A Sociedade da Bíblia e a bíblia da sociedade

Por Erní Walter Seibert

Quando a primeira Sociedade Bíblica, a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, foi criada, em 1804, ao se definir o seu propósito, o primeiro ponto a ser destacado foi que a Bíblia é para todos. Dizer que a Bíblia é para todos tem muitas implicações. Evidentemente, os fundadores da Sociedade Bíblica eram cristãos. A palavra “todos”, naquele contexto, poderia significar todos os cristãos. Quando a primeira Sociedade da Bíblia (Bible Society é mais bem traduzido por “Sociedade da Bíblia”) foi fundada, a Bíblia era um livro caro e raro. A maioria dos cristãos não tinha seu exemplar. Era evidente que todos gostariam de ter a Palavra de Deus. Mas a expressão “A Bíblia para todos” não se restringia aos cristãos.

Os primeiros anos da Sociedade da Bíblia

Em 1804, havia uma grande expansão do contato entre o Oriente e o Ocidente. A comunicação entre culturas estava em pleno andamento, e os valores da sociedade eram, com isso, confrontados. Como lidar, então, com o choque de ideias, as guerras e as questões éticas e morais da própria sociedade? Diante de tudo isso, a Sociedade Bíblica viu reforçada a convicção de que a Bíblia era mesmo “para todos”, não apenas para os membros das igrejas cristãs. Os valores da Bíblia ajudavam a forjar bons valores para a vida em sociedade.

Quando a Bíblia foi trazida pelas primeiras Sociedades Bíblicas para a América Latina, um dos seus primeiros usos foi na alfabetização dos povos. A valorização das escolas foi fruto do trabalho bíblico. Se pensarmos na história, isso é verdade. No Antigo Testamento, a Bíblia menciona que foi criado o sistema de sinagogas. No período depois de Cristo, o sistema de estudos para todas as pessoas e as universidades foram criados a partir da influência benéfica da Bíblia Sagrada. Além disso, podemos citar questões como os cuidados com a saúde, a assistência aos necessitados, a inclusão das pessoas com necessidades especiais, os cuidados com a natureza —  todas essas questões sociais recebiam um tratamento especial dentro da Bíblia Sagrada. Sem dúvida, a Bíblia era um livro muito útil para todos, mesmo para quem não era cristão.

A doutrina social da Bíblia

O resumo da doutrina social da Bíblia é o amor — a Deus e ao próximo. Isso, um pouco mais ampliado, resulta nos Dez Mandamentos. Especialmente a Segunda Tábua dos Dez Mandamentos traz uma série de princípios de vida em sociedade que ajudam a ter paz e harmonia. Os assuntos tratados são respeito pela família e pelas autoridades, defesa da vida, dos princípios de relacionamento humano, da propriedade, da pessoa e dos relacionamentos com a sociedade. Em palavras bíblicas, isso era expresso falando de honrar pai e mãe, não matar, não adulterar, não furtar, não dar falso testemunho e não cobiçar.

Esse é um dos aspectos mais importantes do ensino da Bíblia Sagrada, livro distribuído pelas Sociedades Bíblicas. Essa é a Bíblia que, para os que participam da Sociedade da Bíblia, é distribuída e cuja leitura é estimulada.

A bíblia da sociedade

No entanto, nem sempre isso é aceito pela sociedade em geral. Muitas vezes, a bíblia da sociedade trata de temas diferentes daqueles trazidos pela Bíblia da Sociedade da Bíblia. No fundo, há um confronto de ideias. Muitas vezes, setores da sociedade rechaçam os princípios da Bíblia Sagrada dizendo que são princípios apenas religiosos, e não sociais. Nem sempre esse tipo de reação ajuda o debate ou desenvolve a sociedade. Quando a Bíblia Sagrada chegou a algumas culturas que não davam assistência aos enfermos e os abandonavam à sua própria sorte, sem cuidado algum, os que seguiam os princípios bíblicos, além de passarem a cuidar dos enfermos, tentavam mostrar as vantagens sociais dessa prática. O mesmo ocorria em outros aspectos da vida em sociedade.

Os princípios que são difundidos na sociedade por vezes estão em oposição aos princípios ensinados para a vida social na Bíblia. Os ensinos bíblicos sobre família, direito à vida, propriedade, bom nome, entre outros, em muitas ocasiões, são substituídos por outros princípios. Os argumentos para fazer isso são os mais variados. Entre os mais usados estão: a sociedade evoluiu, os tempos são outros, as pessoas têm o direito de decidir sobre seu destino e assim por diante.

A importância de examinar as Escrituras

Essa confrontação entre a Bíblia da Sociedade da Bíblia e a bíblia da sociedade precisa ser vista com muita atenção por todos. Os princípios de vida comunitária seguidos, sejam quais forem, sempre têm consequências sérias. O que fazer para resolver isso? O conselho bíblico é sempre um só: “Examinai as Escrituras.” A leitura e o estudo da Bíblia Sagrada são o caminho mais sereno para a ação. A leitura e o estudo da Bíblia, para o cristão, conduzem à oração. A oração sempre redunda em ação.

O desafio para as igrejas e os cristãos continua sendo o mesmo: ler e estudar as Escrituras e confrontar o seu ensino com a vida, com as convicções que estão dentro de nós — além de se unir para levar a Bíblia Sagrada a todos. Em 1948, quando foi fundada a Sociedade Bíblica do Brasil, o lema era “dar a Bíblia à pátria”. Um dos oradores da primeira Assembleia Geral da Sociedade Bíblica do Brasil disse que o propósito dos que ali estavam era fazer da Bíblia o livro do Brasil.

O novo tempo em que vivemos nos mostra que esse objetivo continua válido e necessário. Para isso, é fundamental que igrejas e cristãos continuem unidos numa grande Sociedade da Bíblia para levar adiante esse ideal.

🗓 Publicado em Quarta-feira 7 julho 2021