Almeida Revista e Atualizada (1993) (ARA)
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A vaidade das possessões

21Disse comigo: vamos! Eu te provarei com a alegria; goza, pois, a felicidade; mas também isso era vaidade. 2Do riso disse: é loucura; e da alegria: de que serve? 3Resolvi no meu coração dar-me ao vinho, regendo-me, contudo, pela sabedoria, e entregar-me à loucura, até ver o que melhor seria que fizessem os filhos dos homens debaixo do céu, durante os poucos dias da sua vida. 4Empreendi grandes obras; edifiquei para mim casas; plantei para mim vinhas. 5Fiz jardins e pomares para mim e nestes plantei árvores frutíferas de toda espécie. 6Fiz para mim açudes, para regar com eles o bosque em que reverdeciam as árvores. 7Comprei servos e servas e tive servos nascidos em casa; também possuí bois e ovelhas, mais do que possuíram todos os que antes de mim viveram em Jerusalém. 8Amontoei também para mim prata e ouro e tesouros de reis e de províncias; provi-me de cantores e cantoras e das delícias dos filhos dos homens: mulheres e mulheres.

2.4-8
1Rs 10.23-27
2Cr 9.22-27
9Engrandeci-me e sobrepujei a todos os que viveram antes de mim em Jerusalém; perseverou também comigo a minha sabedoria. 10Tudo quanto desejaram os meus olhos não lhes neguei, nem privei o coração de alegria alguma, pois eu me alegrava com todas as minhas fadigas, e isso era a recompensa de todas elas. 11Considerei todas as obras que fizeram as minhas mãos, como também o trabalho que eu, com fadigas, havia feito; e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento, e nenhum proveito havia debaixo do sol.

A vaidade da sabedoria

12Então, passei a considerar a sabedoria, e a loucura, e a estultícia. Que fará o homem que seguir ao rei? O mesmo que outros já fizeram. 13Então, vi que a sabedoria é mais proveitosa do que a estultícia, quanto a luz traz mais proveito do que as trevas. 14Os olhos do sábio estão na sua cabeça, mas o estulto anda em trevas; contudo, entendi que o mesmo lhes sucede a ambos. 15Pelo que disse eu comigo: como acontece ao estulto, assim me sucede a mim; por que, pois, busquei eu mais a sabedoria? Então, disse a mim mesmo que também isso era vaidade. 16Pois, tanto do sábio como do estulto, a memória não durará para sempre; pois, passados alguns dias, tudo cai no esquecimento. Ah! Morre o sábio, e da mesma sorte, o estulto! 17Pelo que aborreci a vida, pois me foi penosa a obra que se faz debaixo do sol; sim, tudo é vaidade e correr atrás do vento.

A vaidade do trabalho

18Também aborreci todo o meu trabalho, com que me afadiguei debaixo do sol, visto que o seu ganho eu havia de deixar a quem viesse depois de mim. 19E quem pode dizer se será sábio ou estulto? Contudo, ele terá domínio sobre todo o ganho das minhas fadigas e sabedoria debaixo do sol; também isto é vaidade. 20Então, me empenhei por que o coração se desesperasse de todo trabalho com que me afadigara debaixo do sol. 21Porque há homem cujo trabalho é feito com sabedoria, ciência e destreza; contudo, deixará o seu ganho como porção a quem por ele não se esforçou; também isto é vaidade e grande mal. 22Pois que tem o homem de todo o seu trabalho e da fadiga do seu coração, em que ele anda trabalhando debaixo do sol? 23Porque todos os seus dias são dores, e o seu trabalho, desgosto; até de noite não descansa o seu coração; também isto é vaidade.

24Nada há melhor para o homem do que comer, beber e fazer que a sua alma goze o bem do seu trabalho. No entanto, vi também que isto vem da mão de Deus, 25pois, separado deste, quem pode comer ou quem pode alegrar-se? 26Porque Deus dá sabedoria, conhecimento e prazer ao homem que lhe agrada; mas ao pecador dá trabalho, para que ele ajunte e amontoe, a fim de dar àquele que agrada a Deus. Também isto é vaidade e correr atrás do vento.

3

Tempo para tudo

31Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu: 2há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou; 3tempo de matar e tempo de curar; tempo de derribar e tempo de edificar; 4tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de saltar de alegria; 5tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar; 6tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de deitar fora; 7tempo de rasgar e tempo de coser; tempo de estar calado e tempo de falar; 8tempo de amar e tempo de aborrecer; tempo de guerra e tempo de paz.

O homem não conhece o seu tempo determinado

9Que proveito tem o trabalhador naquilo com que se afadiga? 10Vi o trabalho que Deus impôs aos filhos dos homens, para com ele os afligir. 11Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim. 12Sei que nada há melhor para o homem do que regozijar-se e levar vida regalada; 13e também que é dom de Deus que possa o homem comer, beber e desfrutar o bem de todo o seu trabalho. 14Sei que tudo quanto Deus faz durará eternamente; nada se lhe pode acrescentar e nada lhe tirar; e isto faz Deus para que os homens temam diante dele. 15O que é já foi, e o que há de ser também já foi; Deus fará renovar-se o que se passou.

Semelhança aparente na morte entre homens e animais

16Vi ainda debaixo do sol que no lugar do juízo reinava a maldade e no lugar da justiça, maldade ainda. 17Então, disse comigo: Deus julgará o justo e o perverso; pois há tempo para todo propósito e para toda obra. 18Disse ainda comigo: é por causa dos filhos dos homens, para que Deus os prove, e eles vejam que são em si mesmos como os animais. 19Porque o que sucede aos filhos dos homens sucede aos animais; o mesmo lhes sucede: como morre um, assim morre o outro, todos têm o mesmo fôlego de vida, e nenhuma vantagem tem o homem sobre os animais; porque tudo é vaidade. 20Todos vão para o mesmo lugar; todos procedem do pó e ao pó tornarão. 21Quem sabe se o fôlego de vida dos filhos dos homens se dirige para cima e o dos animais para baixo, para a terra? 22Pelo que vi não haver coisa melhor do que alegrar-se o homem nas suas obras, porque essa é a sua recompensa; quem o fará voltar para ver o que será depois dele?

4

As tribulações da vida

41Vi ainda todas as opressões que se fazem debaixo do sol: vi as lágrimas dos que foram oprimidos, sem que ninguém os consolasse; vi a violência na mão dos opressores, sem que ninguém consolasse os oprimidos. 2Pelo que tenho por mais felizes os que já morreram, mais do que os que ainda vivem; 3porém mais que uns e outros tenho por feliz aquele que ainda não nasceu e não viu as más obras que se fazem debaixo do sol. 4Então, vi que todo trabalho e toda destreza em obras provêm da inveja do homem contra o seu próximo. Também isto é vaidade e correr atrás do vento. 5O tolo cruza os braços e come a própria carne, dizendo: 6Melhor é um punhado de descanso do que ambas as mãos cheias de trabalho e correr atrás do vento.

7Então, considerei outra vaidade debaixo do sol, 8isto é, um homem sem ninguém, não tem filho nem irmã; contudo, não cessa de trabalhar, e seus olhos não se fartam de riquezas; e não diz: Para quem trabalho eu, se nego à minha alma os bens da vida? Também isto é vaidade e enfadonho trabalho.

9Melhor é serem dois do que um, porque têm melhor paga do seu trabalho. 10Porque se caírem, um levanta o companheiro; ai, porém, do que estiver só; pois, caindo, não haverá quem o levante. 11Também, se dois dormirem juntos, eles se aquentarão; mas um só como se aquentará? 12Se alguém quiser prevalecer contra um, os dois lhe resistirão; o cordão de três dobras não se rebenta com facilidade.

13Melhor é o jovem pobre e sábio do que o rei velho e insensato, que já não se deixa admoestar, 14ainda que aquele saia do cárcere para reinar ou nasça pobre no reino deste. 15Vi todos os viventes que andam debaixo do sol com o jovem sucessor, que ficará em lugar do rei. 16Era sem conta todo o povo que ele dominava; tampouco os que virão depois se hão de regozijar nele. Na verdade, que também isto é vaidade e correr atrás do vento.