Almeida Revista e Atualizada (1993) (ARA)
9

A sorte parece ser a mesma para todos

91Deveras me apliquei a todas estas coisas para claramente entender tudo isto: que os justos, e os sábios, e os seus feitos estão nas mãos de Deus; e, se é amor ou se é ódio que está à sua espera, não o sabe o homem. Tudo lhe está oculto no futuro. 2Tudo sucede igualmente a todos: o mesmo sucede ao justo e ao perverso; ao bom, ao puro e ao impuro; tanto ao que sacrifica como ao que não sacrifica; ao bom como ao pecador; ao que jura como ao que teme o juramento. 3Este é o mal que há em tudo quanto se faz debaixo do sol: a todos sucede o mesmo; também o coração dos homens está cheio de maldade, nele há desvarios enquanto vivem; depois, rumo aos mortos. 4Para aquele que está entre os vivos há esperança; porque mais vale um cão vivo do que um leão morto. 5Porque os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem tampouco terão eles recompensa, porque a sua memória jaz no esquecimento. 6Amor, ódio e inveja para eles já pereceram; para sempre não têm eles parte em coisa alguma do que se faz debaixo do sol.

7Vai, pois, come com alegria o teu pão e bebe gostosamente o teu vinho, pois Deus já de antemão se agrada das tuas obras. 8Em todo tempo sejam alvas as tuas vestes, e jamais falte o óleo sobre a tua cabeça. 9Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias de tua vida fugaz, os quais Deus te deu debaixo do sol; porque esta é a tua porção nesta vida pelo trabalho com que te afadigaste debaixo do sol. 10Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque no além, para onde tu vais, não há obra, nem projetos, nem conhecimento, nem sabedoria alguma.

Trabalhos sem recompensa

11Vi ainda debaixo do sol que não é dos ligeiros o prêmio, nem dos valentes, a vitória, nem tampouco dos sábios, o pão, nem ainda dos prudentes, a riqueza, nem dos inteligentes, o favor; porém tudo depende do tempo e do acaso. 12Pois o homem não sabe a sua hora. Como os peixes que se apanham com a rede traiçoeira e como os passarinhos que se prendem com o laço, assim se enredam também os filhos dos homens no tempo da calamidade, quando cai de repente sobre eles.

Exemplo que ilustra esta verdade

13Também vi este exemplo de sabedoria debaixo do sol, que foi para mim grande. 14Houve uma pequena cidade em que havia poucos homens; veio contra ela um grande rei, sitiou-a e levantou contra ela grandes baluartes. 15Encontrou-se nela um homem pobre, porém sábio, que a livrou pela sua sabedoria; contudo, ninguém se lembrou mais daquele pobre. 16Então, disse eu: melhor é a sabedoria do que a força, ainda que a sabedoria do pobre é desprezada, e as suas palavras não são ouvidas. 17As palavras dos sábios, ouvidas em silêncio, valem mais do que os gritos de quem governa entre tolos. 18Melhor é a sabedoria do que as armas de guerra, mas um só pecador destrói muitas coisas boas.

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A excelência da sabedoria

101Qual a mosca morta faz o unguento do perfumador exalar mau cheiro, assim é para a sabedoria e a honra um pouco de estultícia. 2O coração do sábio se inclina para o lado direito, mas o do estulto, para o da esquerda. 3Quando o tolo vai pelo caminho, falta-lhe o entendimento; e, assim, a todos mostra que é estulto. 4Levantando-se contra ti a indignação do governador, não deixes o teu lugar, porque o ânimo sereno acalma grandes ofensores. 5Ainda há um mal que vi debaixo do sol, erro que procede do governador: 6o tolo posto em grandes alturas, mas os ricos assentados em lugar baixo. 7Vi servos a cavalo e príncipes andando a pé como servos sobre a terra. 8Quem abre uma cova nela cairá, e quem rompe um muro, mordê-lo-á uma cobra. 9Quem arranca pedras será maltratado por elas, e o que racha lenha expõe-se ao perigo. 10Se o ferro está embotado, e não se lhe afia o corte, é preciso redobrar a força; mas a sabedoria resolve com bom êxito. 11Se a cobra morder antes de estar encantada, não há vantagem no encantador.

12Nas palavras do sábio há favor, mas ao tolo os seus lábios devoram. 13As primeiras palavras da boca do tolo são estultícia, e as últimas, loucura perversa. 14O estulto multiplica as palavras, ainda que o homem não sabe o que sucederá; e quem lhe manifestará o que será depois dele? 15O trabalho do tolo o fatiga, pois nem sabe ir à cidade.

16Ai de ti, ó terra cujo rei é criança e cujos príncipes se banqueteiam já de manhã. 17Ditosa, tu, ó terra cujo rei é filho de nobres e cujos príncipes se sentam à mesa a seu tempo para refazerem as forças e não para bebedice. 18Pela muita preguiça desaba o teto, e pela frouxidão das mãos goteja a casa. 19O festim faz-se para rir, o vinho alegra a vida, e o dinheiro atende a tudo. 20Nem no teu pensamento amaldiçoes o rei, nem tampouco no mais interior do teu quarto, o rico; porque as aves dos céus poderiam levar a tua voz, e o que tem asas daria notícia das tuas palavras.

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O procedimento prudente do sábio

111Lança o teu pão sobre as águas, porque depois de muitos dias o acharás. 2Reparte com sete e ainda com oito, porque não sabes que mal sobrevirá à terra. 3Estando as nuvens cheias, derramam aguaceiro sobre a terra; caindo a árvore para o sul ou para o norte, no lugar em que cair, aí ficará. 4Quem somente observa o vento nunca semeará, e o que olha para as nuvens nunca segará. 5Assim como tu não sabes qual o caminho do vento, nem como se formam os ossos no ventre da mulher grávida, assim também não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas. 6Semeia pela manhã a tua semente e à tarde não repouses a mão, porque não sabes qual prosperará; se esta, se aquela ou se ambas igualmente serão boas. 7Doce é a luz, e agradável aos olhos, ver o sol. 8Ainda que o homem viva muitos anos, regozije-se em todos eles; contudo, deve lembrar-se de que há dias de trevas, porque serão muitos. Tudo quanto sucede é vaidade.

A mocidade

9Alegra-te, jovem, na tua juventude, e recreie-se o teu coração nos dias da tua mocidade; anda pelos caminhos que satisfazem ao teu coração e agradam aos teus olhos; sabe, porém, que de todas estas coisas Deus te pedirá contas. 10Afasta, pois, do teu coração o desgosto e remove da tua carne a dor, porque a juventude e a primavera da vida são vaidade.

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