O que a Bíblia ensina sobre perdão

– por Dr. Vilson Scholz

Perdão é o “ato pelo qual uma pessoa é desobrigada de cumprir o que era de seu dever por quem competia exigi-lo” (Dicionário Houaiss). O tema do perdão lembra a fé cristã e imediatamente remete à Bíblia.

Olhando de longe, tem-se a impressão de que o assunto “perdão” aparece com frequência na Bíblia. No entanto, ele não é tão frequente como se poderia pensar, especialmente no que se refere à linguagem usada para falar do tema.

Um rápido exame na concordância bíblica mostra que o termo “perdão” é bem mais raro do que o verbo “perdoar”. Na Nova Almeida Atualizada, por exemplo, os termos “perdão” e “remissão” (que é sinônimo de perdão) aparecem, somados, apenas 27 vezes. Em contrapartida, a forma verbal “perdoa” (que pode ser imperativo – “perdoa!” – ou indicativo – “ele perdoa”) aparece umas 24 vezes. E esta é apenas uma das formas do verbo “perdoar”.

Mais frequentes são verbos que designam o ato de “perdoar”. Estudiosos do Antigo Testamento costumam citar três verbos hebraicos: salach (usado, por exemplo, em Jr 31.34), nassah (como em Gn 50.17) e kafar (como em Is 6.7). Os três verbos costumam ser traduzidos por “perdoar”.

O verbo hebraico nassah significa também “levantar” e “levar embora”, e este poderia muito bem ser o significado literal que deu origem ao significado metafórico de “perdoar”. À luz disto se poderia dizer que perdoar é levar o pecado embora. Talvez isto seja ‘forçado’ à luz da gramática, mas à luz da Bíblia é possível afirmar que um pecado, que é algo bem real, não se encontra mais sobre os ombros do pecador depois que foi perdoado. (No Novo Testamento, o texto de Jo 1.29 é semelhante a isto. Ali, o verbo traduzido por “tirar” – em grego, áiro – denota a noção de “levantar” e “levar embora”. O Cordeiro de Deus tira o pecado do mundo no sentido de levá-lo embora, colocando-o sobre si.) O outro verbo hebraico, kafar, sugere a noção de “cobrir”, o que poderia indicar que “perdoar” é cobrir a transgressão, que é bem real, no sentido de tirá-la do campo de visão.

No Novo Testamento, os termos gregos mais comuns para o conceito de “perdoar” são o verbo afíemi (ou aphíemi) e o substantivo cognato áfesis (ou áphesis). O substantivo áfesis ocorre 17 vezes no Novo Testamento, em dois significados diferentes: remissão (ou perdão) e libertação. Apenas em Lc 4.18 ele tem o significado de “libertação”. Nas demais ocorrências (como Lc 24.47 e Ef 1.7) costuma ser traduzido, no texto de Almeida, por “remissão”. Outras traduções, como NVI, usam de forma consistente o termo “perdão”. “Perdão” e “remissão” são rigorosamente sinônimos.

O verbo afíemi tem uma pluralidade de significados, no texto grego do Novo Testamento. O léxico de Louw-Nida registra doze significados diferentes, incluindo “despedir ou mandar embora” (Mt 13.36), “divorciar” (1 Co 7.11), “deixar para trás” (Mt 4.20) e, é claro, “perdoar”. Do ponto de vista semântico, “perdoar” e “deixar para trás” não têm, a rigor, nada em comum, embora não falte quem queira argumentar que “perdoar” implica “deixar para trás”. Em termos de significado, o verbo grego charízomai no sentido de “perdoar” (como em Cl 2.13) está mais próximo de afíemi no sentido de “perdoar” do que de afíemi no sentido de “mandar embora”! (Para os demais termos gregos que significam “perdão”, confira o Dicionário de Louw-Nida, subdomínio 40 B, ou seja, 40.8 a 40.13). 

O verbo grego charízomai (que, em alguns contextos, como Gl 3.18, significa “conceder gratuitamente”) é usado, no Novo Testamento, apenas por Lucas (no Evangelho e em Atos, com umas sete ocorrências) e pelo apóstolo Paulo (com 16 ocorrências). Paulo emprega este verbo no sentido de “perdoar” em 2 Co 2.7,10 e 2 Co 12.13, por exemplo. Em contrapartida, o verbo afíemi no sentido de “perdoar” aparece unicamente nos Evangelhos, em Tiago (Tg 5.15) e 1 João (1Jo 1.9; 2.12). O apóstolo Paulo emprega esse verbo no sentido de “perdoar” apenas numa citação do Antigo Testamento, em Rm 4.7.

Estes são dados linguísticos interessantes, que normalmente escapam à atenção de quem lê a Bíblia apenas em tradução. No entanto, mais importante do que ater-se a esses dados filológicos é concluir com algumas observações de cunho teológico. 

  1. Perdoar o pecado é levar o pecado a sério. “Ser tolerante”, que é um valor muito prezado em nossos dias, ainda não significa perdoar. Deus já foi tolerante (Rm 3.25), mas ele é acima de tudo o Deus do perdão (Sl 130.4).
  2. Na Bíblia, o tema do perdão tem o seu ponto focal em Jesus Cristo (Ef 1.7; Cl 1.14).
  3. O perdão divino sempre é concedido de graça a quem não o merece (Mt 18.23-35).
  4.  A proclamação cristã é essencialmente o anúncio do perdão de pecados (Lc 24.47). O batismo (At 2.38) e a ceia do Senhor (Mt 26.28) também se conectam com o tema do perdão.
  5. Ao lado do amor, o perdão é uma marca da comunidade cristã (Ef 4.32; Cl 3.13).

Vilson Scholz é pastor e professor de Teologia Exegética, tem mestrado e doutorado na área do Novo Testamento. Consultor de Tradução da Sociedade Bíblica do Brasil, Scholz é professor da Universidade Luterana do Brasil, em Canoas (RS), tradutor do Novo Testamento Interlinear Grego-Português (SBB) e autor de Princípios de Interpretação Bíblica (Editora da Ulbra).
Publicado na Revista Ultimato, em 29 de março de 2019.

🗓 Publicado em Sexta-feira 29 março 2019
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