Almeida Revista e Atualizada (1993) (ARA)
27

Isaque abençoa a Jacó e a Esaú

271Tendo-se envelhecido Isaque e já não podendo ver, porque os olhos se lhe enfraqueciam, chamou a Esaú, seu filho mais velho, e lhe disse: Meu filho! Respondeu ele: Aqui estou! 2Disse-lhe o pai: Estou velho e não sei o dia da minha morte. 3Agora, pois, toma as tuas armas, a tua aljava e o teu arco, sai ao campo, e apanha para mim alguma caça, 4e faze-me uma comida saborosa, como eu aprecio, e traze-ma, para que eu coma e te abençoe antes que eu morra. 5Rebeca esteve escutando enquanto Isaque falava com Esaú, seu filho. E foi-se Esaú ao campo para apanhar a caça e trazê-la. 6Então, disse Rebeca a Jacó, seu filho: Ouvi teu pai falar com Esaú, teu irmão, assim: 7Traze caça e faze-me uma comida saborosa, para que eu coma e te abençoe diante do Senhor, antes que eu morra. 8Agora, pois, meu filho, atende às minhas palavras com que te ordeno. 9Vai ao rebanho e traze-me dois bons cabritos; deles farei uma saborosa comida para teu pai, como ele aprecia; 10levá-la-ás a teu pai, para que a coma e te abençoe, antes que morra. 11Disse Jacó a Rebeca, sua mãe: Esaú, meu irmão, é homem cabeludo, e eu, homem liso. 12Dar-se-á o caso de meu pai me apalpar, e passarei a seus olhos por zombador; assim, trarei sobre mim maldição e não bênção. 13Respondeu-lhe a mãe: Caia sobre mim essa maldição, meu filho; atende somente o que eu te digo, vai e traze-mos. 14Ele foi, tomou-os e os trouxe a sua mãe, que fez uma saborosa comida, como o pai dele apreciava. 15Depois, tomou Rebeca a melhor roupa de Esaú, seu filho mais velho, roupa que tinha consigo em casa, e vestiu a Jacó, seu filho mais novo. 16Com a pele dos cabritos cobriu-lhe as mãos e a lisura do pescoço. 17Então, entregou a Jacó, seu filho, a comida saborosa e o pão que havia preparado.

18Jacó foi a seu pai e disse: Meu pai! Ele respondeu: Fala! Quem és tu, meu filho? 19Respondeu Jacó a seu pai: Sou Esaú, teu primogênito; fiz o que me ordenaste. Levanta-te, pois, assenta-te e come da minha caça, para que me abençoes. 20Disse Isaque a seu filho: Como é isso que a pudeste achar tão depressa, meu filho? Ele respondeu: Porque o Senhor, teu Deus, a mandou ao meu encontro. 21Então, disse Isaque a Jacó: Chega-te aqui, para que eu te apalpe, meu filho, e veja se és meu filho Esaú ou não. 22Jacó chegou-se a Isaque, seu pai, que o apalpou e disse: A voz é de Jacó, porém as mãos são de Esaú. 23E não o reconheceu, porque as mãos, com efeito, estavam peludas como as de seu irmão Esaú. E o abençoou. 24E lhe disse: És meu filho Esaú mesmo? Ele respondeu: Eu sou. 25Então, disse: Chega isso para perto de mim, para que eu coma da caça de meu filho; para que eu te abençoe. Chegou-lho, e ele comeu; trouxe-lhe também vinho, e ele bebeu. 26Então, lhe disse Isaque, seu pai: Chega-te e dá-me um beijo, meu filho. 27Ele se chegou e o beijou. Então, o pai aspirou o cheiro da roupa dele, e o abençoou, e disse:

Eis que o cheiro do meu filho

é como o cheiro do campo, que o Senhor abençoou;

28Deus te dê do orvalho do céu,

e da exuberância da terra,

e fartura de trigo e de mosto.

29Sirvam-te povos,

e nações te reverenciem;

sê senhor de teus irmãos,

e os filhos de tua mãe se encurvem a ti;

maldito

27.29
Gn 12.3
seja o que te amaldiçoar,

e abençoado o que te abençoar.

27.27-29
Hb 11.20

30Mal acabara Isaque de abençoar a Jacó, tendo este saído da presença de Isaque, seu pai, chega Esaú, seu irmão, da sua caçada. 31E fez também ele uma comida saborosa, a trouxe a seu pai e lhe disse: Levanta-te, meu pai, e come da caça de teu filho, para que me abençoes. 32Perguntou-lhe Isaque, seu pai: Quem és tu? Sou Esaú, teu filho, o teu primogênito, respondeu. 33Então, estremeceu Isaque de violenta comoção e disse: Quem é, pois, aquele que apanhou a caça e ma trouxe? Eu comi de tudo, antes que viesses, e o abençoei, e ele será abençoado. 34Como ouvisse Esaú tais palavras de seu pai, bradou com profundo amargor e lhe disse: Abençoa-me também a mim, meu pai! 35Respondeu-lhe o pai: Veio teu irmão astuciosamente e tomou a tua bênção. 36Disse Esaú: Não é com razão que se chama ele Jacó? Pois já duas vezes me enganou: tirou-me o direito de primogenitura
27.36
Gn 25.29-34
e agora usurpa a bênção que era minha. Disse ainda: Não reservaste, pois, bênção nenhuma para mim? 37Então, respondeu Isaque a Esaú: Eis que o constituí em teu senhor, e todos os seus irmãos lhe dei por servos; de trigo e de mosto o apercebi; que me será dado fazer-te agora, meu filho? 38Disse Esaú a seu pai: Acaso, tens uma única bênção, meu pai? Abençoa-me, também a mim, meu pai. E, levantando Esaú a voz, chorou.
27.38
Hb 12.17
39Então, lhe respondeu Isaque, seu pai:

Longe

27.39
Hb 11.20
dos lugares férteis da terra será a tua habitação,

e sem orvalho que cai do alto.

40Viverás da tua espada

e servirás a teu irmão;

quando, porém, te libertares,

sacudirás o seu jugo

27.40
2Rs 8.20
2Cr 21.8
da tua cerviz.

41Passou Esaú a odiar a Jacó por causa da bênção, com que seu pai o tinha abençoado; e disse consigo: Vêm próximos os dias de luto por meu pai; então, matarei a Jacó, meu irmão. 42Chegaram aos ouvidos de Rebeca estas palavras de Esaú, seu filho mais velho; ela, pois, mandou chamar a Jacó, seu filho mais moço, e lhe disse: Eis que Esaú, teu irmão, se consola a teu respeito, resolvendo matar-te. 43Agora, pois, meu filho, ouve o que te digo: retira-te para a casa de Labão, meu irmão, em Harã; 44fica com ele alguns dias, até que passe o furor de teu irmão, 45e cesse o seu rancor contra ti, e se esqueça do que lhe fizeste. Então, providenciarei e te farei regressar de lá. Por que hei de eu perder os meus dois filhos num só dia?

46Disse Rebeca a Isaque: Aborrecida estou da minha vida, por causa das filhas de Hete; se Jacó tomar esposa dentre as filhas de Hete, tais como estas, as filhas desta terra, de que me servirá a vida?

28

A fuga de Jacó

281Isaque chamou a Jacó e, dando-lhe a sua bênção, lhe ordenou, dizendo: Não tomarás esposa dentre as filhas de Canaã. 2Levanta-te, vai a Padã-Arã, à casa de Betuel, pai de tua mãe, e toma lá por esposa uma das filhas de Labão, irmão de tua mãe. 3Deus Todo-Poderoso te abençoe, e te faça fecundo, e te multiplique para que venhas a ser uma multidão de povos; 4e te dê a bênção de Abraão,

28.4
Gn 17.4-8
a ti e à tua descendência contigo, para que possuas a terra de tuas peregrinações, concedida por Deus a Abraão. 5Assim, despediu Isaque a Jacó, que se foi a Padã-Arã, à casa de Labão, filho de Betuel, o arameu, irmão de Rebeca, mãe de Jacó e de Esaú.

6Vendo, pois, Esaú que Isaque abençoara a Jacó e o enviara a Padã-Arã, para tomar de lá esposa para si; e vendo que, ao abençoá-lo, lhe ordenara, dizendo: Não tomarás mulher dentre as filhas de Canaã; 7e vendo, ainda, que Jacó, obedecendo a seu pai e a sua mãe, fora a Padã-Arã; 8sabedor também de que Isaque, seu pai, não via com bons olhos as filhas de Canaã, 9foi Esaú à casa de Ismael e, além das mulheres que já possuía, tomou por mulher a Maalate, filha de Ismael, filho de Abraão, e irmã de Nebaiote.

A visão da escada

10Partiu Jacó de Berseba e seguiu para Harã. 11Tendo chegado a certo lugar, ali passou a noite, pois já era sol-posto; tomou uma das pedras do lugar, fê-la seu travesseiro e se deitou ali mesmo para dormir. 12E sonhou: Eis posta na terra uma escada cujo topo atingia o céu; e os anjos de Deus subiam e desciam por ela.

28.12
Jo 1.51
13Perto dele estava o Senhor e lhe disse: Eu sou o Senhor, Deus de Abraão, teu pai, e Deus de Isaque. A terra
28.13
Gn 13.14
em que agora estás deitado, eu ta darei, a ti e à tua descendência. 14A tua descendência será como o pó da terra; estender-te-ás para o Ocidente e para o Oriente, para o Norte e para o Sul. Em ti e na tua descendência
28.14
Gn 12.3
22.18
serão abençoadas todas as famílias da terra. 15Eis que eu estou contigo, e te guardarei por onde quer que fores, e te farei voltar a esta terra, porque te não desampararei, até cumprir eu aquilo que te hei referido. 16Despertado Jacó do seu sono, disse: Na verdade, o Senhor está neste lugar, e eu não o sabia. 17E, temendo, disse: Quão temível é este lugar! É a Casa de Deus, a porta dos céus.

A coluna de Betel

18Tendo-se levantado Jacó, cedo, de madrugada, tomou a pedra que havia posto por travesseiro e a erigiu em coluna, sobre cujo topo entornou azeite. 19E ao lugar, cidade que outrora se chamava Luz, deu o nome de Betel. 20Fez também Jacó um voto, dizendo: Se Deus for comigo, e me guardar nesta jornada que empreendo, e me der pão para comer e roupa que me vista, 21de maneira que eu volte em paz para a casa de meu pai, então, o Senhor será o meu Deus; 22e a pedra, que erigi por coluna, será a Casa de Deus; e, de tudo quanto me concederes, certamente eu te darei o dízimo.

29

Jacó encontra-se com Raquel

291Pôs-se Jacó a caminho e se foi à terra do povo do Oriente. 2Olhou, e eis um poço no campo e três rebanhos de ovelhas deitados junto dele; porque daquele poço davam de beber aos rebanhos; e havia grande pedra que tapava a boca do poço. 3Ajuntavam-se ali todos os rebanhos, os pastores removiam a pedra da boca do poço, davam de beber às ovelhas e tornavam a colocá-la no seu devido lugar.

4Perguntou-lhes Jacó: Meus irmãos, donde sois? Responderam: Somos de Harã. 5Perguntou-lhes: Conheceis a Labão, filho de Naor? Responderam: Conhecemos. 6Ele está bom? Perguntou ainda Jacó. Responderam: Está bom. Raquel, sua filha, vem vindo aí com as ovelhas. 7Então, lhes disse: É ainda pleno dia, não é tempo de se recolherem os rebanhos; dai de beber às ovelhas e ide apascentá-las. 8Não o podemos, responderam eles, enquanto não se ajuntarem todos os rebanhos, e seja removida a pedra da boca do poço, e lhes demos de beber.

9Falava-lhes ainda, quando chegou Raquel com as ovelhas de seu pai; porque era pastora. 10Tendo visto Jacó a Raquel, filha de Labão, irmão de sua mãe, e as ovelhas de Labão, chegou-se, removeu a pedra da boca do poço e deu de beber ao rebanho de Labão, irmão de sua mãe. 11Feito isso, Jacó beijou a Raquel e, erguendo a voz, chorou. 12Então, contou Jacó a Raquel que ele era parente de seu pai, pois era filho de Rebeca; ela correu e o comunicou a seu pai.

13Tendo Labão ouvido as novas de Jacó, filho de sua irmã, correu-lhe ao encontro, abraçou-o, beijou-o e o levou para casa. E contou Jacó a Labão os acontecimentos de sua viagem. 14Disse-lhe Labão: De fato, és meu osso e minha carne. E Jacó, pelo espaço de um mês, permaneceu com ele.

15Depois, disse Labão a Jacó: Acaso, por seres meu parente, irás servir-me de graça? Dize-me, qual será o teu salário? 16Ora, Labão tinha duas filhas: Lia, a mais velha, e Raquel, a mais moça. 17Lia tinha os olhos baços, porém Raquel era formosa de porte e de semblante. 18Jacó amava a Raquel e disse: Sete anos te servirei por tua filha mais moça, Raquel. 19Respondeu Labão: Melhor é que eu ta dê, em vez de dá-la a outro homem; fica, pois, comigo. 20Assim, por amor a Raquel, serviu Jacó sete anos; e estes lhe pareceram como poucos dias, pelo muito que a amava.

Lia e Raquel

21Disse Jacó a Labão: Dá-me minha mulher, pois já venceu o prazo, para que me case com ela. 22Reuniu, pois, Labão todos os homens do lugar e deu um banquete. 23À noite, conduziu a Lia, sua filha, e a entregou a Jacó. E coabitaram. 24(Para serva de Lia, sua filha, deu Labão Zilpa, sua serva.) 25Ao amanhecer, viu que era Lia. Por isso, disse Jacó a Labão: Que é isso que me fizeste? Não te servi eu por amor a Raquel? Por que, pois, me enganaste? 26Respondeu Labão: Não se faz assim em nossa terra, dar-se a mais nova antes da primogênita. 27Decorrida a semana desta, dar-te-emos também a outra, pelo trabalho de mais sete anos que ainda me servirás. 28Concordou Jacó, e se passou a semana desta; então, Labão lhe deu por mulher Raquel, sua filha. 29(Para serva de Raquel, sua filha, deu Labão a sua serva Bila.) 30E coabitaram. Mas Jacó amava mais a Raquel do que a Lia; e continuou servindo a Labão por outros sete anos.

Os filhos de Jacó

31Vendo o Senhor que Lia era desprezada, fê-la fecunda; ao passo que Raquel era estéril. 32Concebeu, pois, Lia e deu à luz um filho, a quem chamou Rúben, pois disse: O Senhor atendeu à minha aflição. Por isso, agora me amará meu marido. 33Concebeu outra vez, e deu à luz um filho, e disse: Soube o Senhor que era preterida e me deu mais este; chamou-lhe, pois, Simeão. 34Outra vez concebeu Lia, e deu à luz um filho, e disse: Agora, desta vez, se unirá mais a mim meu marido, porque lhe dei à luz três filhos; por isso, lhe chamou Levi. 35De novo concebeu e deu à luz um filho; então, disse: Esta vez louvarei o Senhor. E por isso lhe chamou Judá; e cessou de dar à luz.