Almeida Revista e Atualizada (1993) (ARA)
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As tribulações da vida

41Vi ainda todas as opressões que se fazem debaixo do sol: vi as lágrimas dos que foram oprimidos, sem que ninguém os consolasse; vi a violência na mão dos opressores, sem que ninguém consolasse os oprimidos. 2Pelo que tenho por mais felizes os que já morreram, mais do que os que ainda vivem; 3porém mais que uns e outros tenho por feliz aquele que ainda não nasceu e não viu as más obras que se fazem debaixo do sol. 4Então, vi que todo trabalho e toda destreza em obras provêm da inveja do homem contra o seu próximo. Também isto é vaidade e correr atrás do vento. 5O tolo cruza os braços e come a própria carne, dizendo: 6Melhor é um punhado de descanso do que ambas as mãos cheias de trabalho e correr atrás do vento.

7Então, considerei outra vaidade debaixo do sol, 8isto é, um homem sem ninguém, não tem filho nem irmã; contudo, não cessa de trabalhar, e seus olhos não se fartam de riquezas; e não diz: Para quem trabalho eu, se nego à minha alma os bens da vida? Também isto é vaidade e enfadonho trabalho.

9Melhor é serem dois do que um, porque têm melhor paga do seu trabalho. 10Porque se caírem, um levanta o companheiro; ai, porém, do que estiver só; pois, caindo, não haverá quem o levante. 11Também, se dois dormirem juntos, eles se aquentarão; mas um só como se aquentará? 12Se alguém quiser prevalecer contra um, os dois lhe resistirão; o cordão de três dobras não se rebenta com facilidade.

13Melhor é o jovem pobre e sábio do que o rei velho e insensato, que já não se deixa admoestar, 14ainda que aquele saia do cárcere para reinar ou nasça pobre no reino deste. 15Vi todos os viventes que andam debaixo do sol com o jovem sucessor, que ficará em lugar do rei. 16Era sem conta todo o povo que ele dominava; tampouco os que virão depois se hão de regozijar nele. Na verdade, que também isto é vaidade e correr atrás do vento.

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A loucura de votos precipitados

51Guarda o pé, quando entrares na Casa de Deus; chegar-se para ouvir é melhor do que oferecer sacrifícios de tolos, pois não sabem que fazem mal. 2Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus; porque Deus está nos céus, e tu, na terra; portanto, sejam poucas as tuas palavras. 3Porque dos muitos trabalhos vêm os sonhos, e do muito falar, palavras néscias. 4Quando a Deus fizeres algum voto, não tardes em cumpri-lo; porque não se agrada de tolos. Cumpre o voto que fazes. 5Melhor é que não votes do que votes e não cumpras. 6Não consintas que a tua boca te faça culpado, nem digas diante do mensageiro de Deus que foi inadvertência; por que razão se iraria Deus por causa da tua palavra, a ponto de destruir as obras das tuas mãos? 7Porque, como na multidão dos sonhos há vaidade, assim também, nas muitas palavras; tu, porém, teme a Deus.

A vaidade das riquezas

8Se vires em alguma província opressão de pobres e o roubo em lugar do direito e da justiça, não te maravilhes de semelhante caso; porque o que está alto tem acima de si outro mais alto que o explora, e sobre estes há ainda outros mais elevados que também exploram. 9O proveito da terra é para todos; até o rei se serve do campo.

10Quem ama o dinheiro jamais dele se farta; e quem ama a abundância nunca se farta da renda; também isto é vaidade. 11Onde os bens se multiplicam, também se multiplicam os que deles comem; que mais proveito, pois, têm os seus donos do que os verem com seus olhos? 12Doce é o sono do trabalhador, quer coma pouco, quer muito; mas a fartura do rico não o deixa dormir. 13Grave mal vi debaixo do sol: as riquezas que seus donos guardam para o próprio dano. 14E, se tais riquezas se perdem por qualquer má aventura, ao filho que gerou nada lhe fica na mão. 15Como saiu do ventre de sua mãe, assim nu voltará, indo-se como veio; e do seu trabalho nada poderá levar consigo. 16Também isto é grave mal: precisamente como veio, assim ele vai; e que proveito lhe vem de haver trabalhado para o vento? 17Nas trevas, comeu em todos os seus dias, com muito enfado, com enfermidades e indignação. 18Eis o que eu vi: boa e bela coisa é comer e beber e gozar cada um do bem de todo o seu trabalho, com que se afadigou debaixo do sol, durante os poucos dias da vida que Deus lhe deu; porque esta é a sua porção. 19Quanto ao homem a quem Deus conferiu riquezas e bens e lhe deu poder para deles comer, e receber a sua porção, e gozar do seu trabalho, isto é dom de Deus. 20Porque não se lembrará muito dos dias da sua vida, porquanto Deus lhe enche o coração de alegria.

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61Há um mal que vi debaixo do sol e que pesa sobre os homens: 2o homem a quem Deus conferiu riquezas, bens e honra, e nada lhe falta de tudo quanto a sua alma deseja, mas Deus não lhe concede que disso coma; antes, o estranho o come; também isto é vaidade e grave aflição. 3Se alguém gerar cem filhos e viver muitos anos, até avançada idade, e se a sua alma não se fartar do bem, e além disso não tiver sepultura, digo que um aborto é mais feliz do que ele; 4pois debalde vem o aborto e em trevas se vai, e de trevas se cobre o seu nome; 5não viu o sol, nada conhece. Todavia, tem mais descanso do que o outro, 6ainda que aquele vivesse duas vezes mil anos, mas não gozasse o bem. Porventura, não vão todos para o mesmo lugar?

7Todo trabalho do homem é para a sua boca; e, contudo, nunca se satisfaz o seu apetite. 8Pois que vantagem tem o sábio sobre o tolo? Ou o pobre que sabe andar perante os vivos? 9Melhor é a vista dos olhos do que o andar ocioso da cobiça; também isto é vaidade e correr atrás do vento.

10A tudo quanto há de vir já se lhe deu o nome, e sabe-se o que é o homem, e que não pode contender com quem é mais forte do que ele. 11É certo que há muitas coisas que só aumentam a vaidade, mas que aproveita isto ao homem? 12Pois quem sabe o que é bom para o homem durante os poucos dias da sua vida de vaidade, os quais gasta como sombra? Quem pode declarar ao homem o que será depois dele debaixo do sol?