Traduzindo a Bíblia em Libras: A Palavra de Deus para surdos e surdos-cegos brasileiros

Por Quéfren de Moura – Consultora de tradução da SBB e das SBU

Interpretação em Libras: Kálita Terren

Antes de voltar ao céu, Jesus disse aos seus discípulos: “Vão por todo o mundo e preguem o evangelho a toda a criatura” (Marcos 16.15). A expressão grega pasē tē ktisei, nessa passagem, caracteriza os seres humanos como criação divina. Isso enfatiza a dimensão universal do evangelho. Dessa forma, Jesus não excluiu nenhum ser humano, mas estendeu o acesso à mensagem da salvação a todas as pessoas do mundo. 

A fim de cumprir a vontade de Jesus, um dos meios pelos quais a Palavra de Deus tem chegado aos corações é a tradução. É ela que torna o texto bíblico acessível em diferentes línguas. Assim, pessoas de todas as partes podem conhecer a verdade que liberta e ter a vida transformada.  

No entanto, tradicionalmente, tende-se a pensar a tradução para línguas orais-auditivas, tanto aquelas utilizadas por um número grande de pessoas, quanto as línguas com um número pequeno de usuários.  

Mas há pessoas cujos idiomas do coração não empregam sons, e que também precisam da Palavra de Deus. Trata-se dos surdos, uma das comunidades com maior necessidade do evangelho no mundo. 

Segundo a World Federation of the Deaf (Federação Mundial de Surdos), há por volta de 70 milhões de surdos no mundo. Mais de 30 milhões são crianças. De acordo com dados da OMS, o número total de surdos passa de 1 bilhão, considerando diferentes níveis de perda auditiva. Estima-se que existam mais de 400 línguas de sinais diferentes usadas pelos surdos. Há pouquíssima literatura traduzida nessas línguas, e apenas uma tradução completa da Bíblia: a ASLV Bible, na língua de sinais americana.  

A língua de sinais não é a simples gestualização da língua oral, mas uma língua à parte, com gramática e estrutura linguística próprias. Por meio dela, surdos têm acesso a direitos e oportunidades, além de conteúdo, informação e conhecimento. 

Para algumas pessoas, talvez surpreenda saber que a Bíblia deva ser traduzida para essa comunidade. Uma vez que a maior parte dos surdos pode enxergar, ouvintes têm a tendência de crer que a Bíblia em papel, traduzida para os idiomas orais-auditivos — no caso do Brasil, o português — é suficiente para alcançar essas pessoas.  Pode ser, mas não é a realidade de todos os surdos.  

O conhecimento da língua oral-auditiva depende do acesso à educação de qualidade, e nem todos os surdos o têm. Além disso, a mensagem no idioma do coração é o meio para que o evangelho se faça compreensível a todas as pessoas — e isso inclui os surdos.  

Por isso, ter a Palavra de Deus na língua de sinais, símbolo importante de identidade e instrumento de interação social para os surdos, é fundamental. Por meio do acesso à tradução, eles podem crescer na fé e em seu relacionamento com Deus, além de desenvolver uma compreensão muito mais profunda e autônoma da Bíblia.   

Tudo isso não é simples ou fácil, e demanda o desenvolvimento de práticas adequadas de tradução. Além disso, envolve o treinamento de tradutores surdos fluentes no idioma, além do registro e da disponibilização da tradução em meios e plataformas visuais de qualidade. 

Mesmo sendo uma tarefa desafiadora, a Sociedade Bíblica do Brasil (SBB) entendeu sua necessidade e importância, e desde 2003 vem buscando apoiar o trabalho de tradução da Bíblia em Libras, a “Língua Brasileira de Sinais”. O intuito da SBB é cooperar com a inclusão no país, contribuindo para a transformação da realidade da comunidade surda, fomentando seu idioma e cumprindo integralmente a missão deixada por Cristo à sua Igreja. 

Hoje, esse trabalho é feito pelo Instituto Expressão Surda (IES), que desde 2008 conta com apoio da SBB e de outras organizações, como a The Seed Company, a American Bible Society e as United Bible Societies. Essa equipe, que já traduziu histórias bíblicas para crianças e porções do Antigo Testamento, vem trabalhando com excelência e contribuindo para que a comunidade surda brasileira tenha acesso à Palavra de Deus em Libras.  

Mas ainda há muito por fazer. A SBB quer expandir esse trabalho e juntar esforços para traduzir mais porções da Bíblia em Libras. E é preciso que o Corpo de Cristo na Terra se engaje com essa missão tão especial.  

Se você ou sua igreja, ministério, comunidade ou organização deseja apoiar a tradução da Bíblia em Libras, escreva para a SBB. Se você ama Jesus e essa comunidade e quer ser um agente de transformação da sociedade brasileira, a SBB terá muito prazer em conhecê-lo e torná-lo um parceiro nessa causa tão importante. 

Ore pelos surdos e surdos-cegos do Brasil, a fim de que a verdade que liberta encontre terreno fértil em seus corações. 

“A cultura surda é compartilhada por indivíduos que se reconhecem como surdos e que têm como principal meio de comunicação a língua de sinais.” 

“A língua de sinais é símbolo importante de identidade e instrumento de interação social para os surdos.” 

“Existem mais de 400 línguas de sinais no mundo, e apenas UMA tradução completa da Bíblia – a ASLV Bible, na língua de sinais americana.” 

Idioma: Libras (Língua Brasileira de Sinais) 

Descrição: A Língua Brasileira de Sinais, conhecida amplamente como “Libras”, é um idioma de modalidade gestual-visual, legalmente reconhecido como meio de comunicação e expressão, usado por milhões de brasileiros, surdos e ouvintes. 

Distribuição pelo Brasil: Ampla (todo o território brasileiro). 

CURIOSIDADES 

● A Libras não é a simples gestualização da língua portuguesa, mas uma língua à parte, com gramática e estrutura linguística próprias. 

● Da mesma forma que nas línguas orais-auditivas existem “palavras”, nas línguas de sinais existem itens lexicais que recebem o nome de “sinais”. 

● Os sinais surgem da combinação de configurações e orientação de mão, movimentos e pontos de articulação — locais no espaço ou no corpo onde os sinais são feitos —, além de expressões faciais e corporais. 

● A Libras não é universal! Cada país (e, muitas vezes, diferentes grupos dentro de um mesmo país) desenvolve a sua própria língua de sinais. 

● Na comunidade surda, cada pessoa recebe um sinal próprio, que a identifica dentre as demais.  

● Você sabia que, entre os surdos, a datilologia, ou o alfabeto manual, é utilizada somente como empréstimo linguístico para nomes próprios e expressões que não possuem um sinal equivalente? Logo, conhecer o alfabeto manual não é suficiente para se comunicar em Libras.

🗓 Publicado em Quinta-feira 5 maio 2022