Jacó seguiu o seu caminho, e anjos de Deus lhe saíram a encontrá-lo. 2Quando os viu, disse: Este é o acampamento de Deus. E chamou àquele lugar Maanaim.

Jacó reconcilia-se com Esaú

3Então, Jacó enviou mensageiros adiante de si a Esaú, seu irmão, à terra de Seir, território de Edom, 4e lhes ordenou: Assim falareis a meu senhor Esaú: Teu servo Jacó manda dizer isto: Como peregrino morei com Labão, em cuja companhia fiquei até agora. 5Tenho bois, jumentos, rebanhos, servos e servas; mando comunicá-lo a meu senhor, para lograr mercê à sua presença.

6Voltaram os mensageiros a Jacó, dizendo: Fomos a teu irmão Esaú; também ele vem de caminho para se encontrar contigo, e quatrocentos homens com ele. 7Então, Jacó teve medo e se perturbou; dividiu em dois bandos o povo que com ele estava, e os rebanhos, e os bois, e os camelos. 8Pois disse: Se vier Esaú a um bando e o ferir, o outro bando escapará.

9E orou Jacó: Deus de meu pai Abraão e Deus de meu pai Isaque, ó Senhor, que me disseste: Torna à tua terra e à tua parentela, e te farei bem; 10sou indigno de todas as misericórdias e de toda a fidelidade que tens usado para com teu servo; pois com apenas o meu cajado atravessei este Jordão; já agora sou dois bandos. 11Livra-me das mãos de meu irmão Esaú, porque eu o temo, para que não venha ele matar-me e as mães com os filhos. 12E disseste: Certamente eu te farei bem e dar-te-ei a descendência como a areia

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Gn 22.17
do mar, que, pela multidão, não se pode contar.

13E, tendo passado ali aquela noite, separou do que tinha um presente para seu irmão Esaú: 14duzentas cabras e vinte bodes; duzentas ovelhas e vinte carneiros; 15trinta camelas de leite com suas crias, quarenta vacas e dez touros; vinte jumentas e dez jumentinhos. 16Entregou-os às mãos dos seus servos, cada rebanho à parte, e disse aos servos: Passai adiante de mim e deixai espaço entre rebanho e rebanho. 17Ordenou ao primeiro, dizendo: Quando Esaú, meu irmão, te encontrar e te perguntar: De quem és, para onde vais, de quem são estes diante de ti? 18Responderás: São de teu servo Jacó; é presente que ele envia a meu senhor Esaú; e eis que ele mesmo vem vindo atrás de nós. 19Ordenou também ao segundo, ao terceiro e a todos os que vinham conduzindo os rebanhos: Falareis desta maneira a Esaú, quando vos encontrardes com ele. 20Direis assim: Eis que o teu servo Jacó vem vindo atrás de nós. Porque dizia consigo mesmo: Eu o aplacarei com o presente que me antecede, depois o verei; porventura me aceitará a presença. 21Assim, passou o presente para diante dele; ele, porém, ficou aquela noite no acampamento.

Jacó luta com Deus e transpõe o vau de Jaboque

22Levantou-se naquela mesma noite, tomou suas duas mulheres, suas duas servas e seus onze filhos e transpôs o vau de Jaboque. 23Tomou-os e fê-los passar o ribeiro; fez passar tudo o que lhe pertencia, 24ficando ele só; e lutava com ele um homem, até ao romper do dia. 25Vendo este que não podia com ele, tocou-lhe na articulação da coxa; deslocou-se a junta da coxa de Jacó, na luta com o homem. 26Disse este: Deixa-me ir, pois já rompeu o dia. Respondeu Jacó: Não te deixarei ir se me não abençoares. 27Perguntou-lhe, pois: Como te chamas? Ele respondeu: Jacó. 28Então, disse: Já não te chamarás Jacó,

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Gn 35.10
e sim Israel, pois como príncipe lutaste com Deus e com os homens e prevaleceste. 29Tornou Jacó: Dize, rogo-te, como te chamas? Respondeu ele: Por que perguntas pelo meu nome? E o abençoou ali. 30Àquele lugar chamou Jacó Peniel, pois disse: Vi a Deus face a face, e a minha vida foi salva. 31Nasceu-lhe o sol, quando ele atravessava Peniel; e manquejava de uma coxa. 32Por isso, os filhos de Israel não comem, até hoje, o nervo do quadril, na articulação da coxa, porque o homem tocou a articulação da coxa de Jacó no nervo do quadril.

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O encontro de Esaú e Jacó

331Levantando Jacó os olhos, viu que Esaú se aproximava, e com ele quatrocentos homens. Então, passou os filhos a Lia, a Raquel e às duas servas. 2Pôs as servas e seus filhos à frente, Lia e seus filhos atrás deles e Raquel e José por últimos. 3E ele mesmo, adiantando-se, prostrou-se à terra sete vezes, até aproximar-se de seu irmão. 4Então, Esaú correu-lhe ao encontro e o abraçou; arrojou-se-lhe ao pescoço e o beijou; e choraram. 5Daí, levantando os olhos, viu as mulheres e os meninos e disse: Quem são estes contigo? Respondeu-lhe Jacó: Os filhos com que Deus agraciou a teu servo. 6Então, se aproximaram as servas, elas e seus filhos, e se prostraram. 7Chegaram também Lia e seus filhos e se prostraram; por último chegaram José e Raquel e se prostraram. 8Perguntou Esaú: Qual é o teu propósito com todos esses bandos que encontrei? Respondeu Jacó: Para lograr mercê na presença de meu senhor. 9Então, disse Esaú: Eu tenho muitos bens, meu irmão; guarda o que tens. 10Mas Jacó insistiu: Não recuses; se logrei mercê diante de ti, peço-te que aceites o meu presente, porquanto vi o teu rosto como se tivesse contemplado o semblante de Deus; e te agradaste de mim. 11Peço-te, pois, recebe o meu presente, que eu te trouxe; porque Deus tem sido generoso para comigo, e tenho fartura. E instou com ele, até que o aceitou.

12Disse Esaú: Partamos e caminhemos; eu seguirei junto de ti. 13Porém Jacó lhe disse: Meu senhor sabe que estes meninos são tenros, e tenho comigo ovelhas e vacas de leite; se forçadas a caminhar demais um só dia, morrerão todos os rebanhos. 14Passe meu senhor adiante de seu servo; eu seguirei guiando-as pouco a pouco, no passo do gado que me vai à frente e no passo dos meninos, até chegar a meu senhor, em Seir.

15Respondeu Esaú: Então, permite que eu deixe contigo da gente que está comigo. Disse Jacó: Para quê? Basta que eu alcance mercê aos olhos de meu senhor. 16Assim, voltou Esaú aquele dia a Seir, pelo caminho por onde viera. 17E Jacó partiu para Sucote, e edificou para si uma casa, e fez palhoças para o seu gado; por isso, o lugar se chamou Sucote.

Jacó chega a Siquém

18Voltando de Padã-Arã, chegou Jacó são e salvo à cidade de Siquém, que está na terra de Canaã; e armou a sua tenda junto da cidade. 19A parte do campo,

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Js 24.32
Jo 4.5
onde armara a sua tenda, ele a comprou dos filhos de Hamor, pai de Siquém, por cem peças de dinheiro. 20E levantou ali um altar e lhe chamou Deus, o Deus de Israel.